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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

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Mitologias lusíadas

Caro Amigo

Em maré de regressarmos a Fátima - nem que seja espiritualmente - uma olhadela para este complexo fenómeno religioso, nunca será demais. Tão rica é a sua simbologia, pelo menos a nível socio-religioso, que sempre vale a pena olharmos para ele com olhos limpos, mas interrogativos. Foi o que tentei fazer nesta minha abordagem. Aí vai ela, para os nossos bons amigos, eis o humilde e despretencioso resultado desta minha revisitação de Fátima. Um lugar de encontro de tantas alegrias e sofrimentos do nosso povo humilde e crente.

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Um cordial abraço...F. Beirão

 

Fátima e a alma portuguesa

Em outubro de 1917, terá ocorrido a última visão dos pastorinhos em Fátima, acompanhada da polémica “dança do sol”. Uma oportuna ocasião para assinalarmos esta efeméride, tentando compreender este complexo fenómeno religioso. É nosso propósito tentar enquadrar na nossa história, de cerca de nove séculos, este popular e marcante acontecimento. Feitas bem as contas, o nosso país é o mais antigo da Europa, com fronteiras bem definidas, a partir do final da dinastia afonsina, desenhadas pelo rei poeta D. Dinis (n. 09.10.1262 – f. 07.01.1325), em Alcanises (12.09. 1297) e o poderoso rei de Castela.

À beira mares plantados, lá nos fomos governando até hoje, onde o “desenrascanso” tem sido uma das principais características do nosso povo: “não nos sabendo governar, nem nos deixando governar”. Assim temos vivido, ora vegetando ora produzindo feitos heroicos, na peugada dos corajosos e indomáveis Lusitanos que, por longos anos fizeram a vida negra às invencíveis hostes romanas. Ao longo dos séculos, com fé em Deus e na Virgem, sempre fomos capazes de manter incólume este torrão natal, se excetuarmos o tempo dos três Filipes.

Recuando à nossa idade–média e ao período renascentista, duas grandes figuras se evidenciaram e se impuseram na historiografia nacional: D. Afonso Henriques (1110-1185) e o infante D. Henrique (1394-1460). O pai da nação, conquistando território aos mouros, e o filho de D. João I, o grande impulsionador da expansão marítima, desbravando “mares nunca dantes navegados”.

Quanto ao nosso primeiro rei, ele entrou na nossa história mítica, como o grande herói fundador, providencial, através de uma narrativa - sabemos hoje que lendária - do milagre da batalha de Ourique, inventada nos séculos XV-XVI. Acreditava-se que o Deus cristão nos abrira o caminho que permitiria garantir a nossa perpétua independência. Este suposto milagre fundacional de Portugal tornava-se assim uma eterna dádiva da providência divina.

Quanto à elaboração mítica do infante D. Henrique, nomeadamente no Estado Novo, este filho de D. João I tornar-se-ia o grande continuador da obra do nosso primeiro rei, o Conquistador das terras à moirama. Pela gesta da expansão marítima, iniciou como este Mestre da Ordem de Cristo, um vasto império ultramarino, assumido mais tarde pelo rei D. Manuel I, simbolizado na esfera armilar que embeleza a janela do Convento de Cristo de Tomar. Mais tarde, o padre António Vieira haveria de glorificar este vasto império, “numa vertente profético-especulativa”, segundo o historiador Pedro Calafate.

Tanto Camões, como mais tarde Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, a uma só voz, não deixariam também de enaltecer os nossos descobrimentos. “Nascer pequeno e morrer grande”, como escreveu Vieira, no séc. XVII, seria a nossa missão e o nosso destino como povo eleito. Se Portugal não pudesse vir a ser grande pela fé, deveria sê-lo pela língua, fisionomia espiritual da pátria, como avançaram alguns intelectuais.

Na peugada deste nosso destino providencial, quanto a nós, poderemos inserir o fenómeno fatimiano do séc. XX. Como sublinhou Miguel Real, “Fátima é profundamente portuguesa, não é um fenómeno isolado, e encontra-se solidamente ancorado na cultura portuguesa, sobretudo na vertente bem constitutiva, transversal à totalidade mítica (e utópica) da história de Portugal, da sua história mítica.

Assim, a Senhora que vinha do Céu acabaria por tornar a Cova da Iria, o “altar do mundo”, um ponto de encontro mítico, garantindo que o nosso país, mais uma vez se transcendia, unindo a terra sofredora, ao céu redentor e consolador das dores dos homens. As tenras e desprotegidas crianças analfabetas que, de início, tinham contra si a família cristã tradicionalista, bem como os poderes religiosos institucionais e os políticos jacobinos, pela sua convicção, foram capazes de resistir, mantendo as suas convicções, contra tudo e contra todos. Na realidade, o fenómeno de Fátima, de natureza popular, ao conquistar a alma do povo, rude e trabalhador, logo acolheu este fenómeno mítico, como um alívio para as suas dores físicas e existenciais. Neste contexto, Fátima acabou por se tornar não um fenómeno isolado da nossa história pátria, mas solidamente inserido na alma do povo e não só.

Nesta linha, a Senhora vinha também ocupar, na alma lusíada, o lugar mítico de D. Sebastião, de D. Afonso Henriques e do Infante D. Henrique. A salvação que vinha do céu, através dos favores da Senhora, seria capaz de vencer os males deste mundo, o comunismo ateu e a mortífera guerra-mundial. Portugal, onde o céu e a terra se tocavam, tornava-se assim o lugar providencial e mítico, de onde havia de irradiar a fé e a paz.

florentinobeirao@hotmail.com

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