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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Jorge de Sena (1919/1978)

18.11.19 | asal
Caro Henriques:
Para abrir o apetite à multifacetada  leitura do nosso grande escritor Jorge de Sena, nesta data do aniversário do seu nascimento, tentei aprofundar um pouco os meus fracos conhecimentos. A reflexão que fiz, deixo-a aos nossos companheiros do ANIMUS, com todo o gosto e amizade. Oxalá alguém  se motive também pela sua vasta obra de poesia, prosa e teatro. Nomeadamente, pelos "Sinais de Fogo", um dos melhores romances do séc. XX. É mesmo obrigatório lê-lo. A sua riqueza literária é deslumbrante. Acreditem.
Um bom magusto e cuidado com a saborosa e divinal água - pé, uma boa companheira destas aventuras gastronómicas.
Um forte abraço, meu caro Henriques, que estendo a toda a nossa fraterna rapaziada.
Florentino

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Um cidadão do mundo

Ocorreu no passado dia dois o centenário do nacimento do lisboeta Jorge Cândido de Sena, que nasceu em 1909, único filho de Maria da Luz Teles Grilo e de Augusto Raposo Sena, comandante da Marinha Mercante, de origem açoriana.

Seria pecado de omissão não nos debruçarmos sobre a vida de Jorge de Sena cuja obra literária, vasta e multifacetada, marcou a nossa cultura do século XX. Nela se encontra a inspiração de um grande poeta, um ficcionista, um dramaturgo, um crítico, um professor e um ensaísta. Este espraiar-se por tantas áreas poderá ter uma explicação se soubermos que ele afirmou um dia “que tudo quanto é humano me interessa”.

Feitos os seus estudos no liceu Camões em Lisboa, Sena, nas pisadas do pai, alistou-se na Marinha a qual lhe proporcionou correr o mundo no navio Sagres. Este período da sua vida ocorreu durante a guerra civil de Espanha e, em carta ao seu amigo Casais Monteiro, queixava-se do “absurdo da disciplina militarista” o que o terá levado a deixar a Marinha, em 1938. Mas já nestes anos (1936-1938) Sena produzia muita poesia e multifacetada prosa ficcional.

Deixado o mar, optaria por uma licenciatura em engenharia civil, em 1944 no Porto. Esta década de 40 foi muito martirizante para Sena devido à morte do pai, da avó materna e ainda pelas dificuldades financeiras a que esteve sujeito. Valeram-lhe as ajudas dos seus amigos. Face a esta situação, teve de se empregar em 1947 nos Monumentos Nacionais. Um ano depois, foi para a Junta Autónoma das Estradas, o que lhe permitiu conhecer o país.

Sempre insatisfeito, em 1952 vamos encontrá-lo como estagiário de engenheiro, em Inglaterra, virando-se então para a grande literatura deste país. Ao mesmo tempo, ia fazendo as suas críticas à poesia portuguesa contemporânea e à de outros tempos.

Já saturado de sofrer perseguição num Portugal salazarista e pidesco, pelas suas ideias e escritos publicados, em 1959 Jorge de Sena decidiu escolher o Brasil, S. Paulo, para se exilar. Ao longo dos anos em que aqui viveu, décadas de 40-50, debruçou-se sobre Fernando Pessoa (1946) e Camões (1948). Escrevia ele nesta altura: “ a cultura é livre discussão e esclarecimento e conquista pessoal da liberdade de reflexão e expressão e não uma aquisição passiva de conhecimentos, para satisfação própria, mas sim, para articular os seus domínios aparentemente díspares e distantes, numa visão do mundo integradora de tudo”.

Deste modo, em toda a sua vastíssima obra, aparecem tratados todos os grandes temas que interrogam o ser humano: a morte, o amor, o erotismo, a sexualidade, a renúncia amorosa, o tempo, o divino, o religioso e o profano. Segundo ele, “todos estes temas não podem ser tratados isoladamente, uma vez que entram uns dentro dos outros, adquirindo significações novas, quando combinados entre si”. Nesta perspetiva, a dúvida teológica e o conceito de divindade formam, porque interdependentes, um dos principais temas recorrente da obra de Jorge de Sena, expresso na relação Homem - deuses - Deus. Assim, para Sena, o problema da humana divindade é o problema da superação dos limites culturais e civilizacionais que o Homem foi criando. Outro dos temas prediletos deste complexo e profundo homem de letras é Portugal, tratado em sentido amplo, camoniano, do destino português e dos portugueses, no contexto das culturas, e que abarca diversas temáticas como o exílio, a peregrinação, a viagem e o amar.

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Casado com Mécia de Sena, hoje com 99 anos, tiveram nove filhos. A sua filha mais velha, Isabel confidenciou recentemente que o seu pai “sofreu muito com o exílio e com a sensação de não ser reconhecido no seu país”, mesmo após a Revolução do 25 de Abril de 1974, porque, como um dia Sena se queixou, “ninguém o chamou” para se integrar na vida do seu país, já em plena liberdade. Assim, esquecido pelos seus, Sena morreu na Califórnia (USA), em 04.06.1978. Os versos que nos deixou sobre Portugal mostram bem o seu desgosto. “Esta é a ditosa Pátria minha amada. Não/ Nem é ditosa, porque o não merece/Nem minha amada, porque é só madrasta/ Nem pátria minha, porque eu não mereço/…eu te pertenço, mas seres minha, não”.

Para o seu maior biógrafo Jorge Lourenço, em quem nos inspirámos, Sena “ é uma das maiores consciências críticas de sempre, em luta pela dignidade e liberdade humanas”.

florentinobeirao@hotmail.com                             

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