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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O DESASSOSSEGO DA PANDEMIA

14.02.21 | asal

Caro António,

Desejo que estejas bem, assim como toda a família. Desejo também que todos os nossos companheiros e respetivas famílias se encontrem bem. Sentindo o desafio lançado no blog e reconhecendo o meu afastamento, aí vai um pequeno texto. Desta vez têm direito a uma espécie de poema (prosa versificada!). Apesar da muito diminuta disponibilidade, tentarei ser um pouco mais assíduo enviando um ou outro texto.

José Centeio.jpg

Forte abraço a todos.

José Centeio (Seja Feliz em Seara de Gente)

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Vivemos um período da nossa vida coletiva, com implicações profundas e porventura ainda não totalmente percetíveis na vida de cada um, que jamais em algum momento imaginámos ser possível. E, contudo, houve quem fosse lançando avisos. As catástrofes, as calamidades, as desgraças, a fúria da natureza maltratada, chegavam-nos através dos media, sobretudo da televisão, com o selo de uma lonjura que nos sossegava no conforto e na proteção de uma sociedade tida e entendida como desenvolvida, mesmo se às vezes fossem bem mais próximos do que a nossa indiferença nos permitia ver. Sem darmos por isso, um dia houve em que a desgraça não só nos bateu à porta como entrou de rompante pela porta dentro, invadindo e abalando a nossa intimidade de boa gente acomodada. A morte aproximou-se demasiado. Não é que ela alguma vez deixasse de estar próxima, mas ganhou visibilidade, impôs-nos a sua presença e obrigou-nos a mudar hábitos empurrando-nos para uma solidão para a qual não estávamos preparados. Mesmo se muitos de nós, na tentativa de ludibriar a morte, vivêssemos sofregamente na vã esperança de condensarmos em cada momento todos os outros que receávamos não poder viver. E assim, no meio dessa vertigem, íamos cavando uma solidão que nos impedia de fruir cada momento como único e com o encantamento de nos ter sido dada essa possibilidade.

Como é natural, essa imposição da morte assustou-nos, tornou-nos irracionais, despertou em nós medos há muito adormecidos, tornou-nos mais frágeis e vulneráveis. Mas revelou também o muito de bom que nos habita, mesmo se soltando em determinados momentos, às vezes com violência, o pouco de mau que em nós também coabita. Contradições da nossa própria e mais íntima humanidade com as quais nem sempre convivemos bem. Este período forçou-nos, mesmo se a contragosto, a confrontar-nos com as nossas fragilidades individuais e coletivas e despertou-nos, mesmo que muitos de nós disso não tenhamos consciência, para a evidência que as sociedades que construímos e que julgávamos robustas e seguras, são bem mais frágeis e inseguras do que a omnipresença do progresso tecnológico e a omnisciência presunçosa do homem nos fizeram crer.

Desnudados, indefesos e expostos à violência do que não conseguimos controlar, tornamo-nos seres vulneráveis que facilmente vão atrás de um qualquer sebastianismo gerado pelo mal-estar irracional e acrítico. Vociferamos contra tudo e contra todos afastando de nós o questionamento sobre o caminho percorrido e o que de bom fomos capazes de construir, apesar do muito que desejaríamos e não fomos capazes por inércia, comodismo, confiança demasiada em quem delegamos o poder, pelo não exercício de uma cidadania criticamente construtiva, pelo silêncio cúmplice ou apenas por cumplicidades ideológicas. O medo torna-nos, agora, prisioneiros dos nossos próprios preconceitos e coage-nos a que nos blindemos numa espécie de bunker interior cujo único horizonte de futuro é a morte precoce e lenta provocada pela gangrena individualista e solitária que nos impede de ver o sol que todos os dias se levanta e se põe, condenados de forma irremediável à pequenez de quem se pensa autossuficiente no amor. Para descanso das nossas consciências tentamos encontrar bodes expiatórios, inventamos teorias que nos servem à medida e incorporamos ideias que, sem que nos apercebamos, são contrárias e desmentem o que ainda ontem confessávamos crer e o que dizíamos ser.

Esta pandemia gerou em nós um desassossego que vai levar longo tempo a aquietar-se, a aquietar-nos. Afastado que seja o tempo das trevas e chegado o momento da serenidade e da paz, espera-se que no meio dos destroços, das feridas abertas, do luto adiado, das despedidas que não o foram, do silêncio sofrido, nos reste ainda a força suficiente para nos acompanharmos uns aos outros, sem olhar à cor da pele, ao lugar de onde vem, ao passado que cada um carrega nas costas, mas apenas com a certeza de que, ao cuidarmos uns nos outros, juntos nos salvaremos.

Tentem ser felizes em seara de gente.

 

Hoje ao acordar

Hoje, ao acordar

Apeteceu-me beber a vida

Lentamente, gole a gole

Sorver cada momento

Como único, porque o é

 

Não que noutros dias

Também ao despertar

Não me apeteça beber a vida

Mas hoje, especialmente

Quero bebê-la e saboreá-la

Sem a sofreguidão de outros dias

 

Talvez um dia, ao acordar

Eu acabe com a pressa de vez

E me proíba de beber a vida

De um único trago

 

Talvez um dia, ao acordar

Eu me dê o tempo

De sorver cada momento

E que chegado o último dia

Eu possa dizer, ao acordar:

Finalmente saciado.

 

José Centeio

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