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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Celebrar Amália Rodrigues (4)

05.09.20 | asal
Meu esforçado Henriques
Aí te envio mais uma simples colaboração para o nosso acarinhado ANIMUS. Espero que não me classifiquem como maníaco deste tema. Quando fui descobrindo que o Fado é uma canção de grande riqueza popular, pois nos revela também o que somos como povo, tentei ir um pouco mais além.  Respeito quem não goste. Eu também já gostei menos...Mas, o que vos confidencio é que ele nos dá pano para mangas, em relação ao seu aprofundamento. Nomeadamente, a religiosidade popular revelada em muitas das suas canções... Dará pano para mangas...
Abraços fraternos para todos os que fazem parte dos nossos ideais fraternos e solidários.
Florentino Beirão

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A eterna e universal diva do fado

 

Após a escola primária, com apenas 12 anos, Amália começou a dar nas vistas no seu bairro de Alcântara, quando se preparavam as Marchas Populares de Lisboa. Daqui para a frente, foi vê-la implantar-se nos meios fadistas, logo a partir de 1935, atuando em casas típicas do fado, como no “Retiro da Severa. Nesta altura, a ideia de vir a ser profissional do fado, confessou a fadista “ encontrava-se ainda muito longe dos meus projetos de vida”.

Politicamente, o país vivia a ressaca do 28.05.1926, resultado do golpe militar de Braga, perdendo os republicanos o poder para uma ditadura militar. A partir do início da década de 30, o mesmo poder acabou por cair nas mãos de Salazar que fundou em Portugal o longo consulado do Estado Novo, de cariz fascista, mantido até à Revolução de Abril de 1974.

Porém, na maioria das famílias portuguesas, como na de Amália, a política era o trabalho e seguir os seculares valores cristãos, bebidos na família. Por isso, os seus pais e avós, vizinhos em Lisboa, aderiram ao regime.

Nesta fase da vida de Amália, como distração, havia apenas umas idas ao cinema de cariz nacionalista e as cantigas do folclore da Beira Baixa, cantadas nas festas familiares.

Como não era fácil viver-se em Lisboa, Amália ao dar já nas vistas, ia sendo convidada para cantar nas casas do fado, para ajudar a família. Um ano depois, em 1936, Amália, de corpo feito, ainda teve de trabalhar na descarga de carvão no cais de Alcântara e num quiosque de Lisboa. Com tantas lides, ainda lhe sobrava tempo a ela e à irmã Celeste, para venderem fruta e lembranças aos turistas. Dois anos depois, a mãe de Amália, criticada pela vizinhança, acabou por retirar as filhas destas tarefas.

Já com 18 anos, num dos concursos em que Amália participou com o seu irmão Filipe, apaixonou-se pelo guitarrista Francisco Cruz que a acompanhava. Este jovem, mecânico de profissão, atraiu de tal modo Amália que, logo à primeira vista, se enamoraram, embora às escondidas.

 Porém, deu-se a coincidência de nestas festas de bairro se encontrar alguém que, surpreendido com a genial voz de Amália, decidiu convidá-la para cantar nas Casas de Fado de Lisboa, onde já havia belas vozes, como Alfredo Marceneiro, Adelina Ramos, Arminda Vidal e outros.

Só que, no Estado Novo, as casas típicas do fado eram associadas às populares tabernas, casas de vícios e de costumes pouco recomendáveis. Ambientes detestados por Salazar e por lisboetas que não encaravam com bons olhos esses espaços.

Acontece porém que o braço direito de Salazar, o ideólogo António Ferro, com a sua visão política e como homem culto, intuiu que o fado, já era tão querido do povo dos turistas que poderia tornar-se um grande trunfo, para a propaganda do Estado Novo. Deste modo, graças a Ferro, começou a ser tolerado, desde que os fadistas submetessem as suas letras à censura da PIDE, a qual decidia, arbitrariamente, da sua sorte.

Nesta altura, década de trinta, já Amália cantava na muito afamada casa de fados o “ Retiro da Severa”, quando o fadista Armandinho ficou de tal modo seduzido pela voz de Amália que tudo fez para que lhe assinassem um contrato profissional e duradouro.

Concordando o namorado e os pais de Amália com a proposta de um ordenado de 500$00 por mês, imediatamente o contrato foi encerrado. O argumento dinheiro, para quem vivia pobre, seria decisivo. Assim, em janeiro de 1939, Amália estreou-se nesta casa que lhe continuou a dar enorme projeção, bem como nos filmes em que foi participando. Mas seria fora de Portugal que Amália, inesperadamente, construiria o seu maior sucesso.

Se o regime, com A. Ferro, se aproveitou de Amália, foi no estrangeiro que ela mais se foi impondo. Assim, em 1941 levou o fado a Madrid e, em 1944 ao Brasil, onde fez gravações e se casou, pela segunda vez com César Seabra em 1961. Antes, em 1952, durante 14 semanas, já tinha conquistado Nova Iorque. Em 1956, com apoio de Ferro, estreou-se no Olímpia de Paris, onde regressou em 1958, convivendo com o ceramista Manuel Gargaleiro, também um afamado ceramista beirão. Do Brasil, Amália saltou para a América Latina, Itália, Inglaterra, Canadá e Japão. Assim se foi afirmando como uma diva universal do fado e emblema de Portugal.

florentinobeirao@hotmail.com

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