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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

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Curiosidade de café

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Esta manhã, enquanto tomava o café e ia fazendo a minha leitura matinal, abeirou-se de mim um frequentador do mesmo café e perguntou-me: «porque é que o senhor lê tanto? É que o encontro aqui, quase todos os dias, e está sempre aqui tão cedo. A esta hora só passam por aqui as pessoas que vão para o trabalho.»

Sabe, respondi-lhe, eu gosto muito de conversar e agora já é difícil encontrar pessoas com tempo para conversar, trocar ideias ou discutir. Já reparou que cada um está de volta do seu telemóvel, mesmo enquanto espera pelo pequeno-almoço ou enquanto bebe o café. Não ficou muito convencido com a minha explicação.

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Então acrescentei: além disso, ao ler tenho sempre oportunidade de conversar com o autor e, nalguns livros, com as suas personagens. Não só converso como discuto e, por vezes rebato os seus argumentos. Até me acontece tomar o partido de uma personagem contra outra e simpatizar com algumas e detestar ou condenar outras.

Nunca tinha pensado nisso, ripostou e partiu desejando-me boas leituras, pois, também ele devia ter o telefone à espera e estar cheio de pressa.

Nem deixou explicar-lhe que quando se tem um bom livro à mão nunca se está só ou sofre de solidão. Muito menos me deu tempo de lhe explicar que foi através da narração de histórias que a mais bela jovem de As Mil e Uma Noites pôs termo à matança das jovens virgens. Esta obra revela a coragem e a inteligência de uma mulher que, através da sua enorme capacidade de contar histórias, consegue aplacar a ira e a raiva de um rei traído pela maldade e infidelidade de outra mulher. Sherazade, a heroína desta obra clássica contou na primeira noite uma história tão bela que deixou o rei preso às suas palavras e, quando a manhã interrompeu a narrativa, disse-lhe que o que havia contado não se comparava com o que teria para lhe contar na noite seguinte. Desejoso de saber a continuação da história, Schahriar, o temível rei, permitiu que Sherazade vivesse mais um dia e, depois, outro dia e, ainda, outro dia... E o poder da palavra, o poder encantatório de contar histórias prolongou-se por mil e uma noites …
Mário Pissarra

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