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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

HÁ UM ANO FOI ASSIM…

02.03.21 | asal

(Com licença do Frei Ventura, não pedida, mas implicitamente dada, passo a transcrever este texto emocionante, por ele publicado na revista Bíblica do mês de março-abril de 2021.)

 

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   Uma não-vida tinha atacado a vida; um não-ser tinha atacado o nosso ser, que deixou de ser. E começámos a conjugar os verbos da vida no passado e no futuro. Não havia verbos para dizer o presente.

    E foi tarde, e foi manhã, e foi o primeiro dia!

  Um “ eterno” primeiro dia que não queríamos que fosse eterno. Que não podia ser eterno, pois eterno só Deus! O resto são exossomas, excreções de não-ser…A Praça estava vazia, as ruas estavam desertas, a chuva agreste batia nas vidraças que escondiam o medo. E o nosso ser deixou de ser.

  E nós vimo-lo subir, sozinho, a colina do sofrimento.

   Sobre os ombros carregava o mundo, carregava a dor e carregava o medo. Na bagagem, levava as lágrimas choradas por trás das vidraças (…); na alma, levava a fé de um povo inteiro a caminho do calvário da Redenção. Ubi Petrus ibi Ecclesia: Francisco sozinho, na solidão de todos nós, no silêncio do coração que reza a fé, para lá do medo, para lá da chuva, para lá do sofrimento. Por ali acima íamos todos, ao encontro da fé, ao encontro da esperança, ao encontro do Ressuscitado. Uma não vida tinha atacado a vida, um não ser tinha atacado o ser. Era a hora de recomeçar a viver de novo; era a hora de viver o novo da vida.

 

E nós rezámos, e pedimos!

 Senhor, faz que a Praça vazia e as ruas desertas, se encham connosco e com todos num novo sonho de ser para além das lágrimas. Faz com que os nossos mortos não tenham morrido em vão. Faz-nos entender que o palácio e a barraca partilham a mesma angústia, porque partilham a mesma humanidade. Faz de nós, Senhor, uma Igreja de todos, com todos e para todos; sem excluídos, sem marginalizados, sem autorreferenciados que se pavoneiam pelos corredores da religião inútil sem fé.  Levantem-se os fariseus e os escribas que teimam em manter-se na cadeira de Moisés. Entrem todos,” pastores” e “reis” e “povo”. E que as nossas igrejas, agora vazias por causa da “ não-vida”, se voltem a encher de Vida:

 

 “ Transformai, Senhor, o nosso destino,

    Como as chuvas transformam o deserto do Néguev.

    Aqueles que semeiam em lágrimas,

   Vão recolher com alegria.

   À ida vão a chorar,

  carregando e lançando as sementes;

  no  regresso, cantam de alegria,

  transportando o feixe das espigas. ( Sl.126)

 Bendito o Senhor Deus de Israel,

 Que visitou e redimiu o Seu povo! ( Lc. 1,1,68)

 QUE VIVA A VIDA!

 Fernando Ventura.

 ( E João Lopes transcreveu este belo hino do Deus da Vida)