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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

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Entrevista ao Rei

Alcácer5.jpg

RIGOROSO EXCLUSIVO MUNDIAL


D. SEBASTIÃO ENTREVISTADO

EM ALCÁCER QUIBIR


- “Ei! Ei! Você aí!”
Acabava eu de satisfazer a mais comezinha das necessidades fisiológicas dentro da toca de um eucalipto centenário já chamuscado por qualquer incêndio que por ali havia passado, sim porque as chamas florestais não são exclusivas do luso território e Marrocos, afinal, também é mediterrâneo, quando, atrás de uma grande meda de fardos de palha, e perante o meu espanto, surge um vulto que me questiona directamente:
- “Quem é que vocês são? Estou aqui a mirar esse grupo e agora que o meu amigo acabou de verter as suas águas diga-me: quem é que vocês são? Pareceu – me ouvir um tagarelar familiar e fiquei na dúvida. Por um lado, parecem-me cristãos lusitanos; por outro, não era assim que se falava no meu tempo. Vocês são cristãos lusitanos?”
Surpresa vencida, de imediato reconheci o meu interpelante. Nem mais nem menos que D. Sebastião! Olhando em redor, desconfiado, pediu-me para falar baixo e não avisar o grupo. Assim fiz. E aproveitei a real curiosidade para, também eu, esclarecer algumas dúvidas. Segue o diálogo possível naquelas circunstâncias. Sem preparação, sem apontamentos nem gravador. Na transcrição que se apresenta a única fonte é a memória.
- Eh lá! O meu amigo parece-me ser D. Sebastião, Rei de Portugal, que se finou aqui em Alcácer Quibir! Sim somos portugueses! Viemos visitar o local da batalha que, ainda hoje, é para nós portugueses, um marco importante da nossa história.
- Cá me parecia. Pela vossa postura e palrar só podiam ser. E fico contente por ainda se alembrarem de mim. Talvez não pelas melhores razões, mas… Tudo bem.
De repente lembrei-me que estava perante uma figura real e melhor seria usar de algum tratamento referencial. Continuei:
- Saberá Sua Majestade que todos nós aqui somos interessados na História de Portugal e alguns são professores da matéria?
- Folgo muito em saber isso.
- Posso aproveitar este nosso encontro, fortuito e imprevisto, talvez único, para questionar Sua Majestade sobre alguns assuntos menos esclarecidos da sua vida e do seu reinado?
- Esteja à vontade e deixe-se lá dessa coisa de “Sua Majestade”. O meu tio castelhano, com a ajuda dos antepassados desses mouros que convivem aí convosco, encarregou-se de fazer voar a coroa e a majestade… Então comece lá e seja rápido que eu não quero ser visto por mais ninguém. Você teve muita sorte em vir aqui fazer a sua “mijinha” e apanhou-me bem-disposto. O que não acontece com frequência…
- Então vamos a isto. Estão ali ao lado três pequenas construções evocativas da Batalha. Uma assinala o sítio onde, supostamente, o meu amigo morreu. Outra, um memorial ao rei mouro Abdelmaleque. Um terceiro monumento é um memorial à vitória dos mouros. A batalha travou-se mesmo aqui?
- Olhe, meu caro amigo, já foi há tanto tempo e o terreno sofreu tantas mudanças que já nem eu sei bem. Antigamente isto era um deserto, agora os mouros construíram por aí umas valas com água e já se vê muita verdura por esses campos. Nada como em 1578. Por outro lado, a batalha foi tão confusa que nem sei bem como aconteceram as coisas…Afinal estiveram em confronto quase 60.000 homens dos dois lados e andaram por aí a combater num espaço muito alargado. Se foi exactamente aqui não posso garantir. Mas foi por aqui, mais coisa menos coisa. Não deve andar muito longe. Mas também que lhe interessa isso?
- Está certo! Por falar na batalha. Lá em Portugal a memória que o Povo guarda do meu amigo não é muito famosa. Acusam-no de tanta coisa má…
- Alto! Acusam-me de quê? Vá, não tenha medo que eu estou desarmado e já me passaram as ganas da juventude.
- Olhe, a primeira que me vem à cabeça é que o senhor preparou mal a expedição militar de 1578 aqui a Marrocos.
- Preparei mal? O tanas! Isso é conversa de gente que não sabe o que diz. Preparei mal? Essa é boa! A rapaziada que diz isso conhece a legislação que mandei fazer para reorganizar o exército? Não ouviu falar da campanha preparatória no Alentejo…?
- Outra coisa de que o acusam é que meteu na cabeça a ideia de vir combater os infiéis e mais ninguém o conseguiu dissuadir.
- Outra mentira! Está certo que me entusiasmei. Mas tinha o apoio das Cortes que reuniram em 1562-63, tinha o apoio de muitos senhores influentes da nobreza que estava desejosa de recuperar terras e benesses. O próprio Papa via com bons olhos a expedição a África pois vínhamos combater infiéis e espalhar a Fé. Ainda por cima havia uma situação favorável em Marrocos porque os mouros andavam desentendidos uns com os outros. Está a ver? Arranjei um aliado mouro e vim para cá.
- Quem sou eu para o desmentir?! Mas então porque é que a batalha correu mal?
- Isso é outra questão. Também ouvi dizer que há quem diga que eu não deveria vir para o campo de batalha combater. Analfabetos! Preparei-me teórica e fisicamente e vim para dar o exemplo e animar as tropas com a minha presença. E era o sangue novo dos 24 anos a fervilhar! O problema foi outro. Por um lado, eu tinha muito entusiasmo, muita força, muita teoria mas faltava-me a experiência de combater no concreto. Cometi alguns erros como o de não dar a ordem de combate no tempo certo, de me deixar levar por idealismos... Mas olhe que também foi um pouco de azar. Houve um momento em estávamos a levar de vencida os mouros e, por azar, o oficial que comandava aquele sector caiu morto com um tiro. Logo por azar foi ele. Não podia ter sido outro? Está a ver…
- Outra acusação que lá lhe fazem é que era “avesso a mulheres” e que não foi avisado vir para uma guerra sem garantir herdeiros para o reino de Portugal.
- Ainda bem que me fala nisso. Lembro-me de alguns nobres me terem aconselhado a fazer primeiro dois ou três filhos varões e depois vir combater. Mas sabe como é. Alguma vez eu pensei em perder isto?! Quanto às mulheres… Bem. Quando era miúdo até as achava interessantes. Depois a educação cristã que me foi dada começou a fazer-me sentir que elas são a origem dos pecados e do mal – aquela história da maçã – e comecei a não lhes achar grande piada. Por outro lado, também me apareceu um problema no … está a ver? Acabei por não me dedicar aos prazeres do sexo com as mulheres, mas acredite que se tivesse regressado, teria garantido herdeiros ao trono. Nem que fosse só pela Pátria! 
- Mas também há quem diga que o senhor foi abusado sexualmente quando era pequeno…
- Já cá faltava essa. Deixe-se de parvoíces. Já ouvi dizer que esse tema está agora na moda por lá. Como é que se chama?
- Abuso de menores. Pedofilia.
- Isso. Agora deixe-me ser eu a fazer uma pergunta. Sempre é verdade que alguém roubou armas num quartel militar lá em Portugal?
- Sim, foi em Tancos. Já as encontraram, mas apareceram mais que as que foram roubadas.
- Bonito! Então o Estado agora está assim? Os militares já nem guardam as armas de que precisam para combater? E depois ainda me acusam a mim de não ter as tropas organizadas…
Entretanto o resto do grupo já se deslocava para recepção nos Paços Comunais de Souaken e tornava-se urgente terminar o encontro.
- Senhor D. Sebastião, não querendo abusar da sua paciência só mais umas perguntinhas rápidas. O senhor que por aqui anda há tantos anos, o que é que pensa deste território que afinal nunca foi seu?
- Antes tivesse sido. Comigo estaria muito diferente. Depois de nós estiveram aqui franceses, espanhóis e até demos Tânger aos ingleses. Os americanos também por aqui tiveram interesses. Ali em Tânger até existiu uma espécie de região autónoma. Por volta de final dos anos 50 tornaram-se independentes. Estes mouros de agora fazem muitos filhos. São cerca de 35 milhões e metade da população tem menos de 30 anos. A economia cresce, mas não dá trabalho a tanta malta nova. Já viu nas cidades? A juventude que já não estuda anda aos bandos pelas ruas e não produz nada. Vivem de biscates e de actividades menos claras. Isto não vai dar bom resultado. Qualquer dia a sociedade entra em ebulição. O rei deles bem quer modernizar e controlar tudo mas qualquer dia não sei, não.
- Que lugares nos aconselha a visitar?
- Vocês já devem trazer um percurso estudado, não? 
- E verdade, mas mesmo assim andámos hoje de manhã um bocado perdidos até chegarmos aqui. Em Alcácer Quibir enganámo-nos e fomos noutro sentido. Chegámos aqui a Souaken fora de horas e cheios de fome, de sede e de calor.
- Eh! Eh! Eh! Também vocês? Comigo foi igual. Afinal lá pela nossa terra as coisas não mudaram muito desde que saí de lá. E ainda por lá há uns tipos que querem que eu apareça numa manhã de nevoeiro… Isso é que era bom! Estou a ver que não mudou nada em 400 e tal anos.
- Mas diga-me. O que é importante nós visitarmos por aqui?
D. Sebastião, já farto de conversa, apontou ao longe e respondeu:
- Tenha paciência. Além aqueles tipos já estão a olhar muito para aqui… Vou-me embora. Saúde!
E assim, sem mais nem menos, como apareceu, desapareceu.
Virá um dia? Ou não…
(Entretanto pode ser que o volte a encontrar por lá noutra viagem.)
Em SOUAKEN (Alcácer Quibir), aos 18 dias do mês de Setembro de 2018
(António Manuel Silva)

 

 

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