Fim de manhã de Junho ardente (1952?, corrijam-me se erro). Estávamos - os do meu 2º ano do Gavião - na Comenda (Alto Alentejo), onde então paroquiava o nosso futuro professor de Música em Alcains, Pe Horácio Alves Nogueira (na foto do meu 5ºano, com muita saudade).
Aguardávamos, em formatura de jovens cantores, o final da ceifa na Herdade do Polvorão, numa cerimónia previamente preparada com ensaios dirigidos pelo Pe Horácio, autor da letra e adoptando a música do " Água leva o regadinho".
Então, enquanto os ceifeiros iam acabando de ceifar a seara de trigo, nós cantávamos
"Nós somos os ceifadores
Da folha do Polvorão
Nós ceifamos o pão todo
Com a maior devoção
Ceifai trigo, ceifai trigo
Ceifai trigo com cuidado
Do trigo se faz o pão
Que em JESUS será mudado ..."
e seguiam-se outras quadras de que já não me lembro ( quem se lembra?)
No final houve EUCARISTIA e lanche/almoçarado para todo o pessoal (cantante e ceifante). Foi um delírio de "gourmet" para nós, habituados à comidinha habitual do seminário. Que petiscos! Eram croquetes, rissóis, pastéis, doces, frutas, refrigerantes fresquinhos - tudo animadamente num ambiente de felicidade juvenil.
Porquê evocar este episódio? Para destacar a bondade e sensibilidade de um Pároco que idealizou este cenário de um ruralismo agradável para os seus assistentes e participantes.
Posteriormente, já em Alcains, a mesma figura de Sacerdote bondoso e tolerante, mas também competente e exigente nas matérias que leccionou, nos motivava de modo muito afectivo.
Na continuação do estudo do Solfejo ( já iniciado no Gavião) e da Teoria Musical - em aspectos mais complexos - e ainda na prática instrumental, surgiam sempre os dotes de um verdadeiro Pedagogo (ensinava e tocava violino, órgão, piano , acordeão ...).
Deixo aqui o meu testemunho de gratidão, pois quase tudo em que vim posteriormente a "navegar" em Música se deve a este grande Educador Musical.
Com ele toquei a quatro mãos pequenas peças de Haendel, em piano. Ensinou-me a arte das teclas e também a arte coral, com belos ensaios de, por ex., Ave Verum de Mozart e Ave Vera Virginitas, em polifonia. Aproveitava as nossa vozes conforme as idades e mudanças de voz para "criar" sopranos, tenores, alguns barítonos e um ou outro baixo.
"O tempora..." Belos tempos.
A terminar, relembro, como curiosidade, aquele difícil (para a época) nº de Solfejo - o 79, do Tomás Borba (aqui reproduzido), que solfejei entoando num célebre jantar no "Caravela" de Algés, com um convidado especial - Pe Horácio.
Reacção dele: "Ó Caldeira, você ainda se lembra disto? Valeu a pena ter sido vosso professor".
Que Deus o tenha em Paz, na Sua Santa Glória entre os Justos.
Com a Amizade do José Caldeira
NOTA: Zé Caldeira, fico embasbacado com as coisas que tu contas da Comenda, pois eu, como colega do mesmo ano, não me lembro de nada. Talvez o Mendeiros saiba mais sobre o seu pároco e ele queira contar... AH
7 comentários
João Lopes
27.07.21
O texto do José Caldeira encheu-me a alma! Não tenho aqui a sequência dos versos , mas permito-me aditar outros: Quando eu vim Para o Alentejo ( Não o digo por gracejo ou por tolice),/ Senti que eu era a Planície/ Sem fim, / Um autêntico Deserto,/ Que não tinha descoberto/ Ainda dentro de mim... Simples, corrido e fácil- a facilidade do Génio que habita as almas iluminadas pelo Sol da divina Inspiração ou das Musas de Apolo, donde derivou a Música, a arte das artes. Agradecido, João Lopes