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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

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Frio - elegia ou celebração?

FRIO DE INVERNO

Pires da Costa.jpeg

 

         - Mãe, tenho frio!

 No silêncio daquela sala de espera do consultório médico, num dia sombrio de Inverno, aquela exclamação da criança, sentada ao lado da mãe, chamou-me a atenção.

           De imediato, aquela mãe  envolve o seu menino com o braço e diz-lhe:

 

       - Vá, senta-te no colo da mãe para te agasalhar.

         O miúdo, ajudado pelo braço da mãe, estica-se, faz um pequeno esforço e senta-se no regaço materno, dando pequenos trejeitos ao corpo para  facilitar o aconchego do xaile em que a mãe pretende envolvê-lo. Acabada a operação, olho para a criança e vejo, emocionado, a sensação de alegria estampado no seu rosto, através de um sorriso moderado mas altamente expressivo. Passados uns momentos a mãe olha-o com ternura e pergunta-lhe:

           - Então, já não tens frio?

           - Não, mãe. Já estou quentinho e gosto muito de estar no teu colo.

             Preso como estava por aquele quadro humano, permaneci com os olhos fixos nele. Aos poucos, a criança foi revirando os olhos e, passado pouco tempo, adormeceu.

             Lá fora, um vento agreste acicatava o frio que enregelava os corpos apressados dos transeuntes.

 

……………………………………………………………………………

 

               Naquele final de manhã num dos últimos dias de Abril, deambulei pelos campos da minha aldeia, inebriado pela beleza campestre que me envolvia. Para onde quer que me virasse, a policromia surgia em todas as direcções: flores de todos os matizes, árvores viçosas de todos os tamanhos, zonas verdes a perder de vista, o sussurro dos riachos que desciam das encostas, o canto das aves com uma sonoridade inebriante, o cheiro vigoroso que emanava da terra rejuvenescida, uma temperatura amena e confortável, enfim, a sensação de vitalidade em tudo o que me rodeava.

Inverno.jpg

                Como quem aspira a confundir-se com uma tão idílica envolvente, sentei-me numa lájea,  existente debaixo de frondosa árvore. Enquanto a minha mente enaltecia todas as virtualidades da primavera, surgia também a inevitável comparação com o Inverno que a antecedera. Daqui me surgiram as tradicionais acusações que costumamos fazer em relação a esta estação do ano, a mal amada dos homens: o frio, aquele maldito frio; a chuva, aquela aborrecida chuva; o vento, aquele ciclónico vento; a neve, aquela bonita mas traiçoeira neve; as trovoadas, aquelas amedrontadoras e devastadoras trovoadas; mas, acima de tudo, o frio, aquele frio que enregela os corpos, que traz constipações e gripes, que faz tremer as criancinhas e os velhos, que causa frieiras nas mãos, que arrefece os pés e nos causa mal-estar e que até nos fustiga o nariz, pondo-o vermelho e a pingar.

                 Eis senão quando, no meio do meu exercício mental, enaltecendo a primavera e amaldiçoando o Inverno,  surge à minha frente uma figura de mulher esplendorosa, envolvida em vistoso manto, exibindo um sorriso encantador, parecendo a encarnação da própria beleza.

                  Saudou-me, deixando-me como que inebriado, dado o inesperado encontro que me era proporcionado. Sentou-se numa pedra à minha frente, sorriu sedutora e inocentemente, talvez divertida com o meu espanto,  com certeza  bem visível.

                   - Não te assustes, disse. Quero apenas falar um pouco contigo e esclarecer-te acerca de uns equívocos que alimentas na tua cabeça. Não sou bruxa e muito menos feiticeira. Quando te disser quem sou, compreender-me-ás.

                  - Mas…- balbuciei, sem saber bem o que poderia dizer.

                  - Ouve, que eu quero despachar-me, porque estou com pressa, já que tenho muito trabalho pela frente, pois não gosto que se pense ou diga mal da minha família.

                     - Mas, eu nem conheço a tua família!

                     - Conheces. Mal, mas conheces. Sabes, um dom que eu tenho e que me foi dado por Deus ou pela Natureza (interpreta como quiseres) é o de saber ler o pensamentos dos homens e das mulheres. E tu, desde que aí te sentaste, tiveste uns pensamentos muito errados e quero fazer-te compreender isso para que os corrijas. Não gosto que ofendam a minha família, muito menos o meu pai.

                        - Mas eu nem conheço o teu pai… Como posso ofendê-lo?

                        - Conheces. E melhor do que estás a pensar. Escuta, que se não nunca mais daqui saio. Estiveste ou não aí a pensar mal e até a amaldiçoar o Inverno?

                          - Sim. E não achas que tenho razão?

                          - Nenhuma. Tu e outros homens como tu, e há muitos, são, além de estúpidos, ingratos e injustos. Andas aí deleitado com o que te estou a proporcionar, mas não pensas porque posso dar-te tudo isso, a ti e a todos os seres da natureza. Tudo o que tens agora, deve-lo, mais do que a mim, ao meu pai. Se não fossem as muitas chuvas que ele enviou, como se fortaleceria a terra? Senão fossem os ventos, como se reproduziriam as plantas que tanto admiras agora? Se não fossem as enxurradas, a neve, a geada, as trovoadas, como se evitariam as secas em muitas das terras, dispostas a esmo por todo o planeta? Se não tivesse existido o meu pai antes de mim, quem rejuvenesceria a terra, toda a terra? Quem daria força às árvores, aos arbustos, às ervas?   Como se alimentariam os animais? Como teriam os rios os caudais que transportam a água para todos os lados? Como se encheriam os lagos e as barragens e como saciariam os animais a sede? Como subsistiriam os  animais que hibernam e tão úteis são ao equilíbrio da natureza, ao ecossistema, como agora finoriamente se diz?  E o frio, esse precioso bem que muitos de vós estupidamente amaldiçoam. Puxa por essa cabeça e não te será difícil descobrir as múltiplas vantagens que ele traz às vossas vidas. Amaldiçoam o frio que o meu pai dá gratuitamente, e depois gastam fortunas a produzir frio artificialmente… É mais importante o frio do que o calor, ainda que se complementem. O calor é criador, mas se não for antecedido pelo frio, transformar-se-á em simples destruidor da natureza. Usa o meu pai , nalguns casos, de alguma violência para atingir os seus objectivos? Mas quem são vocês, os homens, para o criticarem, se andam sempre envolvidos em guerras estúpidas e agressividades mesquinhas?.. O meu pai pode ser feio e mal encarado, mas é um poço de virtudes.        

Suponho que o que te disse será suficiente para compreenderes os esclarecimentos que pretendia transmitir-te. São horas de partir.

               - Espera um pouquinho, por favor, quero fazer-te uma pergunta e dizer uma coisa.

                -Diz lá o que é.

                  -Primeiro, quero agradecer-te a linda lição que me deste e que modificou o meu modo de pensar, porque tens razão em tudo o que disseste. Mas diz-me, quem és tu e quem é o teu pai?

                   -Não há dúvida de que a tua inteligência é mesmo fraquinha!.. Como é possível que ainda não tenhas descoberto? Toma nota: o meu pai chama-se Inverno e o meu nome é Primavera.  E, como filha que sou, devo,  não só respeitá-lo, mas estar-lhe sempre grata por tudo o que fez por mim ao longo da sua existência.

                    E, como aparecera, desapareceu.

          …………………………………………………………………

              Levantei-me e caminhei ainda atónito com o que me acontecera e, num repente, veio-me à memória o episódio da sala de espera, relembrando o sorriso daquela criança quando se aconchegou no colo da sua mãe, felicíssima,  porque nada há melhor para uma criança do que o colo da sua mãe. E tudo aconteceu porque o menino teve frio. Abençoado frio, que tanta felicidade pode dar…

 

António Pires da Costa

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