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Animus Semper

Escrevam, escrevam...

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«... a evocação de algo que me reconforta o espírito no meio desta confusão em que se transformou este mundo cujos tempos ora decorrem.»

 

O TECTO DO MEU QUARTO

 

     Hoje deu-me para aqui. Decidi recordar o meu passado de modo a que dele possa retirar um episódio, um facto ou um acontecimento que tenha marcado de algum modo a minha personalidade ou, pelo menos, me faça reviver através da evocação da minha vida que, como qualquer vida, teve o seu percurso natural, que nunca poderia ser outro, porque só há uma vida, aquela que vivemos e nunca outra que erradamente pensamos que poderíamos ter vivido. Chamemos-lhe destino ou o que quisermos, mas, neste caso, a realidade é intransponível.

        Porém, o que à partida me parecia fácil, transformou-se em coisa difícil, e dou por mim metido num emaranhado de lembranças, donde não consigo libertar-me.

        Pena na mão direita, rosto apoiado na esquerda, as ideias como que emperradas, recosto-me na cadeira e fixo o tecto branco, num gesto quase apelativo e direccionado não sei para onde.

        Mas este tecto branco que fixava com retoques de persistência, conduziu-me, diria que com estranha saudade, a um outro tecto que profundas marcas registou em mim desde a  infância. Assim, num repente e mentalmente, coloquei-me numa posição física tantas vezes repetida nos meus primeiros anos de vida: na cama, deitado de costas e fixando o tecto do meu quarto de criança e adolescente.

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     Este tecto do meu quarto da casa da aldeia onde nasci e me criei tinha a particularidade de ser em madeira de pinho,  recheada de nós que me fascinavam pelas descobertas que proporcionavam ao meu olhar. Eram nós de todos os feitios e tamanhos, que eu percorria com o olhar ora fixo ora errante, construindo as mais variadas fantasias que se possam imaginar. Eram figuras humanas, umas perfeitas e outras deformadas; eram animais elegantes e outros feios e carrancudos; eram mulheres com rosto encantador e outras  com caras deformadas e carrancudas; eram carros; eram árvores despidas e outras carregadas de ramos e fruta; eram casas; eram ruas e caminhos; e era , acima de tudo isto, o que eu imaginava na conjugação de toda aquela nosaria que se espalhava no tecto de madeira de  do meu quarto.

         Aquele tecto terá sido o meu primeiro condutor para a divagação das ideias, para a criatividade mental, para a actividade lúdica do meu imaginário, para a libertação do meu pensamento no restrito mundo em que me movimentava, para a percepção da curta distância existente entre a fantasia  e a realidade, para as emoções mais diversas que caracterizam o ser humano, para me incrustar na alma a fidelidade do amor, porque , em boa verdade, nunca deixei de amar aquele quarto com um tecto  que me marcou para todo o sempre. E,  pensando hoje nisso, compreendo com maior nitidez como as coisas mais simples da vida podem influenciar os caminhos que nela percorremos ao longo dos tempos.

     Perdido nestas divagações, dou por mim a pensar que o que pretendia no início da crónica era recordar-me de uma história interessante, dum facto relevante aos meus olhos e dos outros, de um acontecimento que pudesse classificar-se de extraordinário. Porém, ficou-me a sensação de não o ter conseguido. Apesar de tudo, paira na minha mente a convicção de que talvez fosse isto o que eu pretendia: a evocação de algo que me reconfortasse o espírito no meio desta confusão em que se transformou este mundo cujos tempos ora decorrem. Mas não vou aqui mencionar toda a adjectivação que poderia utilizar para definir o que por aí vai no meio de toda esta agitação e luta contínua que estão a descaracterizar o que pode dar algum equilíbrio ao viver e convívio entre todos os seres humanos. Muitos chamam-lhe luta, eu chamo-lhe desumanização. O mundo de hoje parece-nos fictício. Para mal dos nossos pecados, para muitos, trata-se de destruição lenta ou apressada daquilo que por aí se denomina da civilização mais avançada e jamais alguma vez alcançada.

     Correndo o risco de poder ser apodado de pessimista doentio, não posso deixar de me interrogar :- Que futuro podemos esperar para um mundo em que o presidente do país tido como o mais desenvolvido do planeta no último século, - sabendo-se que hoje já outros lhe estão na peugada em passo acelerado - sugira que todos os professores devem possuir uma arma na escola onde leccionam, para obstar ao terrorismo escolar cada vez mais frequente? E é em pleno século XXI que tal acontece. Ora isto é mau demais para se poder comentar. Devemos é debruçarmo-nos para ver o que está na origem de tal aberração. Pobre ensino! Pobres professores! Pobres alunos! Pobre sociedade que atingiu tais fragilidades!

     Contudo, para mim, o tecto daquela casa continuará a ser uma referência inapagável, pois foi ele que me proporcionou toda a riqueza contida daquelas noites em que, à luz do candeeiro, pude dar largas à minha imaginação com prazer, tranquilidade e  proveito. Hoje sinto-o como nunca.

        Porém, não vamos desanimar com todas as aberrações, contrastes, incongruências, delírios, maldades, agressividades que proliferam por esse mundo fora. Em contraste e apesar de tudo, ainda há valores capazes de dar esperança aos que são vítimas deste desequilíbrio em que todos somos obrigados a viver. Enquanto se construírem quartos com tectos de madeira que nos ajudem a fantasiar a criatividade das nossas consciências, haverá a possibilidade de sermos mais capazes e mais felizes.

        Para terminar, autorizo-me a evocar o Aleixo, o poeta algarvio que na sua simplicidade tantos ensinamentos nos deixou :- Tu que tens saber profundo / És engenheiro e vês bem / Ergue uma ponte, onde o mundo / Passe sem esmagar ninguém!

A. Pires da Costa     --   (Texto sem acordo ou desacordo ortográfico)

 

ADENDA - Junto este pequeno vídeo que incluí no blogue dos meus alunos (Oficina de Português) a convidá-los a escrever. O A. Pires da Costa parece que estava na minha aula!