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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Festas e romarias

16.09.19 | asal
Meu caro Henriques
Aí te envio  uma  singela, mas gostosa colaboração para o nosso amado Animus, fiel companheiro de todos os dias.
Com as questões da religiosidade em cima da mesa, tentei revisitar esta problemática, tão complexa, quão picante.
Se os nossos companheiros de jornada quiserem conversar sobre tal temática, entremos  na discussão. É dela que pode vir mais alguma luz.
Um abraço para ti e para todos os nossos companheiros.
Quero essa perninha em óptimas condições para subires a escadaria granítica  do nosso seminário de Alcains. Trata-a bem.

Florentino2.jpg

Florentino
R . - Obrigado, Florentino! Já me sinto a 90%. AH
 

Uma nova religiosidade

Após a Páscoa e ao longo do verão, no interior do país, vive-se ao ritmo das romarias e das festas dos santos de secular devoção local. Quando, após a saída de uma grande parte da população ativa que emigrou nas décadas de 60-70 do séc. XX para a Europa, se pensava que estas festas se achavam comprometidas, face ao futuro, surge agora a agradável surpresa de que elas aí estão de novo, embora vivenciadas de um modo diferente. Continuam a ser a “Festa do Povo”, mas nos últimos tempos, já com um novo figurino.

Já não predomina a tradição de agradecer ou implorar os supostos favores do santo local festejado, mas sobretudo, como divertimento popular, com as afamadas e competitivas bandas de música moderna, geralmente importada dos grandes centros urbanos. Para trás, fica o tradicional e multifacetado folclore das antigas festas e romarias dos tempos de outrora, onde toda a aldeia participava ativamente. Porém, hoje, os festejos populares são desenhados para angariar fundos financeiros, para pagar aos artistas convidados os quais, nestes breves meses de verão, como cigarras, arrecadam chorudos proventos, para almofadarem os raquíticos meses da longa e agreste invernia de trabalho.

Se olharmos com alguma atenção para os programas das festas populares que acontecem nesta altura do ano, na esquecida e ressequida zona da Beira - Baixa, na sua maioria apresentam imagens fortemente apelativas, para atrair os forasteiros a para participarem na festa da sua aldeia. Os cartazes, cheios de cores fortes e imagens atraentes, incluem uma minúscula imagem do padroeiro ou do santo de devoção local. Mas, sobretudo, numerosas e cativantes fotos de conjuntos musicais que irão animar as longas e quentes noites de festejos, num espaço devidamente valorizado, com forte luminosidade. A festa da aldeia é hoje muito valorizada se incluir artistas populares que as comissões das festas conseguem contratar para animar as populações. Como todos sabemos, ainda hoje, embora mais diluídas, não faltam as acentuadas rivalidades entre aldeias vizinhas, embora manifestadas por comportamentos mais civilizados.

Hoje, como é notório, a festa em honra do santo padroeiro vai-se transmutando em festa dos músicos que se encontram bem cotados, geralmente via TV, para servirem de atração aos seus afetos fãs. O palco onde atuam nas festas, geralmente no centro da aldeia, vai-se tornando o trono de novos santos laicos, em substituição simbólica do andor do santo festejado, em honra do qual, em princípio, era dedicada a festa estival. Este espaço funciona, embora simbolicamente, como sendo o novo templo místico e extasiante de novas religiosidades.

Face a estas novas realidades, julgamos que podemos percecionar alguns dos novos caminhos da sempre presente e atuante religiosidade popular. Certamente, existe ainda alguma ligação das populações ao tradicional santo protetor da aldeia. Uma ou outra promessa ainda é cumprida na procissão do padroeiro. Porém, cada vez mais, o santo está a deixar de ser valorizado nos programas e nas festas. A primazia é agora deixada para os artistas populares que animam os arraiais das festas, com as suas aparelhagens ultra sonoras.

Tentemos agora enquadrar esta nova realidade no novo papel da religião popular na sociedade portuguesa.

Segundo um recente estudo sobre esta temática, revelado pelo jornal Público, no passado mês de agosto, 74% dos portugueses assume que a religião católica é a sua preferida e acredita na existência de um deus, embora 12% referira que não tem qualquer religião. Quanto à frequência em cerimónias religiosas, 34% dizem que apenas frequentam a igreja em situações excecionais como casamentos, funerais, batizados e festa de Natal.

Sobre assuntos que hoje se discutem na praça pública, os portugueses católicos são bastante liberais. Assim, 87%, dos interrogados neste inquérito, opinaram no sentido de que os padres católicos devem poder casar. A faculdade das freiras poderem celebrar missa merece opinião favorável de 76% dos católicos. Os casais homossexuais devem poder casar pela igreja, na opinião dos 65% dos inquiridos que se dizem católicos. Quanto aos divorciados católicos, estes deviam poder voltar a comungar, na opinião de 93% dos inquiridos.

Porém, a religiosidade popular, segundo este estudo, encontra-se hoje mais centralizada no Santuário de Fátima, que os católicos inquiridos revelaram já o ter visitado e um terço destes disse mesmo já ter feito uma promessa a Nossa Senhora de Fátima, sobretudo pessoas pobres e mais idosas.

florentinobeirao@hotmail.com