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Animus Semper

COMBATER A POBREZA

Do discurso de Muhammad Yunus, ao receber o Prémio Nobel da Paz em 2006.

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A POBREZA É UMA AMEAÇA À PAZ

 

Minhas Senhoras e meus Senhores:

Ao conceder-nos este prémio, o Comité Nobel Norueguês dá um importante apoio ao conceito de que a paz está directamente ligada à pobreza. A pobreza é uma ameaça à paz.

 A distribuição de rendimentos no mundo dá-nos uma história bem reveladora. Noventa e quatro por cento do rendimento mundial vai para 40 por cento da população enquanto sessenta por cento dessa população vive apenas com 6 por cento desse rendimento. Metade da população de todo o mundo vive com 2 dólares por dia. Mais de um bilião de pessoas vive com menos de um dólar por dia. Isto não é uma fórmula para a paz.

 O novo milénio começou com um grande sonho global. Líderes de todo o mundo juntaram-se nas Nações Unidas em 2000 e adoptaram, entre outros, o objectivo histórico de reduzir a pobreza em metade até ao ano 2015. Nunca na história do Homem um tão arrojado objectivo tinha alguma vez sido adoptado pelo mundo inteiro, numa só voz, quantificado e com prazo. Mas eis que acontece o 11 de Setembro e a guerra no Iraque e de repente o mundo desvia-se da perseguição deste sonho e os líderes mundiais do combate à pobreza para o combate ao terrorismo. Até agora, só pelos Estados Unidos da América já foram gastos mais de 530 biliões de dólares com a guerra no Iraque.

 Acredito que o terrorismo não pode ser vencido com acções militares. O terrorismo deve ser condenado com o mais duro dos discursos. Devemos erguer-nos firmemente contra ele e encontrar todos os meios para o combater. Devemos debruçar-nos sobre as causas do terrorismo para lhe podermos pôr um fim definitivo. Penso que consagrar recursos a uma melhoria de vida dos pobres é a melhores estratégia, melhor do que a compra de armas. 

 

A POBREZA É A NEGAÇÃO DE TODOS OS DIREITOS HUMANOS

A paz deve ser entendida de uma forma humana, numa perspectiva social, politica e económica, alargada. A paz é ameaçada por uma ordem económica, social e politica injusta, pela ausência de democracia, pela degradação ambiental e pela ausência de direitos humanos.

A pobreza é a ausência de todos os direitos humanos. As frustrações, a hostilidade e a raiva geradas pela pobreza abjecta não podem garantir a paz em nenhuma sociedade. Para construir uma paz sustentada é necessário encontrar formas de criar oportunidades para que as pessoas possam ter uma vida decente.

A criação de oportunidades para a maioria da população – a pobre – está no centro do trabalho a que nos temos dedicado nos últimos 30 anos. ...»

(continua)