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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Crianças de outros tempos

03.06.20 | asal

Do nosso amigo Mário Pissarra, trago para aqui um texto do dia 1, o das crianças. AH

Mário Pissarra.jpeg

 

Depus a máscara e vi-me ao espelho.

Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.
Álvaro de Campos

 

Sem brinquedos.
Sem livros.
Sem televisão doméstica.
Sem telemóveis e quejandos.
Sem grandes comodidades.
Pobres em roupas e guloseimas.
Sem luz eléctrica e água canalizada.
Sem telefone ou carro.
Sem festas de anos nem piqueniques.
Sem prendas e aniversários dos amigos.
Sem...
….
Mas Felizes.
Com a rua sem carros para brincar,
Os campos com os seus ninhos, grilos e seus desafios,
Com o eixo, as touradas, as chônas, o moucho,
as corridas, as escondidas, o mata, o descanso,
o pião, a argola, o berlinde, etc. para jogar.
Como não ser feliz a construir barragens, canais, caleiras,
Moinhos, poços e picotas, sujando mãos e pés na terra?
Como não ser feliz a correr em magote atrás da bola de trapos
E tentar fazer golo numa baliza imaginária demarcada por duas pedras?
Como não recordar as acesas discussões se foi dentro ou fora, alta ou não?

Não nos deram coisas?
Sim. Porque não tinham e não podiam.
Mas deram-nos tempo, amor, carinho, atenção.
A rodos!
Deixaram-nos ser crianças.
Dando-nos tempo e espaço.
Também responsabilidade pelos mais novos, os animais
E muitas outras pequenas tarefas.
Levaram-nos para o campo
E acompanhámos a vida da horta a nascer, a crescer e a colher.
Suportámos a dureza do clima e da vida.
Mas nenhum perigo, dificuldade e agrura
Nos impediu de ser crianças.
Crianças de outros tempos.
Mas
CIANÇAS FELIZES.


Mário Pissarra