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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Memórias de Idanha-a-Nova - 2

12.09.20 | asal

O escrivão destas Memórias

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À medida que ia lendo páginas dos "Autos de Memórias de Entre duas Idanhas", nascia em mim uma admiração sincera por este “cidadão de Portugal” (como ele se intitula!) e súbdito de Sua Majestade (!!!).

Trata-se do P. João Affonso Soares, nascido em Idanha em 20/10/1838, ordenado presbítero em 1861 com a idade de 22 anos e que assumiu a paroquialidade de Idanha-a-Nova em agosto de 1891. No entanto, só em 1899 (passados 8 anos), depois de fazer exame de colação, passou a “pároco colado”.

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O que é que isto quer dizer? No tempo da monarquia, os padres concorriam para tomar conta de uma paróquia, ficando com um estatuto religioso e civil, prestando contas ao bispo (assuntos religiosos) e ao governador civil (assuntos civis). Eram semelhantes a um Presidente de Junta de Freguesia como Presidentes da Junta de Paróquia, encarregando-se dos recenseamentos eleitoral e militar, das certidões de bom comportamento e de pobreza, de enviar mensalmente a lista de nascimentos, casamentos e óbitos, vigiar para que os enterramentos não se fizessem fora do cemitério ou na igreja, ter o cuidado dos expostos…

Muito diferente é a situação dos padres de hoje, que são canonicamente uma extensão do bispo nas paróquias, que os nomeia e exonera de acordo com a sua vontade ou, por outras palavras, segundo o entendimento do que é melhor para a sua diocese. Nunca passam a efetivos!

Voltando ao nosso escrivão de Idanha, O P. João Afonso Soares exerceu o seu múnus durante 23 anos. Usando suas palavras: «Foram vinte e três anos de devotado trabalho de Parocho da minha Villa natal a qual sempre amei e pastoreei com zelo apaixonado, sendo oito como Encarregado da Parochialidade e quinze, como Parocho colado».

Depois de renunciar ao seu ofício, com 76 anos, é o seu sucessor que lhe pede um relatório em que lhe desse «esmiuçada noticia dos conteúdos históricos dispersos por esses livros». Aos 81 anos, anda ele atarefado a reunir apontamentos sobre a história da paróquia, reunindo na sua secretária toda a documentação existente. São livros de contas, inventários, regulamentos, registos de batismos, casamentos e óbitos (com que a República iniciou o seu Registo Civil), descrição minuciosa de todo o património litúrgico… Podemos dizer que é todo o séc. XIX que por ali passa. O Livro da Confraria das Almas é de 1818…

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O P. Adelino fez um trabalho minucioso ao transcrever meticulosamente cada uma das “laudas” existentes na tal caixa misteriosa – um tesouro!

A pessoa - pensamento e ação

Já escrevi que o P. João Afonso Soares era um comentador independente, amigo sincero da sua Igreja e da sua Idanha.

Acrescento que ele naturalmente se mostra afeiçoado à monarquia: «Em preito de memória saudosa, guardo a colecção completa das moedas emitidas no curto reinado do último monarca português…».

E não esquece os atropelos da República «a Igreja transitava das ameaças da maçonaria dos últimos governos monárquicos para cair indefesa nas garras da República…». Refere mesmo o “vergonhoso exílio” imposto a D. António Moutinho, bispo de Portalegre, a quem espoliaram o paço e expulsaram, vindo acolher-se em Proença-a-Nova.

Curiosamente, na sua independência, ele afirma que «a Igreja em Portugal está aproveitando esta provação (republicana) para se libertar das amarras que a ligavam penosamente ao regime monárquico…».

Mas já na monarquia, ao tempo do liberalismo exacerbado, a propósito da expulsão das ordens religiosas, ele é claro: «O espectáculo de delapidação e vandalismo que se verificou nessa altura, comoveu e indignou todos os Homens de Cultura, mesmo os pouco afectos à Igreja, como o escritor e historiador Alexandre Herculano, o qual energicamente lamentava a perda irreparável de in-fólios e incunábulos, …, arrebatados às velhas bibliotecas dos mosteiros e lançados ao lixo por gente insana e estúpida» (p. 300)

A mesma liberdade de espírito transparece ao falar de tantas crianças – anjinhos- que ele acompanha à sepultura: «continuo a não aceitar que a mortandade tenha tantos direitos, precisamente sobre os mais inocentes»!

Como homem de acão, mostra-se bem organizado, quer na recolha das receitas quer no pagamento das dívidas, sempre com saldos positivos. Faz obras na Igreja e na torre, no cemitério e nas capelas e mostra a documentação, as cartas de rogação e as de agradecimento, assim como os contratos que ia fazendo.

Ficamos hoje por aqui. Brevemente, virão outras achegas. (continua)

António Henriques