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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Celebrar Amália Rodrigues (2)

06.08.20 | asal
Meu Caro Henriques
Aí te envio mais uma singela colaboração para o nosso estimado e indispensável Animus que se encontra sempre em cima dos acontecimentos que interessam à nossa associação. É sempre bom sermos diariamente surpreendidos com as novas dos nossos companheiros. Notícias felizes, outras nem tanto...É a Vida. Neste tempo de veraneio confinado, a diva do fado da nossa Beira Baixa vai-me acompanhando nas minhas leituras, as quais partilho convosco. Boas férias e abraços a todos os nossos companheiros de jornada. Embora limitados...
Florentino Beirão

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O triunfo do fado

A história do fado nunca mais parou. Chegados aos inícios do séc. XX, no meio fadista, deu-se uma maior exigência na elaboração dos versos e na inovação de novas formas rítmicas, cada vez mais complexas. Deste modo, o fado foi-se tornando uma verdadeira arte, interpretado por grandes fadistas, servidos por elaborados versos.

Nesta altura, logo após a 1.ª Guerra- Mundial (1914-1918), com a fome e o sofrimento a martirizar o país, resultante da morte de milhares de soldados e da pneumónica, o quotidiano da população tornou-se tristonho e amargurado. Neste contexto, não admira que as letras dos fados fossem influenciadas por esta conjuntura depressiva.

 Porém, o grande salto do fado viria a dar-se numa altura em que foi capaz de sair da obscuridade das Casas de Fado, dos meios aristocráticos e das estreitas ruelas de Lisboa, ao longo das décadas de 30 e 40. Nestes anos, começou a ser mais difundido pela rádio (1935) mais visto nos cinemas e mais aplaudido no Teatro de Revista. A partir desta altura, a Amália foi também aproveitada por António Ferro, como propaganda do Estado Novo. Deste modo, o fado entrou de tal modo na alma do povo, que deu origem ao ditado: “ Portugal é o país dos três Fs – Fado, Fátima e Futebol”. Seria também nestas décadas, quando o fado se foi divulgando nas terras mais recônditas do país, que Amália Rodrigues e outros fadistas conseguiram levar o fado ao seu apogeu. Deste modo, em plena euforia fadista, foram iniciadas as primeiras gravações de discos, levando a voz dos fadistas aos seus fãs. A sua venda tornou-se para as editoras uma grande fonte comercial, geradora de bons lucros. Há quem classifique este período “a época de ouro do fado, onde os fadistas e os guitarristas saíram das vielas e recantos escondidos, para brilharem nos palcos do teatro, nas luzes do cinema, para serem ouvidos na rádio ou em discos”.

Simultaneamente, em alguns antigos bairros de Lisboa começaram a multiplicar-se as típicas Casas do Fado, agora mais modernas, nomeadamente, para os turistas que visitavam Lisboa e para quem visitava a capital. Nesta altura, os fadistas já eram dotados de uma carteira profissional, mas apenas cantavam o seu reportório, após os seus fados terem sido censurados pela mão da malfadada PIDE. Deste modo, o fado foi perdendo o seu antigo pendor de crítica social, como noutros tempos. Com as novas exigências pidescas, os fadistas recorreram a letristas e compositores habilidosos, de melhor qualidade literária, para fugirem aos cortes da censura, embora as temáticas continuassem a ser inspiradas basicamente nos mesmos temas: a saudade, a paixão, o destino, o sofrimento, o amor e o ciúme.

Este espírito fadista, ao longo do séc. XX, foi cantado nomeadamente por Ercília Costa (1902-1985) “a sereia peregrina do fado”, embora esquecida; foi ela que conseguiu levar, pela primeira vez, a canção do fado ao mundo, rasgando fronteiras. Mais tarde, como veremos, seria Amália Rodrigues a trilhar os mesmos caminhos, levando-o ao mundo.

Ainda em meados do séc. XX, fizeram parte do conjunto de fadistas “clássicos”, Carlos Ramos, Alfredo Marceneiro (1891-1982), Maria Teresa de Noronha, Hermínia Silva, Fernando Farinha, Lucília do Carmo e outros. Uma geração de luxo que colocou o país a gostar e a cantar o fado, de norte a sul, incluindo as colónias.

Este conjunto de grandes fadistas foram seguidos nas décadas seguintes, com o chamado “Fado Moderno”. Entre eles, sobressaiu a genial e inconfundível Amália Rodrigues, a mãe dos futuros fadistas. Sobretudo, a nível da qualidade das letras, com ela, deu-se um salto enorme. Amália, apesar de muito criticada de início, começou a cantar poemas dos grandes poetas, como Régio, Pessoa, Camões, David Mourão Ferreira, Sophia, Ary dos Santos, José Régio, entre outros. A nível musical o fado foi ainda servido por grandes compositores, como Alain Oulman e outros que o enriqueceram com novas formas de acompanhamento.

Dentro da mesma linha, foram surgindo outros grandes fadistas como Dulce Pontes, Carlos do Carmo, Teresa Tarouca e João Braga.

Hoje em dia, uma nova geração de fadistas continua a introduzir novos suportes musicais, mais ricos e variado, com novos instrumentos e arranjos musicais, como Mariza, Camané, Ana Moura, Carminho, Cuca Roseta, Zambujo e outros. Só é pena que a pandemia os tenha limitado, mas certamente melhores dias virão vir. Boas férias.

florentinobeirao@hotmail.com