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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Memórias de Idanha-a-Nova - 3

14.09.20 | asal

Os números não enganam

Já estou no terceiro texto e ainda disse pouco sobre este livro - "Autos de Memórias de Entre duas Idanhas", que o P. Adelino Américo Lourenço publicou em 2006, uma reposição da vida de há 100 anos atrás na “Villa de Idanha-a-Nova”, segundo escritos deixados pelo pároco de então.

O P. João Affonso Soares é um homem dedicado à sua terra, muito organizado nas suas tarefas, entre elas a conservação de livros e documentos e o registo escrito dos dados importantes da sua vida paroquial. Hoje vamos falar de números, sobretudo aqueles que sobressaem como diferentes em comparação com os dias de hoje. E quando lhe dizem que ele gasta muito tempo na escrivaninha a registar dados, ele responde num grito de alma:

«… conheço todos os meus parochianos; adivinho o que lhes vai na alma quando os encontro na rua ou me procuram na igreja. Compreendo a sua ausência magoada em dias de festa, procissão ou romaria. Sei onde estão os pobres e os sem trabalho, as crianças que passam fome, os doentes, os amargurados. Não me passam ao lado os dramas humanos dos meninos expostos, das donzelas prenhas e proibidas de declarar quem é o pai da criança. Conheço pessoalmente e sei onde moram os mendigos da minha Villa de Idanha-a-Nova». (p.90)

Este pároco também regista números ao compulsar os Extractos de Batismos e Óbitos que ele à pressa conseguiu copiar dos livros que a República lhe extorquiu. Já não teve tempo de fazer um extrato do dos casamentos.

Nos 19 anos de monarquia – entre 1891 e 1910 – ele regista 3006 crianças batizadas. É um número bastante significativo, mais de 150 crianças por ano.

Hoje, com 2352 habitantes pelo último censo, a freguesia está bem reduzida em população. E outros números dirão ainda mais: em 1911, o concelho de Idanha-a-Nova registava 10 393 crianças e adolescentes entre os 0 e os 14 anos, mas em 2011, esse número passou a ser apenas – 846. Muito se alterou na função de procriar nestes mais de 100 anos! Criar filhos era conseguir mais braços para o trabalho, sem negar as condições de que hoje dispomos para não termos um “ranchinho” à nossa volta!

Por mera curiosidade, descobri que o concelho de Idanha-a-Nova está no top 10 de nascimentos em 2016, no que se refere ao número médio de crianças por mulher em idade fértil. Idanha-a-Nova ocupa o 9º lugar (1,77), o que ainda não chega para a população se reproduzir na totalidade.

Voltando aos números, o escriba diz que todos se batizavam no primeiro ano de vida, mas destes ele também contou os que no mesmo ano passaram a anjinhos, nome dado aos que eram enterrados. Foram 517, uns 17% que não passavam do primeiro ano, tal não era a taxa de mortalidade. Muito sofreram as famílias… O autor até chama a estes anos “tempos de maldição”…

Outro dado sociológico bem diferente de hoje é o que se refere aos meninos expostos, crianças que foram enjeitadas à nascença e que aqui têm uma palavra de carinho: «… deixados à porta, em pequenino berço, no silêncio da noite anterior. Noite escura como breu, em todos os sentidos! Alguns encontraram a ternura de jovens mães ainda em tempo de amamentar … ou de casais que, no meio do seu ranchinho, alargaram um pouco a roda à hora do comer e meteram mais um para levar a colher da comida à boca, acabando por ser aceite como mais um filho e mais um irmão. Outros foram deixados intencionalmente à porta de casais sem filhos e deles receberam dedicação e amor, para toda a vida!» (p. 50)

Como se vê, não é preciso haver a tal roda dos mosteiros, onde se colocavam os meninos enjeitados. No livro, não vi referência a este instrumento, que foi oficializado em Portugal e perdurou até ao liberalismo.

Humanamente falando, esta prática talvez fosse menos destruidora das mães do que os abortos de hoje. Os filhos seguiam a sua vida, mesmo sem saberem dos pais. O ferrete, no entanto, ficava para toda a vida no assento de batismo: no lugar da filiação, exarava-se a palavra exposto

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Por hoje, fico por aqui. Mas eu ainda pretendo continuar para mostrar mais algumas preciosidades. Nem sequer falei ainda da Senhora do Almotão (!!!).

Seguem duas fotos: uma com o P. Adelino a cantar à Senhora e outra com uma página do livro, onde cada um pode olhar para os números referidos no texto.

(continua)

António Henriques

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