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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Memórias de Idanha-a-Nova - 4

18.09.20 | asal

E vamos hoje continuar a reportagem sobre o livro do amigo P. Adelino – “Autos de Memórias de Entre duas Idanhas” – atendo-me a alguns dados significativos do pensamento e ação daquele pároco antigo na passagem da monarquia para a república, que deixou ao pároco do ano 2000 um belíssimo reportório histórico e cultural agora publicado.

 As obras

Em 1891, a paróquia de Idanha estava desgovernada devido à doença do pároco. Ao assumir a paróquia, o novo pastor encarrega-se de a organizar segundo a “sua filosofia de vida”: recuperar receitas, pagar dívidas, escriturar todas as contas a prestar à paróquia e ao Governo Civil e ainda projetar obras e melhoramentos.

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Muitas páginas deste livro são registos de receitas e despesas, atas de reuniões para decidir obras e festividades religiosas e até cópias de correspondência a rogar apoios materiais às autoridades civis e clericais.

Se olharmos para a foto ao lado, vemos a torre do relógio separada da igreja e alcandorada sobre um montão de rochas, que até dificultavam a subida do sacristão para ir tocar os sinos.

Começam logo por aí os melhoramentos - cortar a pedra (47#000 réis) e depois, em nova arrematação, arranjar o adro e preparar o caminho para a torre (60$000 réis).

Antes, já outra obra tinha sido completada, embora sem a interferência deste pároco (1888-1890) – o alargamento do cemitério e o arranjo do caminho para lá (empedramento e grades de proteção).

Igreja10004.jpg

Mas a obra maior foi o assoalhamento da Igreja Matriz (73#500 - «obra para durar pelo menos um século!!!» - é verdade, P. Adelino?) e a reposição de um telhado novo (por fora e por dentro com um teto estucado nas três naves) e reparação de todo o conjunto. A obra estende-se entre 1900 e 1910…

Como foi conseguido o dinheiro?

Da diocese, com algum custo e insistência, vieram 100#000 reis! Do Estado, «não perdi tempo com representações a Ministros e Reis. Essa gente não sabe onde fica a Idanha…». Recorreu a um amigo, Governador Civil de Castelo Branco, de onde lhe chegaram 500#000 reis!

Ainda tentou um empréstimo junto dos 20 mais abastados da terra, com convocatória e “carta entregue em mão” (!), mas sem resultado: «Já basta a minha desilusão!» «… tive a enorme surpresa de, com discrição e algum acanhamento, ter de aceitar donativos dos mais pobres, gestos que me emocionaram tantas vezes…» (p.168)

Contas.jpg

Aqui ao lado, deliciem-se com uma lista de algumas despesas, telha Marselha e companhia!

Sucedem-se as campanhas de donativos e aproveitam-se todos os expedientes: receber dinheiros atrasados, vender o material saído da igreja e receber mais uns milréis das senhoras que têm um banco ou cadeira na igreja! É já na República que se festeja a inauguração… 

Foi muito dinheiro? Cito o autor: «De parcela em parcela … vêm somados … Reis 3.486#230.» Quase 3 contos e meio, a que se somam os dinheiros do novo soalho…

NOTA

Eu ia agora contar a história do Jerónimo, mas essa fica para outro dia. Junto antes uma página do livro para os amigos se deliciarem com a festa. E ainda vai uma memória do Manel Pereira!

Festa0002.jpg

ADENDA A ESTE TRABALHO

Estava eu a avançar com estas linhas quando me telefona o Manuel Pereira a dizer que tem acompanhado com gosto os textos sobre a Idanha. Queria contar-me umas coisas sobre o Adelino Américo Lourenço, o autor desta obra. Os dois são de Escalos de Baixo, com uns anitos de diferença, mas encontravam-se muito quando eram crianças.

O Manel ia muitas vezes à azenha da avó do Adelino, que trabalhava quando havia água para moer uns sacos de cereal. E via este fedelho pequenito a brincar por ali, nas escadas de pedra da casa da avó ou do palheiro que eles tinham.

Um dia meteu-se com o Adelino e perguntou-lhe:

- O que estás tu a fazer?

- Estou a brincar aos altares!

Entretinha-se a colocar pedras sobre pedras, talvez umas a fazer de altar e outras, de santos… Imagens, não tinha, que o dinheiro não chegava para tanto!

E porque é que estas coisas não lhe saíram da cabeça?

Conclusão do Manel: o Adelino nasceu mesmo para ser padre, ainda por cima com uns pais que arranjaram casa logo ao pé da Igreja.

E esta enh?

AH