Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Mais sobre Dante

29.06.21 | asal

Meu Bom António

 Aí vai mais um texto sobre Dante. No próximo. farei alguma análise textual ao Inferno. Depois, se Deus nos der vida e saúde, sobre o Purgatório e a festa jubilosa do Paraíso. Achas que estarei a chatear o pessoal?  Eu só quero ajudar um pouquinho para situar o meu querido leitor, caso oiçam falar do poeta florentino, neste ano  que lhe é consagrado.  No Museu dos Coches, está a exposição "Dante Plus 700" até 31 de de dezembro. Lá irei se a peste o permitir. Um rija cotovelada de agradecimento do João. Buona giornata. Buon pranzo Oiço aos domingos o Papa Francisco. 
 
Resposta: João Lopes, o teu esforço é um lenitivo para nós, que estamos a aprender! AH

João Lopes d.jpg

 

     A Vida Política de Dante Alighieri( 1265- 1321)

    Em 1294-95, Dante mergulhou na vida política de Florença, quer por vocação, quer por necessidade, dados os encargos que assumiu, como chefe de família.  Currículo não lhe faltava. À vasta cultura humanista juntava os conhecimentos jurídicos que a frequência da Biblioteca de Brunetto Latini, famoso Notário, lhe facultara.

  Várias vezes, fora convidado a participar, como orador, no Conselho dos Cem, parlamento da Comuna, onde tinham assento os representantes da oligarquia florentina, que respondia apenas perante os seis priores, a mais alta magistratura da cidade - esclarece o erudito A. Mega Ferreira. (2017: 44) O seu desejo era entrar lá como membro efetivo.  Mas, para concorrer à eleição, não lhe bastava o prestígio de poeta e de enciclopedista que todos lhe reconheciam, sendo um dos “ sapientes” ou conselheiros a que os políticos e homens do povo, com frequência, recorriam, para resolver qualquer questão mais intrincada das suas vidas. Sempre muito cautelosos, os florentinos, para afastar suspeitas de corrupção, exigiam ao candidato um rendimento base de 600 florins em ouro.  Muito acima das possibilidades de um letrado sem emprego fixo. Vieram então em seu auxílio os Alighieri e os Donati, o pai de Gemma, sobretudo, para avalizarem um empréstimo nesse montante.  E Dante correu a inscrever-se na corporação dos médicos e boticários para se tornar elegível.  Daí a ser eleito para o colégio dos priores, cargo curto, mas muito bem pago, seria um passo de habilidade, coragem e diplomacia, dotes, que, não obstante alguma ingenuidade no lidar com a astúcia e sem-vergonhice alheia, lhe sobravam.

   Em 1295, a efervescência da vida política está ao rubro. O Papa não se cansava de fazer exigências, reclamando tropas e dinheiro, o que exasperava os guelfos Brancos, partido em que Dante militava. Os guelfos negros, esses, tudo aceitavam, já que a eles incumbia o encargo da cobrança dos impostos papais em toda a Toscana, arrecadando a percentagem devida. Situação potencialmente conflituosa que tantas vezes em escaramuças e guerras de rua  explodia, obrigando o poeta a usar a espada de cavaleiro, manejada com destreza, em muitas ocasiões já provada.

 Na verdade, neste final do século XIII, o cesarismo papal não tinha limites, sonhando com a criação de um Estado teocrático universal no Ocidente, ideia que os historiadores da Igreja consideram anacrónica e fora do contexto da nova realidade.

  No Natal de 1299, para criar uma aparência de paz, institui, por decreto, o Ano Santo ou Jubileu para o ano de 1300, recuperando uma solenidade judaica, de elevada repercussão moral, conforme o Levítico, 25, 8-22. “Santificareis o quinquagésimo ano, proclamando a liberdade de todos os que a habitam” Como?  Com o perdão das dívidas, libertando os escravos e restituindo às famílias o seu primitivo património, que, por necessidade, tiveram de alienar. A palavra alatinada vem do hebraico yobel, chifre de carneiro que servia de trombeta para anunciar tão memorável evento de júbilo e liberdade, marca distintiva do humanismo que demarcava Israel das nações vizinhas.

 Acorreram 200 mil peregrinos a Roma, cidade santa, procurando açodadamente visitar as igrejas de Pedro e Paulo, onde lhes seria concedida a indulgência ou perdão dos pecados, a troco de uma esmola em grossas moedas de ouro. Entre a multidão, encontrava-se Dante, peregrino, que esperava beneficiar da indulgência plenária para os seus pecados. Chegara o momento da sua real conversão a Deus, de reencontrar a via direita da virtude que Beatriz, a mulher que sempre ocupara o seu coração, agora lá do céu, tanto lhe solicitava. ( Morreu em 1290, com 24 anos)

 Dante não nos deixou um testemunho direto de uma experiência, espiritualmente fecunda, embora um pouco traumatizante pelo espetáculo da multidão, correndo por ruas intransitáveis, acotovelando-se aqui e ali para cumprirem o voto nas igrejas.  A cidade, de 80 mil residentes, não tinha condições para alojar, com um mínimo de recato e higiene, tanta gente. Dante observava e ouvia as mais horripilantes histórias de vidas de pecado e miséria física e moral. E aquela fé absoluta no óbolo redentor, sem outras consequências, fê-lo refletir sobre a condição humana e cristã do homem. Há quem diga que ali mesmo nasceu a ideia da Divina Comédia. A imaginação fervia-lhe de imagens, símbolos, personagens e histórias em que a humanidade se revelava em carne viva, na abjeção do mal e redenção do bem.

   Com efeito, foi naquela semana de Quinta-Feira Santa a Quarta-Feira de Páscoa de finais de Março de 1300, em pleno Jubileu, que o autor situa imaginariamente a sua viagem, enquanto ser vivo, ao mundo dos mortos. Naquele momento agónico, atormentado, e agonístico, isto é, de agitado combate interior, desabrocha da noite da alma  um  monumento de trevas e luz, de riso e de lágrimas, a Comédia da humanidade, cuja composição escrita arranca mais tarde em 1305-06, já em terras amargas de um exílio, congeminado por um papa indigno, ocupante de um trono, “onde Cristo se trafica” ( là dove Cristo tutto dí si merca” Par. XVII, V.51) e um povo ensandecido.

  De facto, ao regressar a Florença, é eleito Prior, com outros cinco, atingindo a mais alta magistratura que ocupará durante os dois meses da praxe. Dois longos meses atormentados pela aproximação de um exército francês, comandado por Carlos de Valois (1270-1325), que, em troca do apoio dado pelo pontífice à sua pretensão à coroa do Imperador Latino de Constantinopla, prometera entregar-lhe Florença, para daí o papa se lançar na conquista das cidades do norte da Itália.  Temendo a invasão, os guelfos Brancos, ainda senhores da comuna, enviam uma delegação, com Dante à cabeça, em outubro de 1301, com o objetivo de demover sua santidade de tão funesto intento. Em vão!  Em novembro, Carlos, irmão de Filipe, o Belo ( 1285-1314),  entra em Florença, como enviado do Papa. Ocupa a cidade, espalha o terror, faz um massacre sobre a população e assalta os bancos. E Corso Donati, guelfo Negro, homem de mão de Bonifácio, desfere um golpe de Estado, invertendo a situação ao sabor da vontade do seu patrono.

   Desencadeia-se a perseguição aos guelfos Brancos. Dante é acusado de corrupção, traição à pátria, condenado a uma coima; a casa é arrasada, os bens confiscados, e o desterro perpétuo decretado.  Caso voltasse, seria queimado na fogueira, na praça de Santa Cruz. E falta a acusação mais grave:  o poeta-filósofo cometera a heresia de não reconhecer o Poder Espiritual e temporal do Papa. O que só podia ser um mal-entendido! Fosse o Papa como Gregório, o Magno I ( 590-604), que, sem ser rei nem soberano, pusera os bens da Igreja ao serviço dos pobres…   Chegaram-lhe estas acusações aos ouvidos, em janeiro de 1302, quando regressava da sua missão gorada em Roma. Claro que de Siena não passou! E Dante amaldiçoou o seu priorado, fonte de todos os males.

  Um homem, na estrada, sozinho, entregue a si próprio e à caridade alheia, um vagabundo, um mendigo, um navio sem rumo e sem vela, arrastado pelos ventos áridos da cruel pobreza - eis como se descreve, em 1304, no Convívio, obra de reflexão filosófica a que se abriga, como último reduto de Consolação, como já o fora para o seu admirado Boécio ( 480-524) poeta latino, autor  da Consolação da Filosofia que Dante leu em 1290.

    Melhor sorte não teve o seu arqui-inimigo. Bonifácio, em 1301, já era senhor de toda a Toscana. Travou-se de razões com Filipe - o Belo, excomungado por não ter aceitado a famigerada doutrina das duas espadas, ou duplo império universal, aberrante e torcida interpretação de Lucas, (22,38), levada a cabo pelos teólogos de serviço. O Rei de França declara-o deposto e manda invadir, em 1303, o seu palácio residencial em Anagni, no sudeste do Lácio. Maltratado, é conduzido a Roma onde morre de velhice e vergonha, deixando o papado em bolandas, nas mãos caprichosas dos reis de França. Exílio de Avinhão!  Na sua enorme generosidade, Dante condena no Purgatório este ato de violência contra o vigário de Cristo: “ O mal feito e a fazer menos avivo/ vendo em Anagni entrar a flor de-lis/e   Cristo em seu vigário ser cativo” XX,85-87( e nel vicario suo Cristo esser catto)  Procedem assim os grandes homens: o perdão é sempre maior que a ofensa!

  Dia da Festa de S. Pedro e S. Paulo. Rezemos pelo Santo Padre. E pelo nosso Bispo!

  João Lopes

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.