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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Crónica

21.12.20 | asal

Chocolate no céu

 Meu Bom António,  aí vai uma linda crónica a exalar o perfume do Natal. UM abraço João Lopes.

( Nesta crónica publicada no Público de 20.12. 2020, Carmen Garcia, enfermeira de profissão,  faz um relato, em 1ª pessoa, de factos vividos, num discurso emotivo e reflexivo. 

Os factos são: o encantamento em colaborar com a mãe na feitura de um presépio doméstico; o seu compromisso na catequese paroquial; o desaguisado infeliz com um membro do clero; a sua fé inabalável em Deus, apesar dos ataques dos militantes ateus, seus amigos; a  rejeição liminar de todos os extremismos de sinal contrário;  o encantamento mágico  dos seus filhos  com o presépio que ela fez em sua própria casa.) 

   A contragosto, o pai ia com a filha ao campo procurar musgo para o presépio que a mãe fazia em casa. Enquanto colocava as figurinhas, a mãe aproveitava para lhe contar a história do nascimento do Menino Jesus. O pai, ateu declarado, resmungava:  “ Estás a encher a cabeça da miúda com histórias da carochinha.”

  Era um presépio completo, tradicional. Encantava-a, sobretudo, o estábulo, a manjedoura e a  ESTRELA.  O Menino devia ser mesmo muito especial para que no céu brilhasse uma estrela para marcar o dia e o lugar do seu nascimento -- pensava a menina para si própria.

   Por interdição taxativa do pai, não foi baptizada. Um dia, porém, inscreveu-se na catequese e passou a integrar o Movimento Juvenil Salesiano.  Foi mesmo catequista na sua paróquia, o que pressupõe ter sido baptizada, facto, no entanto, omisso na crónica. Mas, um dia, deu-se a ruptura com a prática religiosa. Ela explica: ”A gota de água aconteceu há pouco tempo quando escrevi um texto em que defendia a eutanásia e recebi uma mensagem assinada por um respeitável senhor da Igreja, cheia de ódio em cada letra, em que me era pedido que não voltasse a assumir-me católica por ser uma vergonha para cada um dos verdadeiros católicos neste país.”  

 Dado que não cumpria as regras da Igreja, começou a designar-se como “ uma mulher que acredita em Deus”, o que enfureceu os seus amigos, agnósticos e ateus, que lhe exigiam, à viva força, abjurasse da sua Fé.  Deixou-os a berrar com o seu racionalismo, ripostando não haver contradição entre a Fé e a Ciência, e prosseguiu, não admitindo  o insulto de ser considerada intelectualmente inferior por ter Fé em Deus. “ E faço-o porque ela é minha, demasiado pessoal para ser esmiuçada, debatida ou escudada nas teorias de filósofos e teólogos. (….) A fé não é incompatível com a ciência. O que é incompatível com a ciência e com o desenvolvimento de uma sociedade mais humana e justa são os extremismos.”

Nuvens.jpeg

  Este ano, comprou um presépio para a sua casa, o que serviu para contar aos filhos, de 4 e 2 anos, a mesma história que ouvira da mãe. O mais velhinho apreciava Maria, José e o pastor. Já o mais novo desaparecia, todos os dias, com o Menino. Perdido, a mãe foi encontrá-lo no saco dos Legos.  Não sabe se os filhos virão a manter a Fé ou não. Quer, simplesmente, passar-lhes a magia do Natal.  Um dia destes, o Pedro perguntou onde vivia o menino Jesus. O João logo lhe respondeu: “ O menino Jesus mora sentado numa nuvem a comer chocolate e brócolos.”

E que eles guardem para sempre este momento e esta linda história é o desejo da mãe.  O momento” em que juntos e felizes olhámos para cima, para a casa do Menino Jesus, enquanto cá em baixo dividíamos pelos três um chocolate quente acabadinho de fazer.”

Reconto de João Lopes

 

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