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Animus Semper

Carta aberta ao Seminário de Portalegre

 Pires da Costa, mais uma vez publicamos o teu texto com todo o gosto. AH 

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Bom amigo

 

       É natural que fiques surpreendido como recebimento desta carta. Mas compreenderás, por  certo, a razão desta minha atitude, quando terminares a sua leitura. E, para que avances com menos ansiedade, informo-te, desde já, que não há razões para alarme, antes pelo contrário, tenho a convicção de que, após a leitura, continuaremos mais amigos do que passámos a ser há cerca de um mês.

       Era minha primeira intenção deslocar-me de novo a Portalegre para falar contigo directamente, se quiseres até posso dizer pessoalmente, mas a distância a que nos encontramos e  compromissos de vária ordem a que não podemos furtar-nos, têm-me impedido de realizar o meu projecto. Daí que tenha optado por escrever-te, não só para descansar a minha consciência, mas também para que entre em contacto contigo, como hoje se diz muito, em tempo útil e apropriado, de acordo com o meu desejo.

         Antes de mais, cumpre-me informar-te que nunca frequentei as tuas instalações enquanto fui seminarista, pois passei a minha vida, enquanto tal, nos teus irmãos diocesanos do Gavião e Alcains. Aliás, quando tu nasceste, já eu não me encontrava na vida de seminarista. Se fiz bem ou mal por passar a essa condição, tomo tal facto à conta dos desígnios de Deus que, como sabes, são insondáveis pela capacidade humana. O que posso revelar-te é que jamais me arrependi de ter sido aluno seminarista e, antes pelo contrário, ao longo de toda a minha vida me senti reconfortado com todos os ensinamentos que lá recebi e que bastante úteis foram para a minha formação humanística que, sempre o senti e continuo a sentir, foi muito enriquecida com tudo o que lá aprendi. Acrescento ainda que, para além do que citei, quero  salientar as muitas amizades que criei nesse período da minha vida e que permaneceram indelevelmente na minha memória, o que é deveras consolador..

         Caro Seminário, terminemos o exórdio, que já vai longo, e passemos às razões fundamentais que me levaram a endereçar-te esta missiva.

          Inteligente, culto e perspicaz como és, já calculas o motivo fundamental que determinou esta minha atitude. Isso mesmo, o encontro dos ex-seminaristas da nossa Diocese  no inesquecível dia 19 de Maio.

          Quando, nesse dia, transpus o portão que dá acesso aos teus domínios territoriais e olhei de frente para a tua fachada, uma emoção estranha me penetrou o espírito, dir-se-ia que produto da recordação do primeiro dia em entrei no teu irmão do Gavião, acompanhado pelo meu saudoso pai e envolvido pela ansiedade dos meus onze anos vividos na minha distante aldeia situada lá para as bandas albicastrenses. Só que desta vez, o meu à vontade foi outro, talvez devido ao espaço largo e abrangente que, ao receber-nos, nos faz sentir como que envolvidos num abraço fraterno, amigo e acolhedor. Depois, ao olhar a tua imponente frontaria pareceu-me ver nela um certo sorriso que me convidava a entrar com confiança, como que a dizer-me que sim, que era ali a entrada onde pretendias oferecer inolvidáveis momentos dum prazer extensivo a mais duma centena de companheiros, desejosos, como eu, de também te proporcionar um dia diferente, diria mesmo festivo, fora do teu habitual diário, aliás comum à vida de todos nós. Depois, de tudo o que aconteceu ao longo do dia em que foste nosso generoso anfitrião, sabes tão bem ou até melhor do que eu, como tudo aconteceu.

  Assim, não sendo possível, como atrás referi, ter a desejada conversa contigo, limitar-me-ei a convidar-te para um breve retrospectiva do que de melhor aconteceu naquele inesquecível dia de Maio.

          Comecemos pelas emoções sentidas logo  no teu átrio, com encontros e reencontros com velhos e novos amigos Ele foram abraços, ele foram sorrisos, ele foram palavras emocionadas! Foi tudo o que costuma acontecer em situações idênticas onde prevalece, acima de tudo, a amizade pura e bela, baseada no princípio de que tudo ali era natural e espontâneo, tudo como que emanado de um estado de alma enraizado em nós quando ainda éramos crianças, mesmo sem estarmos sujeitos à contemporaneidade da frequência. Ali todos éramos simplesmente ex-seminaristas. Esta a nossa força mística, tão bem descrita pelo nosso companheiro João Lopes, na brilhante evocação feita poucos dias após o encontro e publicada no blog da nossa Associação, Animus Semper, que sei que lês quase diariamente e com grande interesse, não pode resultar da mera coincidência de um grupo de pessoas que foram condiscípulos em determinada fase da sua vida escolar, com o devido respeito que todas elas nos merecem. Tal mística resulta dum não sei quê, fácil de sentir mas difícil de explicar, mas que sabemos que existe, afinal o que nos interessa. Convicto de que concordarás comigo – podia lá ser doutra maneira! – avancemos.

    Como sabes, seguiu-se a celebração da Eucaristia, na tua acolhedora Capela. Cerimónia simples e dentro dos cânones  litúrgicos tradicionais. Mas abrilhantada, de forma superior e encantadora, pelo consagrado coral Stella Vitae, em tão boa hora convidada pela Direcção para colaborar na nossa festividade. E a seguir, com toda a mestria  a que já nos habituou,  ofereceu-nos ainda, no mesmo local uma pequena audição que constituiu um dos momentos altos do nosso encontro. Faço votos para que esta actuação te tenha reconfortado, não digo do desgosto, mas das saudades que deves ter dos cânticos litúrgicos que durante muitos anos e quase diariamente ecoaram no teu interior. Se assim foi, podes crer que fico contente.

       E, já agora, não resisto a citar aqui   a crónica do companheiro Florentino Beirão, também publicada no blog do Animus, portanto do teu conhecimento, acerca dalgumas mazelas que o tempo provocou na zona do teu altar, sugerindo uma onda de solidariedade para se fazerem as recuperações necessárias conducentes a melhorar as pinturas desgastadas, restituindo-te assim toda a dignidade que mereces. Oportuna e óptima ideia que, estou certo, produzirá eco favorável em todos nós e que, unidos, poderemos concretizar a sugestão do nosso companheiro. Força Florentino!

        Passemos agora para o teu amplo e maravilhoso refeitório, onde imagino  o ambiente que diariamente ali viveste com a animação de muitas e muitas refeições lá servidas.  Estou certo de que no dia do nosso encontro terás rejubilado com todo aquele ambiente. Se me perguntares pela comida que nos foi servida, dir-te-ei que tenho a ideia de que estava boa. Mas, não posso deixar de te informar que, apesar disso, acima da qualidade da comida tenho que salientar o sabor maravilhoso do ambiente que todos ali vivemos, numa comunhão de sentimentos que se evidenciaram de forma clara pelas conversas que transversalmente atravessaram todo o espaço cheio de comensais que se alimentavam, acima de tudo, estabelecendo contactos indiferenciados, na evocação dos tempos passados em comum ou relatando episódios marcantes que jamais se apagaram das suas mentes. Uns com mais e outros menos idade, todos pareciam transfigurados em crianças  que transbordavam emoções de todos os matizes e onde apenas a alegria pura, sincera, esfuziante, dir-se-ia até inocente, pela naturalidade com que as palavras e os gestos surgiam naquele inolvidável ambiente.

        Evoquemos agora caro Amigo, a Assembleia Geral, efectuada na ampla sala que nos proporcionaste.

        Mais do que uma assembleia, aquilo mais parecia uma reunião de família, onde os assuntos constantes da ordem de trabalhos foram tratados com boa disposição, responsabilidade, liberdade e elevação. Com o Joaquim Mendeiros a «comandar as operações» não poderia ser doutra maneira. A sua espontaneidade, a sua capacidade de comunicação, a sua permanente boa disposição e o seu talento, conseguiram, naturalmente, contagiar todos os participantes, de tal modo que, livre e responsavelmente, todos marcámos presença  numa assembleia quase festiva e de proveito evidente. Com a justiça devida, cumpre registar também a postura responsável e a serenidade da presidência da Mesa e a sempre útil e disponível presença do António Henriques, para mostrar a todos que quem percebe da «poda técnica» é ele…   e, enquanto tal, sempre disposto a colaborar.

       Caro  Seminário, sinto que te estás a sentir preocupado, imaginando que a referência à nossa Assembleia Geral está terminada. Podia lá ser! Não, não me esqueci do ponto mais alto que todos ali vivemos. É isso mesmo que estás a pensar: a inesquecível recitação da “ Toada de Portalegre” do teu amigo José Régio, dita com aquela elevação, com aquele sentir poético, direi mesmo, sem exagerar nada, com aquela postura artística do nosso companheiro João Lopes. Por aquele momento  cultural que nos proporcionou, ele merece bem a nossa gratidão, que aqui registo com o maior prazer, pedindo-lhe que aceite um beirão  « BEM-HAJA» sincero e amigo.

        Para culminar este trabalho associativo, não posso deixar de registar a entrega de diplomas aos companheiros que contribuíram para a elaboração do «Professores III », livro onde podemos evocar os    já falecidos professores dos seminários diocesanos e cuja memória representa para todos nós uma saudade que transcende a própria morte numa espécie de ressurreição simbólica e gratificante de todos os beneficiários da sua acção pedagógica, no mais amplo significado da palavra. Nele, muitas e variadas evocações daqueles que, em período tão significativo das nossas vidas, nos ensinaram, educaram, orientaram e nos marcaram para sempre.

         E como sabes, – eu sei que tu viste tudo, mas gosto de me associar a ti nestas recordações – numa atitude simpática e gratificante, mais alguns diplomas foram atribuídos aos antigos alunos com mais de, repara, digo, reparemos bem, oitenta anos. Numa ousada classificação, os diplomas destinaram-se catalogar os jovens mais distintos, não só nas brincadeiras como ainda nos estudos, mais naquelas do que nestes. Resta-me formular votos para que todos os companheiros que ainda não chegaram à « idade adulta» venham a receber o mesmo canudo que ora nos foi atribuído. Então, todos com os oitenta feitos, rejubilarão. E mesmo tu, caro Seminário, jovem sexagenário, terás direito a ser contemplado, pela grande obra que já realizaste em prol da Igreja e da sociedade em geral. E, a propósito, tomo a ousadia de te informar, mas em segredo, que o Senhor Bispo, D. Antonino, acompanhado por outros colaboradores, se encontra muito interessado na recuperação das tuas instalações para que possam ser utilizadas  com maior amplitude ao serviço, não só da Igreja mas também de toda a comunidade. Formulemos votos para que, com a brevidade possível, sejam concretizadas as soluções desejadas.

           Finalmente, aconteceu aquele inesquecível encontro do encerramento, de novo, no teu refeitório. Sobre este, porque a carta vai longa e não quero enfadar-te, vou limitar-me a uma pergunta com resposta óbvia: tu reparaste bem naquela « Gaiatada» cheia de fôlego, barulhenta e animada como se tudo fosse começar de novo naquele lugar e naquela hora?! O que todos mereciam bem eu sei, era um forte chamamento de atenção dum prefeito à boa maneira,  que lhes lembrasse que ali terminava a festa e eram horas de partir. E, com benévola firmeza, lembrar-lhes que para o ano há mais. Todos à Sertã!...

         Num caminhar lento, assim como alguém que não tem pressa, acompanhado da minha esposa, caminhámos para o carro que ficara lá ao fundo, perto do portão. Num último gesto de despedida olhei-te e fiquei contente porque senti que ficavas sereno. E, disfarçadamente, ousei ainda um gesto de despedida com ligeiro levantar dum braço. E, milagre, - que outra coisa poderia ser? - que observo eu  através da janela do lado direito do teu semblante? Por detrás da vidraça, eu vi, vi mesmo e sem qualquer dúvida, que um braço erguido me saudava também. Tomei este episódio como o selo da nossa amizade e jurei a mim mesmo que, se Deus quiser, um dia hei-de voltar para conversar contigo. Até lá, um abraço amigo do teu

 A.Valentim Pires da Costa

 

            PS – Nesta coisa do novo acordo ou desacordo ortográfico, estou quase como aqueles que tanto escrevem com a mão esquerda como com a direita. Ora escrevo com o dito novo, mais brasileiro, ora me vou com o dito antigo, mais português.  Calculo que te agradaria mais o segundo, como acontece comigo.

De acordo, foi o que fiz.