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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Memórias da adolescência

07.08.20 | asal

Mais uma boa "memória" de Alcains! Obrigado, Mário. AH

Mário Pissarra.jpeg

 

Desapeei da carreira e esperava-me o meu irmão mais novo. Esperei pela mala e ao aprontar-me para seguir para casa pergunta ele: e a mala grande? Ficou em Alcains, respondi. A conversa ficou por aqui. Durante todas as férias mais ninguém tocou no assunto. Mas o problema era grave. Trazer a mala grande do seminário equivalia ou ao abandono voluntário ou à expulsão. Ora e eu nunca tinha manifestado o desejo de o abandonar. Logo, tinha estado em risco de expulsão. O meu irmão era demasiado novo para perceber a gravidade da situação. Limitou-se a ouvir alguma conversa e achou que faltava alguma coisa. Alguém havia preparado os meus pais para uma possível expulsão. Mais tarde tive uma situação que passou de dramática a um certo alívio. O vice-reitor, Pe Chaves, chamou me ao seu gabinete. Começou com um discurso do género: «sabes, as coisas nem sempre são como nós desejamos e queremos». A partir daí desliguei e pensei para comigo: é desta! Vais ser expulso! Ele continuou a sua arenga e depois acabou por me dizer que tinha falecido o meu avô Mário e que podia ir ao funeral. Acompanhei-o à sua última morada, mas com um peso nos ombros do tamanho do mundo. Tinha sentido um certo alívio ao saber que tinha partido.

Ao voltar das férias procurei inteirar-me do que se tinha passado. Ao tempo havia no seminário de Alcains uma intensa campanha contra andar com as mãos nos bolsos. Era uma insistência permanente para não meter ou trazer as mãos nos bolsos. O grande argumento era que os jovens de mãos nos bolsos pareciam já uns velhos. Os mais maliciosos iam comentando: «eles pensam que os bolsos estão rotos ou não têm fundo.» Haveria mesmo um sacerdote que tinha uma grave fixação e que nunca se cansava de insistir que ter ou andar com as mãos nos bolsos era para tocar nos órgãos sexuais. Se os bolsos dos outros estavam rotos ou não tinham fundo é coisa que nunca soube. A resposta para os meus é negativa. Se havia toques nos órgãos sexuais direi que sim e até achava e Memórias da adolescência Tim tim.jpgacho natural. Que as nossas mentes fossem tão pérfidas quanto a do referido sacerdote é uma certeza e nunca me suscitou a menor dúvida. Quando nos apercebemos da razão desta campanha doentia contra as mãos nos bolsos começou a circular uma vingança muda, mas muito repetida entre nós. Se as batinas dos padres fossem sinos, então haveria muitos mais sinos a tocar, pois não seria necessário sineiro.

Ao ver a imagem que ilustra estas ocorrências da minha adolescência exclamei: ora aí está. De facto, eu cocei os ditos cujos. Contudo, nem sabia da existência dos Tintin’s e da Milu. Nesses nunca toquei. Uma infância sem livros e onde os tintins tinham outro nome.

Permaneceu até hoje a pergunta: quantas vezes o mal está na cabeça do acusador e não no comportamento dos acusados?
Mário Pissarra

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