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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Memórias de Idanha-a-Nova - 5

21.09.20 | asal

Olhando para o livro "Autos de Memórias de Entre Duas Idanhas"... 

A história do Jerónymo

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A meio do livro, aparecem 28 páginas especiais, com uma história cheia de significado e escrita à maneira de romance. Lembrei-me logo dos “Fidalgos da Casa Mourisca”, com o Tomé da Póvoa a subir na vida e na escala social, depois de passar de empregado a dono de uma courela.

Toda a narração é muito juvenil e festiva. O “Sr. Vigário” sai da missa dominical e vai encontrando os paroquianos e cada um lhe lembra acontecimentos do ano: os festeiros que fizeram a festa linda do São João, os homens que entram e saem das tabernas - capelinhas onde degolam ginginhas e auguardentes, as mulheres que saúdam “Vá com Deus, Senhor Vigário!” e preparam o caldo para a família, a chusma de mendigos de quem sabe o nome e que lhe acenam da porta de um Solar, onde esperam matar a fome com as suas “cotcharras e malgas”, pois “as senhoras das grandes casas dão ordens para nunca negarem a esmola a um mendigo”.

Chamo a atenção para o inusitado número de mendigos que enxameiam a Idanha, que o pároco conhece pessoalmente e dos quais diz o nome lembrando as ruas onde moram. E eu contei mais de 30! É um dado sociológico significativo: muitos vivem de esmolas…

Voltando à narração, o Sr. Vigário ainda encontra o barbeiro, que não tem clientes porque “cabelos e barbas … foi a noite de S. João, até às duas da matina”. E também mete fala com o sr. Doutor, a quem comunica que recebera notícia do Diretor a aceitar os filhos dele no internato do Colégio de São Fiel, coisa que não agradou aos dois rapazes!

Chega a casa todo feliz e alvoroçado, coisa que as criadas descobrem: «Eu também acho o Senhor muito contente e acaige q’adevinho do que é. Deve ser dos pregões que lá leu na Missa.»

Eram os pregões do casamento da Rita, filha do Jerónimo, com o filho do José Pechorro.

A narração sai entrecortada por outras histórias muito interessantes, a propósito das personagens que vão aparecendo. É o caso do Dr. Cordeiro, patrão e padrinho do Jerónimo, homem bom a quem está reservada uma vida problemática. Juiz de formação, coube-lhe julgar uma mulher que tinha ateado fogo a um palheiro. E a sentença foi bem severa, o que talvez devia ser aplicado também nos dias de hoje: a culpada foi desterrada para África! Mas, no dia em que foi levada num carro para o barco em Lisboa, ela gritou tanto, esconjurou tanta gente pelas ruas de Idanha («imprecações e pragas de amedrontar os mais incréus») que a mãe do Sr. Juiz proibiu o filho de aplicar mais sentenças, acabando ali a sua carreira… Infelizmente também lhe morrem a esposa jovem e os dois filhos, o que leva este escrivão a sentenciar: «Este Homem deve albergar, em sua consciência, atribulações que procura compensar com obras de bem-fazer para com tanta gente e, desta feita, para com o Jeronymo».

O Jerónimo, afilhado do Dr. Cordeiro, recebeu uma courela lá longe, cheia de silvas e pedras, que ele foi amanhando aos poucos, transformando-a num jardim, onde crescem legumes, frutas, tudo o que uma família precisa, graças a uma nora que o burro faz andar. É lá que o novel proprietário também constrói a casa, tosca mas caliada por dentro e por fora.(p. 243)

Mas nem as boas obras são bem vistas pelos outros. Os ricos da vila criticam-no, pois que … «com este andar, queremos um trabalhador e não temos. Todos com hortas!… Proprietários … somos nós e é bom que haja poucos!» (p. 239) E os pobres? Esses «preferem dar largas à inveja e à má-língua! – Sr. Vigário, quem não tem padrinhos morre mouro…»

O nosso escriba confessa admiração pelo Jerónimo. E no dia em que ele veio com a filha, o compadre e o futuro genro apalavrar o casamento, ficou combinado que o Prior iria à sua casa na Horta da Nora «no dia dos pregões da filha…».

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Era o dia de cumprir a promessa. Caminhando por montes e vales, lá chega o Sr. Vigário à Horta da Nora para conviver com aquelas duas famílias que celebram com alegria o futuro casamento da Rita e do José. Mas o que mais o entusiasma é ver esta gente humilde subir na escala social e ser capaz de falar e sentir-se em igualdade com os outros:

- «Quando a minha Idanha tiver muitas e muitas Hortas da Nora, então será, em verdade, a Idanha a Nova. Nesse tempo … não haverá mendigos … jornaleiros no cais da Praça, à espera de trabalho … crianças descalças e ranhosas!»(p. 242)

A alegria é tão esfusiante que no dia do casamento, o prior veste para a cerimónia a Capa d’Asperges (lhama dourada(?) e o sacristão refila (- essa capa é só para as festividades de Corpus e os casamentos dos “meninos ricos”).

Termino hoje as minhas considerações. O que a oferta de um livro me levou a fazer… P. Adelino, peço desculpa se tratei mal esta oferta especial!

Não termina aqui, no entanto, a riqueza deste livro. Eu apanhei muito a parte histórica, mas a nível religioso muito mais se podia dizer. Lembro a força da Confraria das Almas no culto dos mortos, a devoção ao Santíssimo Sacramento e a importância das festividades religiosas, nomeadamente a da Senhora do Almotão (hoje Almurtão-Almortão). Lembro ainda a riqueza fotográfica do livro, em que se evidencia o património cultural e artístico da igreja idanhense.

E para poderem ver bem como eram as nossas casas antigamente, arrasto para aqui a página 244, em que o P. João Afonso Soares descreve o que viu na casa do Jerónimo. Belo retrato da época!

António Henriques

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