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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Mais recordações - 2

06.07.20 | asal

Memórias episódicas (2) – Acampamentos de Alvega

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Durante as férias grandes fazia-se o acampamento. Nos dois anos do Gavião foi numa quinta em Alvega, cuja entrada se situa em frente à casa da família Matafome. À entrada havia uma pequena capela e, seguindo o caminho, ia-se ter a um local ajardinado onde se montava o acampamento. Depois descia-se até uma enseada do Tejo onde tomávamos banho.

Ao Domingo íamos à missa à aldeia, nos restantes dias toda a vida se passava dentro da quinta.

No meu primeiro ano no seminário do Gavião, o Pe. Eusébio pôs em andamento o agrupamento de escuteiros. Uma inovação tanto para o seminário como para o Gavião, que logo a seguir fundou o seu próprio agrupamento. Durante o acampamento faziam-se um ou dois Fogos de Conselho no largo em frente à igreja de Alvega, cujo pároco, o Pe. David, era uma figura fininha de óculos graduados. Mentalmente sempre se me afigurou um tira linhas.

Os Fogos de Conselho seguiam os figurinos habituais da época. Mas as pessoas, muitas delas, ainda não tinham TV em casa. Para elas era uma diversão, gostavam e aclamavam muito. Não sei se era por serem feitas por seminaristas ou não, mas a verdade é que para elas eram verdadeiramente dias de comédias. Com uns comediantes especiais, é certo, sem trapézios ou ilusionistas, sem brejeirices, mas crianças ainda e muito ingénuas.

Nos dias seguintes, a generosidade das pessoas de Alvega aumentava substancialmente. Sobretudo, produtos agrícolas, pois era a época alta das produções de regadio. Num desses dias ofereceram-nos uma carrada de melancias. Para mim, que no verão vivia num regadio onde se produzia muita melancia perto do Ladoeiro, onde hoje se faz o Festival da Melancia, era um fruto habitual e abundante. Fiquei admirado com o Alberto que nunca tinha visto uma melancia.

Fenómenos destes eram comuns no seminário, pois os alunos vinham das aldeias mais recônditas da diocese, perdidas muitas delas entre serranias, e, ao tempo, muito isoladas. Alguns de nós saíram da aldeia pela primeira vez para irem para o seminário. Já no exame de admissão havia ficado surpreendido com o Leonel da Cabeça das Mós (Sardoal) que nunca tinha visto uma bola de futebol.

Voltemos ao Alberto, de olhos arregalados e fixos no monte de melancias. Era um rapaz um pouco mais velho que a maioria de nós, um adolescente atarracado e um pouco para o gorducho da zona de Oleiros. A minha admiração não foi só de ele nunca ter visto uma melancia. Depois disse que, se lhe dessem uma, era capaz de a comer sozinho. O perfeito autorizou-o e deu-lhe uma de uma dimensão média. Não sei se o meu espanto foi maior com a sua proeza se com o ar de satisfação com que o fez. E deu conta do recado sem dar ares de enfado ou fastio.

Um belo dia, após o almoço o perfeito quis tomar café. Quem quis foi com ele à Concavada, uma aldeia ali muito perto, ao único café do local – o café de S. António, à esquina do largo da aldeia. Consequência: esgotaram-se os rebuçados e guloseimas no mercado e num comércio ali existente.

Durante o acampamento, passou por lá a família de um colega meu. Na altura tomei reparo e nunca mais saíram da minha memória dois factos para mim nunca vistos. Primeiro, o meu colega em vez de beijar a mãe no rosto beijou-a nas mãos. Eu, apesar de pedir a «sua bênção» à minha mãe, ela a seguir beijava-nos. O outro foi ele cumprimentar a irmã já mulher com um aperto de mão. Eu sempre cumprimentei as minhas irmãs com um beijo. O meu espanto perdeu força ao aperceber-me que essa era a forma habitual de se cumprimentarem para muitos dos meus colegas.

O ter convivido com colegas de toda a diocese foi uma riqueza para mim. Toda a minha vida tem sido um alargar de mundos a partir daí. Começou por ver os primeiros pinheiros à entrada de Castelo Branco, perto da linha da Beira Baixa, por ver pela primeira vez o comboio, etc. Uma viagem que nunca mais parou e que, apesar de a uma velocidade mais lenta, não sinto desejo de travar.
Mário Pissarra

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