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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Celebrar Amália Rodrigues - 100 anos (1)

27.07.20 | asal
Meu caro Henriques
Debaixo de uma tempestade de nuvens negras, trazidas pelos ventos quentes que sopram dos martirizados concelhos de Oleiros, Sertã e Proença, aí te envio mais uma singela colaboração.
Sendo Amália das nossas terras beirãs, não podia passar sem uma singela homenagem a esta diva do Fado, nossa embaixadora mundial.
Nas semanas seguintes, continuarei este tema que tem muito para nos desvendar.
Boas férias para a tua família e para os nossos companheiros de jornada. Até sempre
abraços para todos.
Florentino Beirão

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As complexas raízes do Fado

Como tem sido apregoado pelos órgãos de comunicação social, a genial e inesquecível fadista Amália Rodrigues (1920-1999) terá, ao longo deste ano, múltiplas ações comemorativas nacionais, para assinalar o seu nascimento, ocorrido em 1920.

Dentro deste ambiente festivo, penso que será oportuno revisitar a História do Fado, tentando inserir neste movimento cultural esta fadista. Com o seu enorme talento, deixou sementes fecundas para que, após a sua morte, os que se sentiam vocacionados para seguir as suas pisadas, a ela recorressem, como fonte inesgotável de inspiração. Deixemos por hoje a história desta diva – ficará para depois - e quedemo-nos tão só, na longa e complexa História do Fado, tentando descobrir as suas complexas raízes.

Os vários investigadores deste género musical têm dúvidas, acerca das origens desta canção popular, identitária do nosso país, sobretudo de Lisboa, que mereceu ser declarada pela UNESCO em 2011, Património Imaterial da Humanidade, um caso singular mundial.

 Para alguns historiadores, a canção fadista poderá ter eventuais influências árabes, sido iniciada nas proas dos navios, cantada pelos marinheiros. Por isso, o fado, considerado o mais antigo, é o Fado do Marinheiro. Com o passar dos anos, este género foi tornando-se o modelo inspirativo de outros tipos de fados, como o Fado Corrido que surgiu, logo a seguir. Posteriormente apareceu o Fado da Cotovia, cantado pelos fadistas que desta arte já faziam o seu modo de vida. Estes cantores, lentamente, foram-se instalando nas diversas Casas de Fado lisboetas, situadas nos bairros típicos, como Alfama, Madragoa, Bica, Mouraria e, sobretudo, no popular e típico Bairro Alto, residência de varinas, pescadores e marinheiros. Deste modo, o berço do fado, pelo que nos desvendam alguns estudiosos, nos seus primeiros tempos da sua vida, teria sido cantado nos bairros mais pobres, em tabernas e bordéis da capital do país. Razão pela qual, a Igreja não o via com muito bons olhos. O fado, cantado nestes ambientes chamava-se, por esta razão, Fado Vadio.

Noutra fase da sua evolução, em 1840, os fadistas, já profissionais, começaram a distinguir-se pela forma do seu traje e penteado, com o seu boné na cabeça, quando cantavam em público. Da parte das mulheres fadistas, quem não recorda ainda o típico xaile preto em que elas se envolviam, quando cantavam, em ambiente de silêncio e de uma certa escuridão, à luz das velas, com proibição de se baterem palmas aclamatórias, por parte do público? Nessas tertúlias fadistas não faltava ainda o caldo verde e o chouriço assado e “o senhor vinho”.

Note-se que foi nesta altura que a célebre e mítica fadista Maria Severa Onofriana (1820-1846), uma filha de cigano, viveu em alguns bairros lisboetas, tocando guitarra e cantando, nomeadamente, na típica Rua do Capelão. Na sua breve vida de aventuras e boémia, chegou mesmo a ser uma amante do Conde do Vimieiro. Este romance entre ambos acabou por ser tema de fados, nomeadamente de Fernanda Maria que, nos seus versos cantava: “fadistas chorai que ela (a Severa) morreu”. Por sua vez, Leitão de Barros, realizador de cinema, também a recordou num filme de 1931, sendo este o primeiro filme sonoro português.

Esta fadista singular, devido à vida que escolheu, acabou por morrer de tuberculose, com apenas 26 anos de idade. Durante a sua curta vida, viveu em vários bairros lisboetas, como prostituta e cantora do fado, ficando na memória do povo, como uma grande intérprete.

Há ainda quem opine “que o fado será o resultado de uma fusão histórica e cultural que ocorreu em Lisboa, na segunda metade do séc. XIX, embalado nas correntes do Romantismo, com apelos à desgraça, ao destino, à saudade, à angústia e ao desgosto.

Por sua vez, outros historiadores desta canção, revelam-nos que no séc. XIX, em 1880, o fado entrou também em ambientes aristocráticos, cantado em salões, com ritmos mais elaborados e com letras mais eruditas, destinado a ser consumido por um público mais exigente.

Note-se que, na fase mais antiga da história do Fado, os seus versos, cantados nos meios mais pobres de Lisboa, eram facilmente memorizados, permitindo a sua rápida assimilação e difusão pelo povo. Foi no meio desta complexidade histórica que o fado se foi impondo e medrando até ao séc. XX, revelando a sua riqueza melódica, apoiada pelo trinar plangente da sempre presente guitarra portuguesa.

florentinobeirao@hotmail.com

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