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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Mais poesia

22.01.19 | asal

Pires da Costa1.jpegAMOR  EFÉMERO

 

Ontem, levantei-me, fui à janela,

Hábito velho, de manhã cedo.

Visão mágica, encantei-me dela,

Caí em êxtase com olhar ledo.

Surpreso com tamanha beleza,

Quedei-me mudo, na incerteza.

 

Ali, à frente da minha morada,

Ela se postou, graciosa, feliz.

Tudo o que nela vi me alegrava,

Vestimenta alva, trejeitos subtis.

E, como se estivesse a esperá-la,

Senti-me até capaz de amá-la.

 

Aproximou-se quando lhe acenei,

Encantei-me perante tal candura,

Ao vê-la tão perto, quase delirei,

Imaginei-me a sede da ventura.

Lentamente, sumiu-se na multidão.

Atónito, gritei-lhe. Tudo em vão!

 

Hoje, ao acordar, corri à janela,

Receoso, mas cheio de esperança.

Tamanha surpresa, lá estava ela.

Mas, Deus meu! Aquela mudança!..

Ontem, pomba branca de encantar;

Hoje, toda de negro, quase a chorar.

 

 

Disforme, escura, ar rancoroso,

Como quem cumpre destino fatal.

Vê-la assim, que sentir doloroso!

Sem beleza, lúgubre, estado letal.

Quanta mágoa por mim sentida,

Senti-me traído pela própria vida.

 

Olhos cerrados, disforme o rosto,

Ali, na minha frente, ela gritou

 Grande brado, visível desgosto,

Raio fulminante de si brotou,

Grossas lágrimas a derramar,

Profunda tristeza, alma a penar.

 

Nuvens! Humanos! Rosas do meu quintal!

Transitórias vidas teremos por igual.

A vida é efémero sopro em frágil véu,

Como a nuvem que tapa o azul do céu.

 

Tão linda a nuvem que vi da minha janela!

Mas nunca vi outra chorar tanto como ela!

 

      Pires da Costa