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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Mais recordações

03.07.20 | asal

Gavião - recordações episódicas do seminário

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No primeiro ano, a selecta de Língua Portuguesa trazia um texto descritivo do rio Douro. Era um hábito, nas aulas de Português, a leitura em voz alta. Além de desinibir para a leitura em público, potenciava a leitura expressiva e evitava a anacrónica mudança de tom quando surgia o ponto de interrogação a seguir à última palavra da frase. Nesse dia, o leitor de serviço foi o Cipriano Pires. Um rapaz sempre bem-disposto e brincalhão. O professor de português era o Pe. Manuel Baltazar Justo. Este transpunha para os gestos e o vestuário o perfeccionismo das aulas de desenho e a sua caligrafia normal era em letras de imprensa de um preciosismo tal que até as máquinas o invejavam. O Cipriano estava umas carteiras à frente e o Pe. Manuel junto a mim, encostado à porta de trás da sala. Ainda o estou a ver: batina impecável, a brilhantina no cabelo sempre presente, sem qualquer pó de giz, pois não havia licença para lhe sujar as mãos ou a roupa, pegando no livro de português no seu modo peculiar como quem pega num missal na missa, arrebita as peludas orelhas e diz: repita lá esse último parágrafo, se faz favor. O Cipriano lê o parágrafo, alguns alunos começaram a rir-se e ele exclama várias vezes: Com catorze! Eu fiquei espantado com aquela expressão. Porquê catorze e não outro número qualquer? Demorei a descobrir que aquilo era uma «porra!» eclesiástica ou um «com catano!» idanhense. Por pudor eram impensáveis exclamações mais fortes ou obscenas Até a «porra!» cedia o seu lugar a «arroz!».

Na sua leitura, o Cipriano em vez de ler que naquele local o rio Douro fazia uns SS, leu «fazia umas cúrveas». Não sei se o meu condiscípulo se perdeu e estava a pensar nas curvas do Zêzere lá para a sua terra perto de Oleiros ou se nos quis fazer rir. Lá fazer-nos rir, fez. Houve outras consequências habituais para a época.
Perderam-se sem deixar marcas. Infelizmente também se perdeu, a julgar pelo que vi nos últimos tempos de professor, o bom hábito de ler em voz alta. Esta sim, deixou marcas e graves.

Ao fim das aulas, que eram precedidas de 30 m de estudo e logo a seguir ao recreio da merenda, seguia-se o estudo grande – das 17.30 às 19.30h. Este estudo permitia levantar-nos da carteira na última meia hora para tirar dúvidas com os colegas e para ir à casa de banho. Para ir à casa de banho havia uma chave para cada cubículo e a chave ia passando de carteira em carteira. No meu primeiro ano o papel de jornal ou dos cadernos usados foi substituído pelo papel higiénico. Para não haver desperdícios ou estragos, foram dados a cada um 3 rolos. À falta de melhor paisagem, era vê-los de rolo na mão a caminho do WC.

Gavião8.jpg

Num desses primeiros estudos, o Carrilho fez um embrulho que começou a passar de carteira em carteira. No exterior escreveu: «vende-se por bom preço». Ninguém resistia à curiosidade de abrir o embrulho. No seu interior estava um dente que ele acabara de arrancar. O problema foi que a folha estava identificada. O perfeito que, sentado na secretária do estrado ou deslocando-se entre as filas das carteiras sempre à coca, descobriu a brincadeira. O dente do Carrilho não teve comprador, também não sei se foi por isso, mas ofereceram-lhe um regresso a casa antes das férias de Natal.

Mário Pissarra

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