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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Estímulo a escrever

22.01.20 | asal

João Lopes.jpegLer e escrever

Hoje apetece-me escrever para o Animus Semper!  Como podem ver, não o faço sem intenção! E vou ao meu Diário disperso por mil folhas e de lá saco coisas velhas que aprendi e ensinei. Senhoras, sabem o que é a leitura? (   Uh. Uh uh…)  Pois, recorrendo ao velho Aristóteles, autor da teoria da recepção (não me dá jeito o novo/encanecido (des)acordo ortográfico!),  vejam bem: Quando alguém lê está a criar novas imagens, a apreender novos conceitos, a partilhar emoções e corações, e, até, a exercitar a fala. Enquanto lemos, os músculos da língua mexem-se quase imperceptivelmente.

 Outro dado a ter em conta: legere significa colher, recolher sentidos, logo interpretar, isto é, actividade de Hermes, o deus–pirata e mensageiro dos  deuses, daí  Hermenêutica, arte ou técnica de procurar significações do texto lido, que podem não coincidir com as do texto escrito. Certo? Logo também se diz haver criatividade na leitura. Importa é que a interpretação, apreendendo embora o lastro, a estrutura do texto  primeiro, o de um suposto autor, que nunca é só dele, como aqui já foi explicado pela Júlia Kristeva, vislumbre o que ele não disse, mas quis dizer, sem deixar de clarificar  o que é dito sem querer. ( Podem ler Freud, mas é mais acessível  Graciela Reyes  e a  Professora J. Kristeva.

  Conhecem este caso de F. Pessoa? Um dia, num hotel, pegou na Bíblia e  leu a 1ª carta aos Coríntios (Ó Prof. , isso de quem é?  -Bem, se eu não fosse tão bom para vocês, dava-lhe meia hora para consultar a Biblioteca. – E há lá disso? – Mas é o livro berço da civilização ocidental! Harold  Bloom.  – Eu vou, prof., mas se você diz que é  um berço, lá por isso eu vou com gosto. ( Risada geral, mas esta  Senhorinha, meu Deus!   Diz o poeta :

 “ Reli-a à luz de uma vela subitamente antiquíssima/ E um grande mar de emoções ouviu-se dentro de mim… (..) “ Se eu não tivesse a caridade”  E a soberana voz manda, do alto dos séculos,  a grande mensagem em que a alma é  livre… Se eu não tivesse a caridade!

    Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!”

 

     E , agora, para um poeta que aqui já muito boa poesia publicou:

    “Tenho uma grande constipação/ E toda a gente sabe como as grandes constipações/Alteram o sistema do universo/ Zangam-nos contra a vida / fazem espirrar até à metaphysica. ((… )   

       Não estarei bem se não me deitar na cama.

       Nunca estive bem se não deitando-me no universo.

       Excusez du peu…Que grande constipação physica!

        Preciso de verdade e de aspirina.” A. De CAMPOS

 

    Torga dizia: a velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez. Ficamos velhos e o gosto na boca de ser mudos!” Aqui lembrei-lhe uma vez que na Bíblia há um profeta que põe os velhos a sonhar como se o mundo pudesse nascer de novo das suas mãos encardidas, do seu coração apaixonado de 18 anos. Olhava-me, furava-me a alma e sorria como uma criança!  Hoje, estou tão constipado, que queria dedicar-vos estes pedaços de linguagem para que vocês continuem – é só continuar e não largar a charrua, passar com o arado, semear com a mão funda do semeador da Comenda, do Grande nosso PADRE Horácio. E lá vai a obra que Deus quer  para honrar o Seminário que nos encheu as manhãs com o feijão frade do Ti Manel, o melhor cozinheiro que o Ritz  conheceu…      Quem não será capaz de reproduzir uma experiência, um encontro, uma lição, uma sentença, non in ipsis verbis, uma polémica com  sal ou insossa, o comentário a uma foto que tem por lá esquecida… Nesta idade, até conseguimos fingir que é verdade a vida mais sonhada que vivida. Depois, quem quiser entender qu entenda,  como quiser, que ninguém lhe vai pedir contas de um passado que já não existe porque o que conta é o futuro. Um futuro de amizade, e de união para o pouco ou muito que nos falta.  Só que podemos fazê-lo numa linguagem limpa de insultos ou insinuações ofensivas.   “ Trigo joeirado na Beira/ pelo vento suão lavado./  Ai quem me dera na eira/ no azul de Junho deitado.” 

J. Lopes

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