Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Casa de bravos - 1

22.09.21 | asal

Meu Bom António

Já passaram por nós muitos nevões. Já ouvimos o cantar do cuco muitas. muitas manhãs! E quantos salmos já rezámos!  Estamos velhos, mas não temos ainda a mente  com ferrugem... O mundo, o vasto mundo, ocupa-nos o coração. Enquanto assim for, estamos vivos. Fora com a modorra sonolenta e indiferente! Quando olho para o Papa Francisco, quase da nossa idade, fico mais animado. 
Peço desculpa pelo meu atrevimento, mas julgo podermos beneficiar de uma informação mais vasta sobre o Afeganistão, esta terra - mártir, um dos países mais pobres do  mundo, mas, justamente, cognominado " cemitério de impérios" pela braveza das suas gentes. Ali se joga atualmente a sorte da humanidade. Se vencer o diálogo intercultural, o futuro será mais risonho; se triunfar o ódio e o poder das trevas...   Tenho estudado a história  deste POVO.  Disponho de alguma matéria para mais três ou quatro textos. Mas, quando disserem stop, é mesmo stop! Um abraço agradecido do João Lopes
 
AFEGANISTÃO -“Casa de Bravos”

afghanistan-3.jpg        “ As sociedades atuais são palco de muitas injustiças, em que os seres humanos são maltratados, explorados, ignorados, mortos ou deixados a definhar em campos de emergência humanitária.” Cardeal Parolini, na 76ª Sessão da Assembleia Geral da ONU (Setembro, 2021)

           “ A conversa passou inevitavelmente para os talibãs.- É tão mau como dizem? – Nay, é pior. Não nos deixam ser humanos.” Khaled Hosseini,  O Menino de Cabul, Ed.Presença 2007,p.186.

     O Afeganistão será ainda por muito tempo o tema do dia. Muitos perguntas aguardam uma resposta convincente: Em Outubro de 2001, os EUA decidiram invadir aquele país com o propósito de capturarem Bin Laden, chefe da Al Qaeda, responsável pelo ataque aéreo aos centros nevrálgicos dos norte-americanos. Tinham a certeza de que os talibãs lhe haviam dado guarida. E, vai daí, bombardearam a terra dos afegãos, como se fossem eles os autores de um crime que assombrou o mundo. Não localizando o alvo, com precisão, por que continuaram a tarefa da destruição? “Ah, mas ele, o malvado, anda por aqui.” Passados 10 anos, 10 anos! matam-no num recanto do vizinho Paquistão. Estratega finíssimo, Bin Laden pretendia que a superpotência americana se arrastasse na sua perseguição, permanecendo na região e obrigando-a a justificar perante o mundo a sua intervenção destruidora, percecionada como uma retaliação pelos atentados de 11 de 9/ 2001. Para, de algum modo, contrariar essa ideia, vem a seguir a fase da reconstrução de um Estado à maneira ocidental ( a New State building). Ergueram-se instituições políticas, governo e presidente de uma república laica; reformaram o sistema de saúde com novos hospitais; fundaram-se escolas e universidades, e, sobretudo, reconheceram-se os direitos humanos devidos às mulheres, que assumiram lugares importantes no Parlamento e no funcionalismo público. Algumas foram até eleitas presidentes da Câmara das cidades do interior. ( Ver no Público de ontem o texto de Sofia Lorena sobre a ativista Zarifa Ghafari) Criaram-se novos ministérios e organizaram um grande exército com mais de 300 mil efetivos. Cabul, a capital, reconfigurou-se totalmente com novos bairros de edifícios, praças e estradas.

  Tudo parecia caminhar sobre rodas de acordo com o modelo ocidental das democracias. O dinheiro do ocidente drenava para Cabul, com facilidade e em abundância.

   Entretanto, algumas coisas não batiam certo com a pureza dos ideais e propósitos. Para já, os famigerados talibãs, perseguidos, encenaram uma fuga para o Paquistão, tendo ficado a maioria no seu país, escondidos e confundidos com a população do interior rural, insatisfeita por não beneficiar das vantagens que os cidadãos das grandes cidades, e, sobretudo, Cabul, desfrutavam. Depois, o descontentamento começou a lavrar nas forças armadas afegãs, por se sentirem discriminadas em relação aos seus colegas estrangeiros, mercenários inclusive. Oficiais havia que nem o soldo recebiam. Notícias de grande corrupção causaram o alarme. Quem estava a ganhar com a nova situação eram as grandes cadeias de empresários americanos, fabricantes de material bélico e das construções desenhadas para renovar o país.  Até os bolsos dos governantes e presidentes se enchiam do dinheiro, desviado do seu real objetivo humanitário. Um fartar vilanagem, encoberto com os ideais e virtudes da democracia.

         A situação tinha o seu quê de estranho e inédito.  Especialistas em Estudos Culturais começaram a interrogar-se sobre a viabilidade de uma democracia ocidental num país historicamente esfacelado pelas divisões e rivalidades tribais, com chefias que competiam entre si pelo domínio absoluto de regiões, acantonadas num vasto território, de relevo altamente acidentado, de 652 mil Km quadrados. Tudo agravado pela diferenças religiosas entre sunitas e xiitas, causa de não pequenos confrontos e vinganças com ameaças de extermínio, como se pode ler na obra do escritor afegão K. Hosseini. O projeto dos EUA e dos seus aliados não teria sido por demais precipitado, sem uma leitura prévia da complexa realidade cultural?

   A pouco e pouco, o regime, tutelado pelos EUA e seus aliados da NATO, corroído pela frustração, falta de diálogo com as culturas tribais dominantes, apesar do último presidente eleito, ser um antropólogo, mas, sobretudo, pela gangrena da corrupção sem freio, começa a dar sinais de fraqueza. A situação agudiza-se com a conjugação de dois factores: a mudança na política americana com Trump e Biden a renunciarem à missão de messias da mensagem democrática em povos tradicionalmente alheios a esse modelo ocidental e o avanço mais do que previsível dos talibãs sobre Cabul em 15 de agosto (mais do que previsível apesar de Biden ter alegado o efeito-surpresa, para salvar a pele da humilhação sofrida). Há muito que os combatentes talibãs (55 mil), financiados  pela Arábia Saudita, irmanados pelo mesmo islamismo sunita, rígido e radical, preparavam o cerco e o assalto ao governo de Cabul, cujas fragilidades conheciam. Os americanos, porém, pareciam ignorar o perigo. E, sem consultar os seus parceiros da NATO, não se deram ao trabalho de concertarem uma estratégia decente de transmissão do poder.  Resultado: uma retirada vergonhosa, uma fuga aérea caótica, a capitulação de um exército de mais de 300 mil militares, desmotivados e maltratados, e o abandono à sua sorte de milhares de colaboradores! Uma página negra na história americana, caricaturada pelos talibãs vencedores, de muitas maneiras, desde a chacota à exibição do equipamento militar made in USA, em paradas pelas ruas de Kandahar. E uma fratura no poder americano com acusações mútuas entre a Casa Branca e o Pentágono!

João Ol. Lopes.jpg

 Apesar do desastre americano, com consequências sinistras para o povo afegão, como hoje estamos a ver, (Editorial do Público de ontem), há que reconhecer as sementes da liberdade lançadas no chão daqueles povos, durante os 20 anos de permanência do Ocidente. Com efeito, a nova consciência política, adquirida pelas mulheres e outros cidadãos, não é um valor menor. Este tempo de liberdade e de um certo respeito pelos direitos humanos, bem ou mal geridos, ficará para sempre como um legado cultural irrevogável. E sobreviverá às guerras entre os talibãs e o seu rival ISIS-K, filial afegã do Daesh, que já começaram, segundo informações da Imprensa de hoje.  ( Continua)

 João Lopes, no dia da Festa de S. Francisco de Assis, o santo do diálogo entre povos e culturas.

2 comentários

Comentar post