Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Conto de Natal

16.12.20 | asal

João Lopes 10.jpg

Ah!  Que a fome mata! E , quando se é um velho, dobradinho de anos e  bolsa vazia,  mais a cadela da morte, esganada, acirra os dentes.

  Há pessoas que desanimam e se deixam ir na onda baixa da indiferença, na fossa do isolamento …  Tal não foi o caso do velho Garrinchas que poiso tinha em Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira, se a vaga geografia de um conto intemporal não nos engana. Oh, que gente tão sovina! Nem à força de padre-nossos e um rosário de ave-marias pela alma de quem lá tem, lhes arrancava um naco de pão!

  Vai daí, resolveu alargar os horizontes, matar distâncias, e por lá andou, por ceca e meca, azinhagas e aldeias, até às bordas do Marão. Graças a Deus, as gentes mostraram-se generosas. Ali vinha de regresso ao torrão nativo, com o alforge cheio de farinheiras, pão, chouriços, queijo e presunto. O vento gelava, o nevão vinha perto e o nosso herói caminhava a mata-cavalos para chegar a Lourosa na noite santa do Natal. Onde, diga-se a verdade, ninguém o esperava porque também ninguém tinha. Mas o calor do borralho, no forno coletivo, de estevas e giestas, acompanhado de outros mendigos, esse gosto, aquele povo de unhas de fome, ao menos, lhe consentia, já que do pão quente só o cheiro! “ Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário coletivo da fome, podiam.” - comenta o narrador com ironia e alguma revolta.

Nordeste.jpg

  Ansioso, com o coração a refilar, que o peso dos 75 não perdoa, teve de parar. Ensopado pela neve que caía, fofinha, mas desalmada, conseguiu lobrigar, através da cortina do nevoeiro, a Capela da Senhora dos Prazeres, toda vestida de branco. Nem mais. Era ali que ia passar a Santa Noite! Por sorte, a porta estava encostada. Entrou,  com respeito, sorriu à Santa que parece ter gostado, e, baldadas as três tentativas para acender uma fogueira lá fora, dirigiu-se à sacristia, saca de lá o bocado de um jornal, e com a madeira do andor, sequinha, toca a fazer a fogueira no “ coberto”, ou seja, no alpendre  dos peregrinos. “ O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda!” “Enxuto e quente dispôs-se então a cear, não sem antes exclamar: “ Boas Festas, Senhora! É servida?! Corta um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. A Santa pareceu sorrir-lhe e o Menino também.” E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas, entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira que crepitava no alpendre. “Consoamos aqui os três - disse com a pureza e ironia dum patriarca. “-- A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.”

 ( adaptação do conto  NATAL de Miguel Torga, Novos Contos da Montanha, 1944)

João Lopes, com um cesto de filhoses para todos.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.