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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O Leonel também faleceu...

04.08.20 | asal

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Chegou esta manhã a triste notícia. Faleceu o Leonel Cardoso Martins, que vivia em Portalegre. Vai ser sepultado esta tarde no cemitério de Portalegre. Já há muito que lutava contra a doença... Ainda falámos com ele quando se encontrava em recolhimento num lar em Portalegre.

Tantas recordações que me percorrem neste momento, ele que partilhou comigo e mais alguns 11 anos de vida no seminário. Somos da mesma idade... Eu falarei de ti.

Hoje, deixo-vos a sentida notícia e homenagem do seu filho, o Rui Cardoso Martins. Vale a pena parar... E rezar pelo eterno descanso do seu pai. Até um dia, Leonel! AH

 

O meu pai, Leonel Cardoso Martins, morreu há três horas. Tivemos a sorte, eu e as minhas duas irmãs, Isabel e Margarida, de poder estar a seu lado nos últimos momentos. Amanhã mesmo, por extraordinaria coincidência, começam em Lisboa os ensaios da peça de teatro que lhe dedico, no Teatro Nacional Dona Maria II: Última Hora.
O funeral será também amanhã no cemitério de Portalegre, a partir das 15h30-16h00. Aqui vos deixo um texto sobre o meu pai e a minha mãe, escrito há alguns dias. Obrigado a todos os amigos.

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SOMOS TODOS CLÁSSICOS

Muitas vezes penso na pacífica, mas corajosa, decisão do meu pai quando resolveu seguir o seu ideal latino. De dia fazer vinho, à noite ler latim. Há um quarto de século, descobriu uma adega na serra de São Mamede, em Portalegre, colinas a 650 metros de altitude, a vista do pico da serra (1025 m.) como um irmãozinho de Vesúvio extinto. Lá em baixo, à sombra das aveloeiras, passa um ribeirinho, e às vezes ovelhas com chocalho, isto é, para cena bucólica só falta pastor e música de sopro. Já lá fui em tempos tocar flauta, descalço na água fresca, esperando uma pastorinha, mas isso agora não interessa. As vinhas altas de São Mamede, espalhadas por vários terrenos do distrito, são hoje disputadas pelos melhores enólogos (portugueses e não só), mas quando o meu pai e a minha mãe para lá se mudaram, construindo a pequena casa da quinta, apenas conseguimos fazer um vinho novo e volúvel, brilhante de cor rubi, às vezes mosto de sangue escuro de boi, prensado a mãos e braços e despejado a fermentar em grandes talhas antigas onde cabe um homem de pé.
Tenho muito orgulho nos meus pais e no que fizeram profissionalmente. Ela, professora primária, ele professor liceal de português, latim e grego (quando estas “línguas mortas” pareciam condenadas a morrer em Portugal). A minha mãe Maria de Lourdes, ou Lurdinhas, quando há dois anos não resistiu à doença, deixou alunos da primária a chorar. Um disse-me no velório: “A tua mãe foi uma das mulheres da minha vida.” Outro aluno fora em tempos entregar-lhe a tese de doutoramento universitário e disse-lhe que só aconteceu graças a ela.
Um meu amigo, que foi aluno do meu pai Leonel, ainda hoje imita o instante em que o professor entusiasmou uma aula gritando o verso de Pessoa: “Merda, sou lúcido!”. Uma vez, no Sul de França, apanhei o meu pai a falar latim com um alemão cor-de-cenoura, a única linguagem que partilhavam.
O meu pai lamenta às vezes eu nunca ter aprendido latim e grego — no português sabia que faço o que posso — e dantes, lendo em voz alta excertos da Bíblia ou versos de Homero, explicava que é preciso treinar estas línguas todos os dias, são como a alta matemática ou um desporto de competição. Também corria muito de madrugada, depois caminhava quilómetros com o cão e passarinhos. E agora, quase do dia para a noite, neste momento em que vos escrevo, o meu querido pai mal pode andar. Uma forma grave da doença a que os antigos deram o nome e a forma de um caranguejo. Mais difícil de esmagar do que a grande centopeia dourada, do que o fogo de Verão escondido na caruma dos pinheiros, que reacende ao primeiro sopro e é preciso calcar rodopiando a bota.
Quero deixar-vos uma frase do meu pai que vos poderá ser útil:
Nunca digas aquela palavra que está a mais, nem sequer a guardes para usar mais tarde.
Está cheia da sabedoria dos séculos da nossa civilização, creio eu. Outra partilha, se me permitem: do meu pai recebi o amor pela literatura, mas só verdadeiramente acabámos por falar, por assim dizer, “a mesma língua”, no dia em que começámos a ler a meias um certo “Dicionário de Sentenças Latinas e Gregas” que me foi parar às mãos num golpe de mudanças de escritório e que nunca mais larguei. Não era meu mas dou-lhe valor, acho que ficou bem entregue. É um livro extraordinário e sábio de Renzo Tosi, professor de Filologia Clássica da Universidade de Bolonha, hoje com 69 anos, mas que muito cedo na vida académica rebentou as escalas pela sua erudição, profundidade comparativa e simplicidade de escrita. Enorme, com 900 páginas (tenho a edição brasileira, da editora Martins Fontes, São Paulo, 1996, tradução de Ivone Castilho Benedetti), o livro dá-nos uma espantosa experiência: mergulhos rápidos e fáceis nas profundidades da nossa cultura, gosto, ética, estética, técnica, amor, guerra, glórias e misérias da humanidade. É também uma montra de luxo das origens das línguas latinas e um instrumento para percebermos a enorme influência do grego antigo na linguagem universal (por exemplo a palavra do momento, e esperemos que não de todo o nosso futuro, Pandemia: pan — de todos+demos — os povos.)
O Dicionário pode abrir-se ao calhas, como muitas vezes faço, e descobrir uma pérola: Difficile est satiram non scribere/Difícil é não escrever uma sátira. Explica-nos Renzo Tosi, nesta que é uma das mais curtas entradas do dicionário: “Esta expressão, ainda conhecida e usada, indica uma situação muito ridícula. Esse também era o seu significado no texto de onde foi extraída (Juvenal, 1, 30).”
A cada sentença sua cabeça. Lá está Alea jacta est/Os dados estão lançados, de Júlio César quando decide atravessar com as suas tropas o rio Rubicão, entrando em guerra com Roma para conquistar o poder. Num exercício incrível de regressão no tempo, de arqueologia histórica, que por vezes chega a frases criadas ou reiventadas por Oscar Wilde, Dante, Cervantes, Tomás de Aquino, Santo Agostinho, os romanos e os gregos antigos, é um livro que descobre a raiz da forma contemporânea de olharmos para nós mesmos e para os outros. Séneca, Platão, Sócrates, Aristóteles, os poetas Horácio, Ovídio, Virgílio, o escritor de Satyricon, Petrónio (Não pode querer cheirar bem quem da cozinha fez morada), os imperadores Augusto, Adriano, o tribuno e advogado Cícero, o historiador Tucídedes, as grandes comédias e tragédias da literatura, latinizações de Jesus Cristo, São Paulo... todos surgem com rigor e equilíbrio, dialogando uns com os outros. É um prazer caminhar entre as frases-mestras que moldaram os últimos 2500 anos do Ocidente, pelo menos.
Arrisco-me a ser fastidioso, não vou entrar em detalhes. Este dicionário é uma alegria que se pode ler em pedaços, aconselho-o a todos, novos e velhos. Aqui deixo algumas sentenças no original e com a tradução, como esta que é, nem mais nem menos, o fundamento de todo o Direito:
Pacta sunt servanda/Os pactos são para cumprir.
Fiz, no entanto, uma recolha mais de acordo com a matéria desta revista Espiral, o fluir do tempo:
Tempus edax rerum/Tempo devorador das coisas.
Tempora mutantur, nos et mutamur in illis/Os tempos mudam e nós mudamos com eles.
Ruit hora/O tempo passa precipitado.
Nec quae praeteriit hora redit potest/A hora que passou não pode voltar.

Vita ipsa... brevis est/ A vida é breve, que primeiro surge quando Salústio escreve sobre a história da conspiração do senador Catilina, e onde, claro, também surge Cícero quando este inventa a frase que às vezes nos apetece usar contra hipócritas: Por quanto tempo mais abusarás da nossa paciência, Catilina?
Voltando ao tempo humano:
Pulvis es et in pulverem reverteris/ És pó e ao pó voltarás.
Omnes una manet nox/Uma só noite nos espera a todos.
Sic transit gloria mundi/Assim passa a glória do mundo.
Motus in fine velocior/O movimento no fim é mais veloz.
Porque quando nos aproximamos do fim, parece que tudo acelera, que já não resta mais tempo.
E espaço para escrever também não, por isso aqui termino...
Mas primeiro dedico este textinho:
Aos meus pais, Maria de Lourdes e Leonel.

Sit tibit terra levis. Que a terra vos seja leve.

Rui Cardoso Martins