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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

JESUS NAZARENO?

09.04.20 | asal

Meu caro António

Desculpa, mas o texto"saduceu" que te enviei esta manhã era para ver se o podias publicar. Julgo ser proveitosa esta abordagem à vida de Jesus, embora uma biografia seja impossível, apesar de o herói ser uma figura fascinante. Repito o voto de uma Páscoa, cheia de Luz, que dissipe esta terrível escuridão, uma madrugada de sinos a tocar aleluias festivas. João Lopes

R. Que dizes tu, João? Alguma vez eu iria recusar texto tão profundo em reflexão, estudo e oportunidade? Eu tenho, sim, de agradecer em nome de todos os amigos que por aqui passam. AH

 

O que se pode dizer sobre o letreiro “ JESUS NAZARENO, REI DOS JUDEUS”

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Há quem viva como se Jesus não tivesse existido. Ou que, ignorando os testemunhos históricos extra-bíblicos do judeu Flávio José (falecido por volta do ano 100) de Plínio, o Jovem(110-120),  de Tácito e Suetónio, historiadores latinos, persista em negar a existência histórica do doce Mestre da Galileia.

   Ora, é um facto histórico incontestável que Jesus nasceu por volta do ano 6 antes da era cristã (Belém ou Nazaré), dois anos antes da morte de Herodes, o Grande, morto no ano 4 aC,  usurpador idumeu do Reino da Judeia, partidário de António, e que do seu reino tomou posse uns anos antes de Octávio Augusto ser proclamado Imperador em 27 aC. A data da morte do filho de Maria pode situar-se, segundo a opinião da maioria dos biblistas, na sexta-feira de 7 de Abril do ano 30, com 36 anos, portanto. 

   Por outro lado, Jesus, filho oficial e reconhecido de José, era por via da linhagem de seu pai, descendente do rei David.  O biblista e arqueólogo Frei Frédéric Manns, OFM, escreve a este respeito: (Como José), também outros descendentes de David  eram famosos, como se comprova na inscrição de um ossário em Jerusalém. Após o regresso do exílio na Babilónia (a partir de 538 por permissão do rei Ciro), os descendentes da família David já não contavam na vida política. Depois, na época dos macabeus, a família real foi descartada quando a dinastia dos asmoneus se impôs na condução do país(134 a 67 aC). Mais tarde, Herodes, o Grande, que tinha tomado o título  de rei dos judeus, não tolerou os descendentes da família do rei David. “ ( In Bíblica, nov/dez 2016) Aliás, os descendentes desta estirpe, apesar da desolação em que caiu, ( “ Livro dos Reis, 24 e 2º Livro das Crónicas , 36 e mais lugares paralelos em Jeremias,) estiveram sempre sob suspeita até à época de Domiciano, 81-96.

 Por 13 vezes no Novo Testamento, Jesus é chamado Nazoreu ou Nazareno.  Não confundir com Nazireu, o que fez o voto da abstinência, não cortar os cabelos como o juiz Sansão. O qualificativo ganhou uma nova e mais lata incidência lexical quando os judeus começaram a designar os cristãos por “ Nazarenos”. (Actos, 24,5)

    Qual a origem etimológica de Nazoreu ou Nazareno?  Este epíteto não significa que Ele seja natural de Nazaré, lugarejo  nem sequer mencionado nos textos do AT. Portanto, não indica um lugar, mas o ramo secundário do clã de David, ou seja, a descendência, o germe ( NETSER, em hebraico)  de David. 

  É sabido que os judeus não regressaram todos de uma só vez do exílio. Vieram por levas, consoante os interesses e os laços que os prendiam na rica região do Eufrates e do Tigre.  Aconteceu que, no século II aC, um grupo do clã davídico veio da Babilónia, dividindo-se em dois na província da Bataneia no lado oriental do rio Jordão, rica região de Bashan, onde se localizava  a vila de Betânia (Jo, 1,28); o 2º grupo dirigiu-se para uma colina desabitada da Baixa Galileia, junto à planície de Esdrelon/Yzreel, segundo o testemunho de S. Jerónimo e de Juliano, o Africano, um leigo do séc. II, natural de  Emaús, Nicópolis, perto de Jerusalém.

   Pois bem, o étimo “ netser”, ( rebento de David) evoluiu para Nazara que se transformou em Nazareth. Isto é, o povo ou personagem dá o nome ao lugar que começou a habitar.  Por igual fenómeno de eponímia, Ulisses deu o nome a Ulisseia ou Lisboa, o mesmo se dando com Samaria, nome que provém do seu proprietário Shemer, no tempo de Omeri, rei de Israel (1Reis, 16,24). Jesus é nazareno, por ser, antes de mais, descendende do rei David e não por ser originário daquele burgo. E este título colou-se-lhe à pele, sobretudo no movimento popular de pobres e camponeses, daqueles e daquelas que tentavam sobreviver na mais baixa escala social, e que O seguiam, como se  fosse o seu libertador. Conhecemos o episódio do cego de Jericó, sentado à beira da estrada. Ao ouvir dizer que passava Jesus de Nazaré, instintivamente gritou: Filho de David, tem misericórdia de mim.   E em tantos outros lugares do NT, se conota o nome nazareno com o do “filho “de David, da sua descendência, germe da sua Casa real. Trata-se de uma  imagem ou arquétipo do inconsciente colectivo, moldado pala atribulada história do Povo de Deus.  

 Dada esta explicação de teor etiológico, voltemos à aldeia de Nazaré, onde Jesus cresceu  e foi educado sob a égide de José e Maria, no meio de uma família alargada ou parentela do mesmo clã, à semelhança das famílias orientais em que se mistura a criançada, primos e irmãos, numa algazarra álacre e agitada.  Parece-me que o figurino da família triangular do imaginário cristão ocidental (Maria, José e o Menino) não corresponde à realidade sociológica de então. Adiante.

  A educação de Jesus foi primorosa, segundo os padrões mais exigentes das escolas de Nazaré e de Sephoris (depois, Autocratis), capital da Galileia, cidade que o seu pai ajudou a reconstruir, como  artesão altamente qualificado nas técnicas da construção - tectôn, tradução dos Setenta) Jesus frequentou com sucesso os  sete anos de instrução, divididos num ciclo de 5 e outro de 2 anos. Dominava o hebraico, o grego, a história e geografia de Israel e de Judá, salientando-se nos métodos rabínicos de interpretação das Sagradas Escrituras.  Disso deu provas na disputa com os doutores da Lei, aos 12 anos, em Jerusalém. Foi, por assim dizer, o seu Bar Mizvah, o teste da sua entrada na adolescência! 

   No ano 27/28, com 33 anos, deixou Nazaré e a sua família de sangue, para se dedicar, como pregador itinerante, a anunciar a boa Nova do Reino, que mais não era do que uma nova versão daquele Reino de Paz, Justiça e Fraternidade, largamente desejado pelos Profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel, Joel, Amós, Zacarias e outros piedosos visionários de Deus. A leitura completa dos seus textos são de uma flagrante actualidade, além de um alto nível literário e poético. A sua mensagem vincula-se estreitamente com a de Jesus de Nazaré. 

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  Não espanta, pois, que perante a autenticidade judaica da Pessoa de Jesus, intelectuais judeus do nosso tempo como Martin Bube,r o considerasse “ o seu irmão mais velho” e David Flusser como o rabi Leo Baeck o tenham definido como “ uma personalidade genuinamente judia”, sem esqucer o grande historiador Joseph Klaussner, tio–avô do romancista Amós Oz, que na sua obra Jesus of Nazareth, 1929, o  elogia como “ o mais judeu dos judeus… e, do ponto de vista humano, ele é certamente “ a Luz para os gentios”.

 Aqui chegados, deixem dizer só mais duas palavras sobre o letreiro que Pilatos mandou colocar sobre a cruz: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. (Jo, 19,19) O que terá exasperado as lideranças judaicas (sacerdotes saduceus, anciãos ou ricos proprietários de terras e escribas ou doutores da Lei) enfim, os principais agentes da acusação, não fora decerto o epíteto “Nazareno” que eles até viam com desprezo, mas o sintagma “Rei dos Judeus” com as suas possíveis repercussões políticas e religiosas, isso é que eles não podiam engolir. E de imediato exigiram ao Governador que modificasse o texto da sentença, clarificando o sujeito da sua enunciação: “ Não escrevas” Rei dos Judeus”, mas sim: Este homem afirmou: Eu sou Rei dos Judeus” ( Jo. 19, 21) Incomodado deveras com a chantagem que tinham feito sobre o representante da lei imperial, pressionado para decretar a condenação de um réu que ele considerava inocente, vítima de uma disputa religiosa entre judeus, maliciosamente transformada em questão política, sendo, por isso, denunciado como agitador e conspirador político, Pilatos despachou-os com o facto consumado do seu escrito. Que pensavam eles? Podia assim alterar-se a letra de um titulum do Direito Romano, o resumo da acta da sentença, a ser enviada para os arquivos do tribunal de César, no qual estava sintetizada a causa da condenação de Jesus ”Jesus Nazareno, Rei dos Judeus"? Não lhes bastava que ele, contrariado embora, tivesse proferido a sentença:  Ibis ad crucem ? Com efeito, os chefes dos judeus queriam à viva força enfatizar a ideia de que Jesus, aclamado um dia antes como Filho de David e REI, pela ralé e um bando de marginais, não passava de um rei de opereta, um megalómano e tresloucado. 

  Estavam bem longe do verdadeiro e profético conceito do Reino de Deus, que o próprio Jesus explicara a Pilatos (Jo, 18,36) e cujo carácter transcendente Ele vincara em ocasiões várias, sobretudo no Discurso do Pão da Vida, a propósito da multiplicação dos pães ( Jo,6,14-15). 

 O seu Reino é no coração da própria humanidade, proclamado com base no princípio ético novo e primordial do Amor universal e gratuito. Assim o fez ele toda a vida, entregando o seu legado aos Doze, organizadores de uma Igreja sempre em processo de expansão e rejuvenescimento baptismal e eucarístico. Baptismo e Eucaristia, os sacramentos pascais, por excelência, que transportam na noite, na nossa noite, a Luz pascal do Reino, pois para isto Ele veio ao mundo: iluminar com a Sua Luz quem, como  peregrino, faz a passagem ( PESSACH , Páscoa, ) por esta terra, que tantas vezes parece mergulhar no império das trevas.

João Lopes

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