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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Canais em guerra

24.01.19 | asal

Caro Henriques, neste ambiente de guerrilha televisiva, a juntar-se à futebolística, com Marcelo pelo meio, o país é invadido, constantemente por nuvens de emoções, a roçarem a nossas antenas. Por esta razão, venho deixar aqui a minha reacção a este clima atrofiador, onde as emoções nos chegam em ondas altaneiras e constantes. É o país que temos, mas será o que mais nos convém? Que fazer, eis a questão. Florentino

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Caixinhas de emoções

A guerra nas televisões privadas, para captar mais audiências, encontra-se ao rubro. Ano novo, novas batalhas. Como a publicidade para os canais televisivos, se torna, cada vez mais diminuta e rende menos, as receitas foram-se reduzindo. Esta situação financeira levou a que estes canais fossem obrigados a recorrer a pesos mais pesados, para desferirem golpes certeiros, contra o adversário. Para tal, muito tem contribuído o facto dos jovens se encontrarem a virar, cada vez mais, as costas às televisões e optarem sobretudo pela poderosa internet que os acompanha para toda a parte. Como aqui encontram a informação e os aspetos lúdicos, como jogos e canções do seu agrado, a televisão vai deixando de os interessar e prender.

Face a esta constatação, a aposta das televisões privadas, investindo milhões em apresentadoras e apresentadores de programas de divertimento e passatempos, tem vindo a recorrer, não a conteúdos com substância cultural, mas sobretudo a programas apelativos que potenciem as emoções mais básicas do povo, sobretudo das pessoas mais idosas e já reformadas. Deste modo, sobretudo os programas da manhã das televisões, encontram-se agora a funcionar com caras juvenis e boas profissionais, já com provas dadas, a puxarem sempre pela lágrimazinha ao canto do olho. Para tal, vão-se servindo de figuras populares e conhecidas, tanto do mundo da política como do desporto de massas e, sobretudo, do poderoso e omnipresente futebol.

Será dentro deste contexto, a puxar pelo que é mais popular e emotivo, que se discute o aparecimento do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, num programa matinal da SIC, a telefonar à apresentadora Cristina Ferreira, para lhe dar parabéns. Atitude instantânea que tem merecido da opinião pública algum reparo e alguma polémica, a propósito deste controverso gesto. Aliás, esta intervenção presidencial já veio na linha de uma outra sua presença, ocorrida noutro programa da concorrência. Perguntam alguns, foi para isto que foi eleito este irrequieto e omnipresente Presidente? E as outras apresentadoras, não mereceram a mesma atenção? As queixas logo se fizeram ouvir de alguém.

Do mesmo modo, a entrevista ao presidente do clube benfiquista, onde houve choro em abundância, entre os intervenientes no programa, outra finalidade não teve em vista, senão espalhar banalidades e puxar pelas fáceis emoções clubistas, numa lógica de conquista de audiências. Dentro do mesmo objetivo, procurar experiências radicais, se pode enquadrar a ida de Mário Machado, um homem que nunca pediu perdão às suas vítimas e com tiques fascistas, à TVI. Só se poderá entender como uma atitude provocatória à nossa democracia, sempre frágil. Este cidadão, já com um passado tão pesado, com homicídio no seu cadastro e alguns anos de cadeia foi recebido num programa matinal, como pessoa que merece ser ouvida. Como messias de um novo movimento, acompanhado por umas dezenas de extremistas que lhe batem palmas, Mário Machado, embora não ameace, felizmente, as nossas instituições democráticas, tornou o perigo fascista, como sendo uma banalidade política. Todos estes factos, quanto a nós, se encontram ligados pela mesma intenção. Explorar as emoções mais primárias dos telespectadores, em busca da subida de audiências.

Na mesma alinha se encontra o polémico programa em que, ao vivo e em direto, se realizam casamentos civis à primeira vista, com muitas flores, lágrimas e lautas mesas, recheadas de iguarias várias e apetitosas. Trata-se de uma telenovela barata para a SIC, onde o casa e descasa se tornou uma banalidade. Deste modo, se vão afrontando os valores da secular e fundamental instituição familiar, numa altura em que os divórcios já equilibram os casamentos no nosso país. Face a esta promoção desenfreada das emoções populares, todos nos devemos interrogar, até onde se pode ir baixando a qualidade dos programas televisivos, para se fazer guerra e conquistar mais audiências ao adversário. O lucro não deveria ser tudo. Sabemos que a censura ou a proibição de programas não é aceitável em democracia. Mas também estamos convencidos que a sociedade civil tem nas suas mãos uma arma poderosa que é mudar de canal ou desligar o seu aparelho. Pensamos que não podemos alienar as nossas opções racionais e colocar os nossos comportamentos cívicos nas mãos de outros que olham para nós como pessoas que lhes podem aumentar os lucros. Quando as emoções andam à solta, sem alguma reflexão pessoal, ficamos diminuídos nas nossas faculdades de seres humanos livres e responsáveis.

florentinobeirao@hotmail.com