Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Calar é ser cúmplice

23.06.22 | asal
Caro Henriques, espero que ainda possas publicar este texto no Animus. Por me teres aturado tantos dias, o meu muito obrigado.
Até sempre.
F. Beirão
NOTA: Caro Florentino, foi um privilégio ter-te como colaborador habitual durante estes anos. O blogue vai fechar quando se perfizerem os seis anos, mas os textos aqui publicados ficarão à disposição de quem usar o "PESQUISAR" para acessar aos mesmos. Obrigado por me facilitares a tarefa. Abraço do António Henriques
 

Idosos descartáveis

Florentino_beirao.jpg

Ocorreu, no passado dia quinze, o Dia Mundial de consciencialização contra a pessoa idosa com o lema “calar é ser cúmplice”“. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), um em cada seis idosos é vítima de algum tipo de violência. Face a esta brutal realidade, todos nos devemos interrogar a respeito deste fenómeno, muito conhecido no nosso país. Muitas vezes ficarmos calados é consentir e fechar os olhos às vítimas de agressões. Quantas vezes estas ocorrem ao nosso lado sem darmos por isso, muitas vezes por familiares dos mesmos idosos. É altura de nos interrogarmos sobre a questão premente de “Como envelhecem os portugueses (2020)”, título do livro da docente Maria João Guardado Moreira, professora do Politécnico de Castelo Branco que escreveu esta obra para a Fundação Manuel dos Santos, a qual nos vai ajudar a tratar este vasto tema, de tão grande importância. Segundo a ONU, é um assunto a não olvidar, mas deve-se encarar de frente, com medidas atempadas e eficazes que podem ajudar a evitar comportamentos desviantes, face ao cuidar dos idosos.

Segundo a professora, a probabilidade de podermos sofrer algum tipo de discriminação, por causa da idade, é uma realidade. Porque, de um modo geral, felizmente, todos vamos envelhecendo e podemos, em qualquer altura da nossa vida, virmos a sofrer alguma discriminação ou mesmo qualquer tipo de violência, física ou moral. As estatísticas são bem elucidativas. Revelam-nos que 1,2 milhões de pessoas em 2025 vão ter mais de 60 anos. E, em Portugal, segundo as mesmas, mais de 80% dos crimes contra idosos são referentes a violência doméstica. E dizem-nos ainda que a maioria é cometida pelos filhos das próprias vítimas. Podem ser abusos de vários tipos ou simplesmente fruto de negligência. Esta realidade não é uma atitude muito longínqua, mas pode bem encontrar-se à nossa porta sem que dela tenhamos conhecimento. Por vezes, somos cidadãos distraídos com o que se passa à nossa volta. Não é raro lermos nos jornais e ouvirmos nas televisões que nos hospitais acontecem casos em que há pessoas idosas que não podem ou não querem de lá sair, porque lhes falta o conforto de uma família que os receba.

Nos últimos anos, a violência contra os idosos em Portugal, revelam as estatísticas, mais do que duplicou. Estes números podem não nos revelar toda a realidade, mas são já um sintoma de que algo está mal. Mitos dos crimes ficam no segredo dos deuses.

E como percepciona a sociedade portuguesa este problema? Em 2008, 61% da população portuguesa, inquirida num inquérito europeu, referiu que a discriminação pela idade era um problema muito ou bastante sério e só cerca de 5% disseram ser um problema que não existe no nosso país. Portugal era aliás o quarto país onde a percepção da gravidade da discriminação era maior depois da França, Inglaterra e Roménia. Por outro lado, 17% dos portugueses indicavam que já tinham sentido alguma forma de discriminação por causa da idade, maltratados, insultados, vítimas de vários abusos. Mas era entre os mais velhos que mais se fazia sentir a discriminação: quase 21% das pessoas, entre os 65 e 70 anos e perto de 32% dos que tinham mais de 80 anos, já sentiram que tinham sido discriminados por causa da idade. Esta discriminação passava pelos maus tratos, insultos, abuso ou recusa de serem atendidos em determinados serviços. Uma das formas extremas de discriminação é o abuso que pode assumir contornos de violência física, psicológica/emocional, abuso sexual, violência económica, negligência e abandono.

Segundo um recente relatório da APAV, cerca de 28% das pessoas idosas vítimas de crime e de violência, sinalizadas por esta associação, tinham entre 65 e 69 anos, maioritariamente mulheres. Os agressores foram, predominantemente, do sexo masculino.

Segundo o último senso, por cada cem jovens, existem 182 idosos que representam mais de um quarto da população residente no nosso país. Não devemos deixar de ter em conta esta realidade se quisermos implementar medidas urgentes e eficazes para fazer frente a esta realidade que nos deve interrogar. Ignorar os problemas que daqui decorrem nunca poderá ser uma maneira razoável de enfrentarmos esta cruel realidade. Se a violência é sempre inaceitável, seja em qualquer idade que for praticada, nos idosos torna-se mais chocante e injusto para tantos que deram ao país uma vida inteira de trabalho. Não os devemos descartar, mas tratá-los como pessoas.

florentinobeirao@hotmail.com