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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

EU PEQUENO ME CONFESSO

31.03.20 | asal

Sem mais palavras, vamos já ler esta preciosidade. Na Sertã, o António Gil Martins Dias ainda caminhava assim com a esposa, cheio de genica... AH

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Ontem sonhei com o passado. Estava à conversa com determinada figura feminina, na companhia de três antigos companheiros, dois do seminário, o Zé Ventura e o P. Fernando Farinha e um outro, já falecido, o saudoso companheiro de profissão, P. Zé Luís, do Preciosíssimo Sangue.

 Ora, com tais comparsas, e pese embora a presença feminina, que, obviamente, não vou identificar, a conversa só poderia ser sobre futebol. Na verdade, estávamos, em presença, um famoso tridente atacante que teve relevância futebolística no seminário de Portalegre, nos finais de sessenta, e que, com prejuízo por vezes das canónicas pós-almoço, disputava com correrias de má consciência a primazia de jogar de baixo para cima no campo de futebol, escapando assim às cansativas reposições das bolas transviadas barreira-a-baixo. E claro que veio à baila, com evidente necessidade de afirmação da minha parte, elemento mais frágil daquele grupo, a grande jogatana que o Fernando Farinha organizou contra a equipa representativa de Proença-a-Nova, a partir de um misto que compôs com amigos das Cimadas e arredores, nos quais nos incluímos os quatro, o Zé na direita, eu na esquerda, o Farinha no meio, a mandá-las lá para dentro e o Zé Luís atrás, autêntico varredor de área, e tão boa conta demos do recado que a vitória nos sorriu por 6 a 2. Desta jornada tão épica para mim, antecedida de uma caminhada de cerca de 8 km, distância entre a Isna de S. Carlos e Proença, só tenho pena de ter deixado partir o Zé Luís, sem ter ficado com uma cópia da foto de conjunto que ele possuía.

E foi com este entusiasmo que, depois, a “malta do pinho”, como em Portalegre os distinguiam, em bom futebolês, dos do “calhau”, se organizou, nas férias do Verão, para irem ganhar também à Sertã, com a ajuda preciosa desse predador de avançados que dava pelo nome de Miguel Farinha, outro “doidinho da bola”, e também à Idanha, graças à velha carrinha do pai do Fernando, “calhau” e “pinho” unidos em torno do mesmo objetivo, e com o apoio, entre outros, do Zé Rolo, limpámos tudo por números expressivos. Mas como não há bela sem senão, esfumaram-se os nossos sonhos de verão no exíguo e irregular campo da devesa, na Sobreira Formosa, vergados com copiosa derrota pelos vizinhos do António Henriques, comandados pelo velho Lino, e vergastados pelos gritinhos sibilantes lançados com algumas inoportunas pedrinhas da barreira circundante pelas esganiçadas conterrâneas do Andrade.

E eu, que sempre tive a pretensão de saber interpretar os sonhos, acho que devo este ao meu netinho Manuel, de oito anos, que só pensa em jogar à bola pelas salas da casa e só muito contrariado se senta para os deveres da escola nesta ausência forçada da mestra, fazendo-me lembrar do meu próprio percurso escolar, muito mais virado para a brincadeira do que para o estudo, abrindo sensível lacuna na minha preparação científica, a ponto de me poder quase autorretratar como Álvaro de Campos, em algumas das passagens do poema Tabacaria.

Ah! Como aprecio as capacidades interpretativas e sobretudo narrativas da História, de um Tó Manel ou do Florentino; a bagagem filosófica e discursiva do Pissarra e do Jana; os vastos conhecimentos humanísticos do João Lopes; a veia artística e consistentemente progressista do Colaço; a crença e dedicação inamovível de toda a direção, com o Mendeiros à cabeça; o talento, ânimo e resiliência do AH.

Não, não dou por perdido o meu tempo de seminário. De lá trouxe uma boa capacidade interpretativa da realidade, levando a vida com a consciência do dever cumprido, sabendo marcar as distâncias entre a exuberância e a mediocridade. Vivo o tempo marcando-o impressivamente de sensibilidade e bom senso. Para mim, o seminário foi sempre a minha segunda família e o companheirismo, que sempre privilegiei, isentou-me de alguns possíveis traumas, por que por vezes passam os mais suscetíveis com a disciplina monástica a que éramos sujeitos. Não, o seminário não teve culpa das minhas limitações científicas, eu sou pequeno por culpa própria e o meu complexo de inferioridade, que por vezes vem ao de cima nos meus sonhos, agora mais frequentes neste tempo de clausura sem horários, não me chega a traumatizar. Sim, o sonho aconteceu mesmo e a vigília que se lhe seguiu serviu de pretexto para esquematizar a possibilidade de comunicar com alguns dos que nos são familiares, que são muitos mais, evidentemente, para que nos predispõe este tempo de clausura forçada. Evidentemente que não poderia referir todos os protagonistas dos acontecimentos a que faço alusão, até na esperança de que alguns deles se permitam sair da sombra para me aviventar as recordações, isso é que seria bom!

 E com a catarse resultante desta penitente confissão, fico-me só pela primeira estrofe do Tabacaria: ”Não sou nada./Nunca serei nada./Não posso querer ser nada./À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

                                                                                                                                              Gil 31/03/20

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