Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Homenagem ao Joaquim Alves Filipe 2

Há momentos em que as palavras nos deixam sem palavra! Obrigado, J. Silvério! AH

Portalegre 19-05-2012 223.jpg

 

Meu caro António Henriques

Agradecendo a simpatia de me enviarem o texto de homenagem ao meu tio, ensaiei um pequeno texto, a que chamo "Recordações. Poema sem rima", que invoca os tempos dos verdes anos em que o "conheci".

Pedindo desculpa pela presunção de me armar no poeta que não sou, podem publicar este texto que, para mim, é a melhor homenagem que  poderei prestar ao meu querido tio Joaquim Filipe.

Um abraço

joaquim silverio mateus

 

"Recordações. Poema sem rima

 

Recordo-me de fugir para os braços de minha mãe nas noites de trovoada e de ela me dizer que era Deus a ralhar;

E eu acreditava;

Recordo-me da lareira que iluminava as noites com o cheiro das pinhas e da madeira queimada;

A escuridão, lá fora, combatia-se com a luz fraca e trémula dos candeeiros de azeite e da lua cheia quando ela decidia aparecer;

E, pela noite dentro, nós rezávamos ou cantávamos canções e dávamos as boas noites aos avós;

E depois mergulhávamos nas mantas de fitos ao som da chuva e das árvores fustigadas pelo vento;

Ao nascer do dia, ainda sonâmbulos, seguíamos as indicações dos mais velhos contemplando o mundo;

E o mundo eram aqueles campos de milho, o ribeiro, os sapos e as rãs, os pinheiros sem fim e os galos que há muito tinham acordado o vale com os seus cantares desafiantes!

Em Junho íamos às cerejas;

Era da casa da avó Amélia que partia o ruidoso grupo de primos e primas, pais e mães um pouco atrás, em direcção à velha cerejeira que tinha florescido em cor e em sabor;

O tio Filipe organizava os jogos, os cantorios, as brincadeiras daquelas tardes de Junho que, pensava eu, nunca teriam fim!

Recordo as incursões à ribeira e de como invejava o miúdo que nadava até ao outro lado do poço, tão distante que era impossível chegar lá;

Recordo o cheiro do pão quente, da terra molhada e das castanhas braseadas nas longas noites de inverno;

Recordo os dias da feira de Agosto, dos bois, das panelas de barro e de ferro, das foices e das enxadas, do sabor das melancias, das montanhas de melancias à beira da estrada empoeirada;

Recordo aqueles homens e mulheres vestidos de preto com as mãos sujas e enrugadas pelas enxadas que trabalhavam a terra e os pesados cestos que traziam à cabeça;

Vivia-se com pouco, mas vivia-se com um sorriso e alguns sonhos;

Agora são apenas memórias distantes, esbatidas, impossíveis de repetir;

Resta este poema sem rima e a alegria de saber que tudo isto existiu.

Joaquim Silvério Mateus "

1 comentário

Comentar post