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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Combate ao racismo

09.03.20 | asal
Meu caro Henriques
Felizmente, já caíram no meu correio mais uns (embora muito poucos ainda) testemunhos relativos ao seminário de Alcains. O último foi do nosso caro velho Amigo Cristóvão, ainda aluno da inesquecível e saudosa Universidade do Calhau de Marvão. Uma beleza de recordações da sua juventude, como aluno dos nossos seminários. É destas boas e inesquecíveis recordações que necessitamos, para enriquecermos o livro de nós todos, relativo ao seminário de S. José de Alcains, escrito a várias mãos. Uma oportunidade única, para deixarmos uma marca da nossa vida jovem, para a posteridade. Deitem cá para fora as vossas aventuras, para fazermos falar ainda aquelas paredes e aqueles austeros e longos corredores, onde era proibido conversar. Só apenas meditar!!!
Henriques, junto envio um pequeno artigo sobre o malfadado Racismo que graça ainda em doses elevadas e maléficas no nosso país, dito de brandos costumes.
Um forte abraço para ti e desde já agradecemos os testemunhos dos nossos velhos e bons Amigos que comeram abundantes e deliciosos feijões pequenos no seminário de Alcains, com 90 anos às costas.
Florentino Beirão

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O valor da dignidade humana

 

As agressões bárbaras cometidas contra alguns dirigentes do clube do Sporting e o caso terrorista de Alcochete, agora em julgamento, têm colocado o tema da violência no desporto no palco mediático do país. Ultimamente, a estes casos de violência, vieram-se juntar-se atitudes racistas, ao longo de uma partida de futebol, dirigidas contra Marega, um jogador de cor negra, do clube do Porto. De tal modo este atleta africano se sentiu ofendido, por uma parte da assistência, na sua dignidade humana, que optou, com o aplauso geral da opinião pública e das autoridades políticas, por sair do relvado durante o jogo.

O conjunto de todos estes condenáveis comportamentos descabelados, felizmente, têm tido o mérito de despertar o nosso país, para a existência, entre nós, de fenómenos de violência e de racismo.

Quanto a problemas da violência, soubemos, por um recente inquérito aos adolescentes das nossas escolas secundárias, que dois terços dos jovens estudantes achavam normal haver violência no namoro, seja sob a forma de insultos, seja de proibições ou de assédio sexual.

Por isso, não nos podemos admirar que esteja a aumentar o número dos assassínios por violência doméstica, em ambiente familiar. A algumas crianças, em vez de carinho e afeto, é - lhes oferecido um clima agressivo que, certamente, os afetará no resto das suas vidas.

 Mas o clima de violência, como é notícia, também sobra para as nossas escolas. Só que agora, já não são os professores, como no Estado Novo, a exercer violência nos alunos, mas os agressores poderão ser hoje os próprios colegas, com o generalizado “bulling”.

Como sabemos, as imagens agressivas da internet, dos telemóveis e de outros meios de comunicação, como a televisão, certamente deixam as suas negativas marcas nos jovens.

Quanto às agressões, físicas ou verbais, que existem em ambientes desportivos, como o caso Marega, de contornos racistas, não se podem repetir. Na realidade, casos como este, revelam que muitos de nós, poderemos vir a ter comportamentos racistas e violentos. Basta que a ocasião se proporcione, para que estes baixos sentimentos morais venham cá para fora. Neste caso, relacionado com a cor da pele do futebolista que decidiu abandonar o relvado, dando assim uma enorme lição de civismo a todos, sobretudo aos que o insultaram.

A cultura de algumas claques de futebol, com as redes sociais a salivarem agressividade e as intermináveis e enfadonhas discussões entre os comentadores das televisões e das rádios e alguns presidentes de clubes, têm sido os grandes responsáveis por se criar no desporto, este latente caldo de agressividade.

Nos nossos dias, o fenómeno do futebol tornou-se tão poderoso que se pode dizer, como no tempo da inquisição, que é um Estado dentro do Estado. Uma máfia poderosa, com verbas tão astronómicas, que se torna hoje quase impossível de exercer algum controlo sobre ela. Por este motivo, ninguém tem a coragem de se meter com esta poderosa máquina de fazer dinheiro, onde alguns políticos, por vezes, também são tentados a procurar prestígio e influência. O código de conduta do desporto, na realidade, parece encontrar-se fora de controlo, navegando a seu belo prazer. Como é notório, para os políticos, os clubes de futebol são como não existentes, a nível de prestação de contas. A todas as tropelias cometidas no âmbito do desporto, mas sobretudo no futebol, se vai fechando os olhos e tapando os ouvidos. Deste modo, se vai permitindo viver-se à margem de qualquer código penal.

Como se sabe, quando surge algum problema disciplinar, nomeia-se uma comissão técnica que, geralmente, não apresenta resultados rápidos e transparentes, fazendo justiça em tempo útil. Muitas vezes, existindo elas só para ”inglês ver”. E quando há alguma pena, poucos euros tapam o castigo.

Face a este complexo fenómeno, o Estado terá que implementar políticas conducentes a evitar que, tanto a violência como o racismo, sejam banidos do desporto que foi criado para unir as raças e os povos e, não para agredir os atletas que são de cor diferente. Sabemos bem que o racismo acompanha o povo português, fruto do colonialismo esclavagista de segregação e exploração dos negros. Mas temos que lutar contra ele, com medidas eficazes, de inclusão social e tolerância, para que a violência e o racismo vão desaparecendo da nossa sociedade que deve ser tolerante e defensora dos valores do humanismo.

florentinobeirao@hotmail.com