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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Espanto

15.10.19 | asal

O espanto

Mário Pissarra.jpeg

Acabei de receber uns livros que havia encomendado. Um deles era o último do Pe. Anselmo Borges. O Pe. Anselmo foi meu professor de Eclesiologia e faz o favor de continuar a ser meu amigo ao longo destes quarenta e tal anos. Aliás, já algumas vezes com o Jana o trouxemos a Abrantes.

O meu espanto surgiu logo nas primeiras páginas ao ler:

            “Regressa a Portugal em 1970. Lecciona no Instituto Superior de Estudos Teológicos do Porto (ISET), promove conferências em que participam intelectuais como Óscar Lopes, e é considerado herético. Como é que recebeu a acusação?

            Fui considerado herético pelo bispo de Portalegre e Castelo Branco de então [D. Agostinho de Moura], que foi acusar-me ao director do ISET. Mas o director, Frei Bernardo Domingues [ irmão mais velho de frei Bento Domingues], esteve muito bem e desafiou-o a apresentar por escrito as minhas heresias.

E ele apresentou?

Tanto quanto sei, não.”

In Conversas com Anselmo Borges. A Vida, as Religiões, Deus. Lisboa, Gradiva, p. 20.

 

Eu já sabia que o Pe. Anselmo tinha sido «deportado por castigo» para Tomar. Sempre considerei que isso se devia a questões doutrinais, mas sobretudo por oposições internas dentro da Sociedade Portuguesa das Missões. Aliás, os alunos do meu ano que haviam terminado o probandato [espécie de noviciado] em Tomar falavam muito das críticas que o seu orientador fazia à equipa de formadores da Boa Nova [seminário de Valadares]. Trazia mesmo alguns recados para o efeito e não se coibia de os referir, embora o convívio com os alunos de Portalegre lhes alterasse as visões e os sermões encomendados.

Que o D. Agostinho foi um visionário e inovador ao licealizar os nossos seminários, eu não tenho a menor dúvida.

Que o concílio Vaticano II em que participou lhe deu uma abertura e uma aparência de horizontes largos, também não tenho dúvidas.

Que politicamente apoiava o Estado Novo e tinha por ele simpatias, também não me resta qualquer dúvida. Numa ocasião, não sei quem lhe teria soprado aos ouvidos a minha atitude crítica em relação ao regime vigente, encontrou-me num corredor do seminário e interpelou-me: «está a ver – mostrando-me um jornal francês --, anda para aí a dizer coisas, mas Moçambique é o 9.º país africano com maior rendimento per capita!». Respondi-lhe secamente: «não tenho razão para duvidar disso. Contudo, como sabe, a estatística é uma arte de mentir com rigor. A questão não é o rendimento per capita, mas a sua distribuição e o direito à auto-determinação (linguagem da ONU à época)».

Só agora relacionei este episódio com o que sucedeu pouco depois. No ano seguinte, fui fazer frequências de Filosofia à faculdade de Letras do Porto e fui visitar o meu amigo Pe. João Filipe. E visitei-o não em Valadares, mas no seminário Maior do Porto.

A realidade não deixa de me espantar. Na verdade, nunca esperei uma coisa destas!..

Mário Pissarra

 

NOTA: Fiz perguntas ao Pissarra para eu compreender melhor o texto e ele acrescentou:

"O Espanto - não me passava que fosse possível a causa do castigo do Pe. Anselmo ter sido a denúncia do Bispo. 

O Formador deles era um Padre Castro que orientou o seu probandato em Tomar e que não podia com a equipa inovadora do Seminário da Boa Nova. Portanto eu julgava que o que tinha acontecido tinha a ver com questões internas da Sociedade Missionária.

O Pe João Filipe é da nossa diocese, mais novo que eu, seguiu a carreira militar de capelão, está reformado como coronel e vive no seminário da diocese.
É óbvio que isto interessa a quem passou por Valadares."
 
R. Ó Mário, só não explicaste o que é que as frequências de Filosofia têm a ver com tudo isto. AH

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