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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Memórias de infância

29.09.21 | asal
Dia de São Miguel
 

Sã Mguel.jpg

Era um dia grande. A esperada e movimentada feira de Sã Mguel. A feira decorria no ‘Val Ferreiro’. Havia a feira do gado e a das tendas. Eu gostava de acompanhar o meu pai à feira do gado. Aí o negócio eram vacas, matchos, burros, ovelhas, cabras e porcos.

Gostava de presenciar o apreçar e regatear o preço. O potencial comprador abeirava-se e perguntava: quanto queres/quanto estás a pedir/qual o preço? O vendedor indicava um dado valor. E vinham a seguir os comentários: é uma linda besta, vaca, matcho, junta, parelha,.. mas não vale tanto; nunca os vês; ninguém tos dá. O pedido e a oferta era feita em contos (1000$00) ou notas (100$00). A abordagem era diferente se o ofertante era um negociante profissional de gado ou se era um particular onde o gosto e simpatia por um determinado animal, parelha ou junta tinha um grande peso.
O meu pai levava muitas vezes a sua junta de vacas à feira. Nem sempre era para vender. O orgulho que tinha na sua junta levava para exibir e receber orgulhosamente os elogios. Quando levava bezerros ou novilhos, eram sempre para venda. Durante a feira, por vezes, o meu pai ausentava-se. Eram os momentos mais altos para mim. Vestia a pele de vendedor. Já era um homem! Dizia o preço quando perguntavam e reproduzia alguns comentários ouvidos antes ao meu pai. Não é para me gabar, mas ouvi vários homens dizerem ao meu pai que eu tinha jeito para o negócio.
Estas ausências paternas eram para dar uma volta pela feira para ver quem andava a comprar e estava a vender, para apreçar, fazer comparação do gado à venda, angariar compradores, naturalmente, conversar e trocar impressões.
O mercado do gado era um local, sobretudo, masculino. As mulheres podiam estar por ali a guardar os animais. Havia uma exceção: o local onde se vendiam porcos. Os porcos, as marrãs, os bacoritos, os bácoros e os marrantchos eram especialmente negócio das mulheres ou, quando muito, mistos. Era costume comprar bácoros ou marrantchos para se juntar ao porco e aproveitar os restos, pois o tempo da engorda para a matação estava a aproximar-se. O processo de regatear os preços era similar. Era um processo de descer o pedido e aumentar a oferta. Era comum chegar ao fim com a proposta: «rachamos a diferença ao meio!» Acabam-se as teimosias e selava-se o negócio dando o sinal. Em caso de o comprador se negar ficava sem o dinheiro do sinal. Já o vendedor tinha de dobrá-lo em caso de recusar a venda.
Adorava presenciar todo este fervilhar de vida na feira. Delirava apreciar as diferentes estratégias de quem vendia e comprava. Gostava de aprender naquele laboratório vivo das interações sociais.
Mas o dia de Sã Mguel era também um dia de notícias. Pelo Sã Mguel faziam-se os ajustes e arrendavam-se os terrenos. Os rendeiros mudavam daqui para ali e os arrendatários eram nomeados pelo apelido e as propriedades também elas tinham nome. Os pastores e ganhões ajustavam o ordenado as comedias (comedorias - pagamento em géneros) e as condições (horta, casa, número de cabeças deles, etc.)
Não referi os galináceos e os coelhos porque esses não atingiam a categoria da feira. Eram negócio de praça a par da marouva.
As tendas era o reino das mulheres. A roupa, o vestuário e os cobertores e utensílios domésticos era uma secção autónoma. Eram as crianças a reclamar brinquedos, guloseimas, uma camisola ou uns sapatos. Os homens só eram aí chamados para provar um casaco, uma samarra, um capote.
O lugar em que a separação dos sexos era menos notório era o das ferramentas. Cada um gostava de escolher as suas ferramentas: sachos, entchada, picareta, pá, arreios, etc.

Mário.jpg

Um dia grande e cheio. Um dia de muitas memórias.

Um lugar muito apetitoso e cheiroso era junto do forno da ti Rita P’chota: as belas e variadas maçãs de Alcongosta. Até os olhos se arregalavam. Eram para conservar em palha. Perfume natural da casa no Outono.
 

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