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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Este nosso mundo...

07.10.18 | asal

Pissarra.jpgNovo dualismo - online e offline

 

Hoje, muitos de nós habitam dois mundos: o do online e o do offline. Em qualquer lugar, por mais isolado ou sós que nos sintamos, podemos sempre estar ligados/conectados com o mundo. Com efeito, o recém-chegado mundo não apagou o mundo do offline. Ele continua aí e está para durar.

Agora, a maioria de nós – uns mais do que outros – habita dois mundos diferentes. Já alguma vez se lembrou da diferença entre os amigos destes dois mundos? Que sentido faz chamar amigo a alguém que se tornou amigo com um clique e que, por qualquer razão, apagamos a sua amizade com outro clique? Mas não são só os amigos que são diferentes. Os comportamentos, as regras, o que é permitido ou proibido, os limites, as competências, etc. Desde criança que sempre se aprendeu a viver no mundo que nos rodeia e, para ser aceites, tivemos de aprender as regras, os costumes e respeitá-las. Alguns de nós, como eu, já chegaram com idade e tardiamente ao mundo online. Cheios de artroses físicas e mentais. Com múltiplas formas de rigidez. Mas os nossos jovens e crianças nascem já dentro do mundo online. Portanto, a sua socialização, a sua aprendizagem, a sua educação, o seu desenvolvimento em todas as dimensões tem de fazer-se também neste mundo.

Como? Não sei. Mas a ausência de respostas não nos isenta da obrigação de procurá-la. Haverá consenso? Claro que não. Como nas questões da educação nunca sairemos da vivência daquele futuro pai que dizia: já tenho 7 teorias para educar um filho. Passados uns tempos alguém lhe perguntou: e então as teorias sobre a educação dos filhos funcionam? Não! Agora tenho 7 filhos, mas já não tenho teoria nenhuma. Ou então, o conselho de um filósofo grego. Se queres um filho com determinadas características, dá uma vista de olhos pelos filhos dos teus amigos e escolhe o que mais te convém. Os filhos não são a projecção dos desejos dos pais, mas eles mesmos.

Estas coisas da educação arrastam-me e não sou capaz de parar. Mas, o dualismo do mundo online e offline também é um desafio para a educação. Em muitos sentidos este dois mundos estão nos antípodas um do outro. Mas isso, por muito difícil e problemático que seja, exige uma nova aprendizagem para viver nestes dois mundos de um modo satisfatório e equilibrado. Dirão os filósofos que precisamos de encontrar uma nova arte de viver que procure harmonizar as relações e as competências destes dois mundos. Tarefa ciclópica? Sim, responderão as pessoas da minha geração. Normal e natural, dirão os mais jovens.

Eu, que quase só vivo offline, tenho a sensação que em relação a este mundo a que pertenço quase a tempo inteiro, tenho algum controlo sobre ele. Do que acontece online, tenho a sensação de fazer a triste figura daquele que quer segurar o vento de mãos abertas. No mundo do offline posso não ser o maestro da orquestra, mas ainda vou escolhendo as músicas que quero ouvir e afastando muito do que não me agrada ou aprecio.

O que me preocupa no mundo online? O seu enorme poder de sedução, de indução, de aliciamento; os seus potentes estratagemas e expedientes de manipulação; a forma empática de criar dependência; o seu potencial de monitorização e de nos vender o que querem e de nos levar a desejar o que não precisamos, etc.

E, o que escolherão as crianças e os jovens desta vasta oferta?

Que novas dependências e doenças vêm a caminho?

Mário Pissarra