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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O início da guerra em Angola (2)

11.11.21 | asal
Meu Bom e estimável Amigo Henriques
Segue mais um artigo sobre a infindável e malograda guerra em Angola. Oxalá, os nossos Amigos do ANIMUS se juntem a estas reflexões e enriqueçam este debate sobre tão complexa e dolorosa página da nossa História recente.
Vamos até Alfragide. Inscrevam-se porque o tempo urge. Lá nos encontraremos...
Abraça-vos cordialmente
Florentino Beirão

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“Já e em força”

O início da guerra em Angola em 15 de março de 1961 e nos meses seguintes deixou profundas marcas nos envolvidos nestes bárbaros acontecimentos, onde jorrou muito sangue e lágrimas. Tanto de fazendeiros como de guerrilheiros. Ainda hoje, esses tempos tumultuosos e algo inesperados são objeto de estudo e controvérsia, tal é a sua complexidade. Note-se que a amplitude e a violência da revolta dos Dembos, cometidos pela União do Povo de Angola (UPA), a partir de 15 de março de 1961 no norte de Angola, apanhou de surpresa boa parte dos observadores políticos. Para melhor compreensão desta brutal barbárie, ocorrida no norte de Angola, tenha-se em conta que o Congo ex-Belga, que faz fronteira com Angola, tinha obtido recentemente a sua independência em junho de 1960. Partilhando dos mesmos ideais, abriu as suas portas aos guerrilheiros angolanos, para os acolher e apoiar. Esta fronteira tornou-se assim muito permeável à implementação da guerrilha, nesta vasta zona de Angola.

Mas vamos por partes porque a cronologia destes acontecimentos é complexa, envolvendo vários protagonistas.

Em 4.01.1961 deu-se no norte de Angola a primeira revolta sangrenta nas fazendas onde era abundantemente cultivado o algodão por trabalhadores negros, em regime de trabalhos forçados. No mês seguinte, o partido do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), fundado em 1956, sendo então apoiado pela União Soviética e Cuba, decidiu atacar a prisão de S. Paulo em Luanda e ainda uma esquadra da polícia, fazendo sete mortos.

Em 15 de março do mesmo ano, foram cometidos massacres nas regiões de S. Salvador e Dembos e nos arredores de Luanda. Calcula-se que foram barbaramente assassinados cerca de 1.200 brancos e 6.000 negros que trabalhavam nas fazendas do algodão. AS fotografias desta barbárie, tanto de negros como de brancos, foram sendo largamente divulgadas na metrópole, através de filmes e livros, para acicatar as populações da metrópole contra os crimes cometidos nesta martirizada região angolana.

Durante os oito meses seguintes, os militares portugueses, enviados da metrópole - só havia 1.500 soldados, antes da guerra em Angola - combateram o Movimento da União das Populações de Angola (UPA), fundada em 07.07.1954 o qual se dedicava a fazer sobretudo guerrilha rural. Em virtude desta região ser tão problemática, as tropas da metrópole aqui permaneceram até haver alguma paz, assegurada pela sua presença.

Entretanto, entre 18 a 20 de abril de 1961, realizou-se a Conferência das Organizações Nacionalistas em Casablanca (Marrocos) onde participaram os movimentos de libertação das colónias de Angola (MPLA), (PAIGC) da Guiné e Cabo Verde e Liga de Goa, Damão e Diu da Índia. Esta iniciativa tinha como objetivo coordenar os esforços da luta contra o colonialismo português, fechado ao diálogo com os Movimentos de Libertação.

Entretanto, quando menos era esperado, em abril de 1961, deu-se na Metrópole o denominado golpe militar da “Abrilada”, liderado pelo ministro da Defesa Botelho Moniz contra Salazar e a sua política colonial.

O ditador não perdeu tempo e nomeou-se a si mesmo ministro da Defesa em 13 de abril de 1961, chamando a si a liderança da guerra do Ultramar. No discurso da sua tomada de posse proferiu a célebre frase que ficou para a história: “andar rapidamente para Angola e em força”.

Em junho de 1961, deu-se a fuga dos estudantes das colónias que viviam na “Casa dos Estudantes do Império” de Lisboa espalhando-se por Espanha, França e Alemanha a fim de militarem nas fileiras dos movimentos de libertação dos seus territórios. Mais tarde, recorde-se, muitos deles acabaram por ser líderes e governantes dos seus países, após a sua independência, a partir de 1975. Entre estes estudantes encontrava-se Agostinho Neto que estudava medicina em Coimbra, Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e Marcelino dos Santos, fundadores de movimentos anticoloniais da Guiné e Cabo Verde, Angola e Moçambique respetivamente.

Embora de início estes jovens estudantes fossem conservadores politicamente, com o passar dos anos foram-se tornando uma forte dor de cabeça para o regime, uma vez que estes lares de estudantes de jovens africanos foram assumindo perspetivas novas e progressistas. Deste modo, começaram a afastar-se dos propósitos para que foram criados - formar quadros afetos ao regime, não justificando assim os apoios financeiros do governo e das empresas coloniais que suportavam os custos desta instituição académica.

forentinobeirao@hotmail.com