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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O comboio pequenino

14.12.20 | asal

Elétrico.jpg

Hoje faz anos o Aníbal Ribeiro Henriques. Este nome está a puxar pela minha memória. É que muitas coisas aconteceram na vida dos dois que não esquecem. Muitas desapareceram levadas pelo turbilhão do armazenamento, ou porque se trocaram as caixas ou porque estavam muito cheias e começaram a deitar fora. Na minha idade, acontece!

Ora, o Aníbal é meu primo direito. Os nossos pais nasceram na Ribeira do Vale da Ursa, ali perto dos Cunqueiros e Isna de Oleiros, para vocês localizarem. Dela tenho poucas memórias, mas bem me lembro daquelas camadas de neve que enregelavam os pés. Dizia o meu pai: - “vem atrás de mim e põe os teus pés nas pegadas dos meus para andares melhor…” Mesmo assim, eu enterrava as botas naqueles buracos fundos que meu pai deixava e lá ia caminhando. Eram uns bons quilómetros. Outra recordação era o vinho morangueiro, das uvas americanas (assim se dizia) de pele rija que sempre alegrava uma refeição… A agricultura era difícil, só com encostas de sobe e desce, embora nunca faltasse a água. Bem diferente do meu Ripanso, de terras mais planas e férteis.

De lá saíram os nossos pais quando a tropa os chamou. Meu pai aprendeu, entretanto, o ofício de carpinteiro casando para o Ripanso e meu tio, depois da tropa, foi servir o país na GNR. Entretanto, arrasta também a esposa da mesma aldeia e vão morar para a Sertã.

Assim, nas férias, pude ir viver uns dias para a Sertã, no tempo em que o quartel da GNR era na Alameda da Carvalha, um antigo convento hoje transformado em hotel. Aconteceu o mesmo uns anos mais tarde. Mudam eles para Santarém e convidam-me para ir até à Scalabis, onde pela primeira vez pude passear pelas Portas do Sol, admirar o gótico da Graça e outras maravilhas.

Hoje, pelo telefone, disse ao Aníbal que ele era um gaiato, nos seus 67 anos, ao pé de mim. Mais gaiato era quando se batizou e arranjou como padrinho o meu pai. Nasceu assim outro Aníbal. Mais uma razão para maiores aproximações. E padrinho que se preze não esquece o afilhado. Talvez por agradecimento pelas atenções que meus tios tiveram comigo, quando o Aníbal fez o 2.º ano no Seminário do Gavião, meu pai convidou-o para ir passar uns dias ao Estoril, para onde tinha ido viver este carpinteiro que passou a chamar-se Mestre Aníbal e sempre deixou bom nome em toda a parte.  

E agora começa a aparecer o tal comboio do título.

Como é que o Aníbal vai da Sertã para o Estoril? Trabalhava eu no Colégio de S.to António em Portalegre e já tinha comprado uma Vespa250cm, para verem aquela potência! E estávamos em julho de 1966.

Passo pela Sertã, pego no embrulho da roupa e no gaiato e ala para Lisboa por essas estradas fora (se calhar nem a palavra autoestrada existia!). Em Alpiarça, foi a primeira e única paragem para almoçar. Mas soubemos escolher um restaurante em que pudéssemos ver na TV o memorável jogo do Mundial 66 – o Portugal-Coreia do Norte – 5 a 3.

O primo Aníbal, encantado com a viagem de moto por terras desconhecidas, deliciou-se com o bife com batatas fritas (o que havia de ser?!) e esperámos pelo jogo. Ora bolas, meia hora depois já Portugal perdia por 3-0… E quem aguenta o Aníbal? Cheio de nervoso miudinho, diz: “Primo, vamos embora, não quero ver mais!” O Tonho, mais calmo, insiste para esperar um bocadinho, que o Eusébio ainda pode mexer com o resultado. E assim foi. Mal chegou o 3-1, o Aníbal volta a olhar para o jogo.

E saímos de Alpiarça cheios de alegria e capazes de galgar seca e meca, por vias desconhecidas, que era a primeira vez que eu usava a minha carta de moto por aquelas paragens, mesmo em Lisboa. Carta de moto que me deixou mal em Évora, pois tive de repetir o exame por não saber fazer oitos e ter batido no lancil da estrada (também tive de chumbar uma vez na vida, para ser igual aos outros, não é?)…

Ao chegar a Lisboa, eu já tinha magicado como iria ultrapassar aquela grande cidade. Desviava de Sacavém para Moscavide e enfiava pela rua junto do rio, sem nunca me perder para dentro do labirinto. E assim foi: ia explicando ao Aníbal as poucas coisas que eu já tinha visto na capital, passámos pelo Terreiro do Paço, Cais do Sodré, Alcântara, sempre em frente e havemos de chegar ao Estoril.

Às tantas, grita o Aníbal: “Primo, olhe um comboio pequenino” … Eu olhei para o do Cais do Sodré, mas esse já ele conhecia. O que era novidade era o elétrico de Belém. Foi a grande novidade. Uns dias mais tarde, ainda andámos nele pelas ruas de Lisboa. Agora, é quase só para turistas, se o Covid deixar!

Nunca mais esqueci este acontecimento. Mas outros entretanto sobrevêm. Não é que me telefona o Colaço quando eu estava a escrevinhar esta história?! E quando lhe falo do meu primo, ele grita do outro lado: o quê, o Aníbal é teu primo? Era o nome à frente do meu, somos do mesmo ano…

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Pois, fui olhar o livro do Mons. Félix e descubro tantos nomes com quem tenho privado nos últimos anos em amizade e a comungar os mesmos sentimentos. E foram colegas do Aníbal! Conheço bem o Colaço, o António Assunção, o Alves Jana, o Tobias Delgado, o José Maria Martins, o Silva Duque, o Francisco Simão (por onde andas, Xico?), o Carrajola de Abreu (que há muito não vejo), o Zé Pedro, etc. Grandes amigos!

E tu, Aníbal, quando apareces? Até já estás reformado…

António Henriques

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