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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Ele está de vareta!

10.08.20 | asal

No seminário de Portalegre

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Num belo dia, enquanto esperávamos o professor de Grego, o Abílio Delgado diz: «hoje, não temos aula, ele está de vareta!» Pergunto eu, para espanto de muitos dos meus condiscípulos, mas «o que é estar de vareta?» Não sabes?, exclamaram vários. O Abílio tomou a palavra e esclareceu-me: é estar ou ter diarreia.

Nisto, entra o Dr. Manuel Rodrigues e diz: «Com que então de vareta, hem?» Ninguém comentou e ele deu início à aula. Era uma pessoa muito sui generis e meio lunático em certos aspectos. Passava o tempo a reclamar com o ecónomo que lhe cobrava muito pelos telefonemas que fazia para o exterior. Acusava o porteiro, o Sr. Ribeiro, de lhe debitar telefonemas que não fazia. Contava-se que o ecónomo do seminário, farto das reclamações, perdeu a paciência e pediu uma linha directa só para ele. Passado poucos meses, desistiu do telefone só para si. As contas tinham subido astronomicamente. Em Portalegre, rivalizou com o José Régio na recolha de crucifixos e tinha uma colecção numerosa e notável.

O Dr. Rodrigues saiu de Portalegre e foi para a Alemanha como capelão de emigrantes portugueses. Quando cheguei a Abrantes, comecei a ouvir falar do Pe. das minhocas e na existência de uma casa com muitos crucifixos no Sardoal. Tinha entretanto voltado da Alemanha e vivia nos Casos Novos. Trouxe da Alemanha a notícia e ideia do empreendimento: recorrer às minhocas para fabricar matéria orgânica. Conheci várias pessoas que partilharam esta paixão pouco duradoura ou, deverei dizer, pouco rentável? Um deles, o António Manuel, dos Vales. A última vez que falei com ele foi num serão na biblioteca António Botto, em Abrantes. Com o Jana e outros desenvolvíamos um projecto em que as pessoas escolhiam e falavam do livro da sua vida. A pintora abrantina, Maria Lucília Moita escolheu a Bíblia e convidou o Dr. Manuel Rodrigues para falar com ela sobre a Bíblia.

Numa aula de Filosofia, quando explicava Heráclito, lembrei-me desta história da diarreia. A questão era levar os alunos a compreender as duas concepções opostas: Parménides – tudo o que é, é; não muda e permanece; o movimento é uma ilusão, pois, é contraditório. Heráclito – tudo flui, o real é movimento, é mudança; a permanência é uma ilusão. Por isso, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.

Mas de onde veio essa ideia da diarreia? Tudo flui diz-se em grego: panta + rei; panta = tudo; rei = correr. Escrevi no quadro em grego. Um espanto geral. Não eram capazes de ler as letras do alfabeto grego. Fui respondendo à sua curiosidade e recordando-lhes algumas letras gregas que já conheciam de outras disciplinas. Por exemplo, dia = através de. De imediato, conclui um aluno: a diarreia é a merda a correr através das tripas. Apressei-me a fechar o parêntesis e voltar à matéria.

Gostava de ter tido mais tempo para esta minha paixão pela raiz/etimologia das palavras. Um sonho por cumprir, mas um instrumento pedagógico e didáctico que utilizei muitas vezes e com proveito.

Mário Pissarra

Nota: foto do Encontro de Castelo Branco, com alguns dos implicados na estória.