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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Conversas proibidas

10.12.19 | asal

José Maria Lopes1.JPG

No meu tempo de permanência no Seminário do Gavião, no princípio dos anos quarenta, o ano lectivo compunha-se de três períodos: o primeiro até ao Natal; o segundo até à Páscoa e o terceiro, longo, até ao início das férias grandes.

Foi no regresso do segundo período, naquele ano de 1944, trazendo nós coisas para contar uns aos outros, vividas nas nossas terras que, no recreio da noite, o último do dia, nos entretínhamos, numa das salas, a jogar alguns jogos de mesa, a conversar, a estudar o solfejo com o auxílio dos mais afinados e a contar, então, as nossas deambulações naqueles quinze dias fora do Seminário.
Como, também, talvez se recordem, não era permitido andarem juntos só dois alunos, mas sempre três ou mais.
Não desobedecendo a esta regra, um nosso companheiro ( eu não vou citar nomes) chamou-me e a um outro e fomos os três debruçar-nos no parapeito duma das janelas, de costas para a sala, virados para o exterior.
Disse-nos ele: - tenho uma coisa porreira para vos contar, mas juram que não dizem a ninguém.
Com este exórdio de conversa, ficámos muito curiosos e logo, em uníssono: - conta lá, conta lá.
Mas antes de relatar a conversa, lembro que havia sempre na sala - indo e vindo - um dos nossos professores e, naquele dia, coube a vez ao Padre Braz Jorge que ia aparecendo para ver se tudo estava a correr bem.
Nas duas ou três vezes que veio à sala, deu sempre por nós, os três, no mesmo sítio, na tal janela, e deve ter notado algum entusiasmo da nossa parte.
O colega que trazia a novidade especial começou, então, por nos relatar que num dos seus passeios, sozinho, pelos arredores da sua aldeia, deparou-se-lhe, atrás duma parede, um par de namorados, pessoas que ele conhecia, a mexerem-se um ao outro por tudo o que era sítio corporal.
Contou todas as cenas, cenas amorosas que tivera visto e algumas contadas com bastante pormenor.
Acabou o recreio. Todos para a capela para as orações da noite e de seguida para as camaratas, em absoluto silêncio.
No dia seguinte, o Padre Braz Jorge começou por chamar ao seu quarto os três intervenientes, um deles eu, em separado. Eu fui o segundo a ser chamado e o Padre Braz Jorge, antes de me interrogar, disse-me: - Zé Maria, não vale a pena mentires porque o teu colega já contou tudo o que falaram naquela janela e se mentires podes ser expulso.
Contei tintim por tintim, a conversa havida e nunca soube bem ao certo se o outro teria contado tudo como eu. Esta técnica ou táctica de dizer ao segundo ou ao terceiro que o primeiro já tinha dito tudo, deixava-nos vulneráveis porque nos obrigávamos a dizer a verdade.
A consequência desta " brincadeira" foi a expulsão do narrador (estava no 2.º ano) e nós, os outros dois, nada sofremos a não ser uma tremenda reprimenda e o conselho de nos livrarmos de tais conversas por serem indignas nos seminaristas.
Não quero terminar, sem citar o fim dum poema de José Tolentino de Mendonça, dedicado a Sofia de Mello Brayner e que remata assim:
                            Escutamos e respiramos o tempo de lugares diversos e nunca é demais
                            somos uma espécie de esquecimento que atinge a eternidade
                            como aqueles que recordam apenas
                            uma história distante
 
 
Caro António: tenho dúvidas se são úteis e se gostas destas palermices, mas, olha, são ditas com realidade. Tenho uma outra, já escrita, e seria a última, vivida no Gavião, com algum espaço de escrita. De Alcains, que me lembre, tenho três episódios que poderei escrever, mas não serão muito extensos. Um grande abraço.
 
José Maria Lopes
 
NOTA: José Maria, a frescura da tua escrita deixa-nos com água na boca, à espera do próximo episódio. Venham eles! Os de Alcains escreve-os para o livro a apresentar em Maio/16.
AH
                   

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