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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Curiosidades

31.07.19 | asal

Cangalhas, cangalheiros e agências funerárias

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1. Aprendi o significado de cangalhas como sinal de óculos. Usar cangalhas, pelo contexto, remetia para um velho de óculos. «Usa cangalhas» ou «com aquelas cangalhas» tinha sempre um sentido depreciativo. Remetia sempre para a figura de uma pessoa idosa e com os óculos na ponta do nariz ou, então, para algum pitosga com óculos tipo fundo de garrafa. Numa sociedade em que o acesso a óculos tinha mais a ver com o estatuto económico-social do que com a necessidade, era natural que este sentido pejorativo se enraizasse na linguagem do povo. Os óculos eram sempre um acréscimo pouco estético à figura humana. No século XVI, quando o uso de óculos se tornou moda, nos Países Baixos, surgiram caricaturas em que até os porcos e e cães usavam cangalhas.

2. Mais tarde aprendi que também se usa o termo como sinónimo do que aprendi a chamar «angarelas», usadas pelos burros para transportar água ou outro tipo de cargas. Das mais rudimentares de madeira com espaço para quatro cântaras ou dois molhos ou sacos até à sua reformatação em ferro há grandes ganhos em simplicidade, leveza e e facilidade de utilização. Também conheci este tipo de instrumento em seirões mais parecidos com os alforges. Estas cangalhas eram também um acrescento à albarda do burro.

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3. Só tardiamente associei e aprendi que a palavra cangalheiro deriva de cangalha. A proibição dos enterros nas igrejas e o aumento da distância para os cemitérios fez nascer o uso de uma padiola, um carro puxado por um só boi para transportar o cadáver ao cemitério. Do transporte de cangalho ao feito por populares evolui-se para a carreta e desta para o carro funerário. A burocratização do processo criou a necessidade de serviços especializados para tratar de tanta papelada. Assim nasceu a sofisticada indústria funerária. Não consta que os que já fizeram esta viagem se tenham queixado de falta de comodidade do cangalho ou elogiado o caro conforto das agências.

Mário Pissarra