Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Bicos

04.12.20 | asal

bicos a.jpg

Comecei por aprender a cantar a canção infantil: o meu chapéu tem três bicos, tem três bicos o meu chapéu.

A primeira vez que fui a Lisboa fui ao campo das cebolas. Espantado por as terem arrancado, pois, não vi lá cebola nenhuma. O que lá vi de valioso foi a Casa dos Bicos. Visitei-a como se fosse uma prima da casa das conchas de Salamanca.

bicos-museu.jpg

Tinha aprendido na História. A primeira vez que fui a Lisboa já tinha 19 anos. Cresci a ouvir mandar calar o bico. Dar essa ordem aos mais velhos era má educação e inadmissível. Aos da mesma idade podia ser perigoso, pois, por vezes, era tomado como provocação ou desafio. Convinha sempre «medir» o outro que se mandava calar. As crianças e os homens tinham diversas formas de medir forças. Mandar calar o bico às crianças, esses dez réis de gente ou pirralhos, era uma obrigação. Torcer o pepino desde pequenino era garantia de boa salada no futuro.

Aprendi com o meu pai o que era o bico do arado de ferro. Até sabia que os bicos tinham número consoante o tipo de solo a arar. Criticou-me várias vezes porque ao lavrar deixava bicos e marradas. Sobretudo no virar do arado nos cantos da torna. Para localizar uns terrenos referia muitas vezes o feijoal dos três bicos. Nunca identifiquei o locar para saber se era um triângulo como aprendi na escola.

Bicos1.jpg

Ao que mais assisti foi ver pessoas a porem-se em bicos desafiando a natureza. E mesmo que o solo não fosse muito dotado para a sementeira, os bicos acrescentavam um «danoninho» à natureza. Questionei-me sempre se isto não era uma forma refinada de desmentir o ditado medieval: «quod natura non dat, Salamanca non prestat» (o que a natureza não dá, Salamanca também não). Os letrados destilam a má-língua com requinte. Dão estas voltas todas para chamar burro a uma pessoa. Não é por ser dr. por Salamanca e frequentar a sua universidade que se torna inteligente. Como quem diz, quem nasce burro, morre burro. Não contentes com isso, por vezes, ao dizer a frase ainda batiam com a mão fechada no tampo da mesa. Antes dos requintes da mesa e da comida e bebida ser gourmet já a linguagem o era. Vejam a diferença de tradução da expressão latina: «hoc opus hic, labor est». A tradução literal será: «aqui é que está o trabalho»; os eruditos preferem: «aqui é que está o busílis/o nó-górdio da questão/problema»: o povo entende muito melhor: «aqui é que a porca torce o rabo».

Mas não era destes bicos que queria falar. Na minha infância, todos os dias depois do regresso do trabalho, um vizinho meu passava levando na mão um jornal a embrulhar qualquer coisa. Comecei a ouvir as raparigas um pouco mais velhas com uma certa malícia a comentar: «la vai ele com a encomenda!» A cena repetia-se e a ironia do comentário não deixava dúvidas sobre o mistério daquela encomenda diária. O pai do meu amigo era pedreiro. Como todos os outros rapazes daquela geração na Idanha ou iam ajudar os pais ou trabalhar para o campo. Para aprender uma arte (caiador, pedreiro, carpinteiro, etc.) era preciso esperar uns anos, pois já havia data para poder começar. 

Bicos2.jpg

Na Idanha dos anos 50 só muito poucos tinham hipótese de estudar. Ainda não existia o colégio diocesano e o anterior esteve fechado. Alguns ricos continuavam a estudar. Ou remediados se tivessem a sorte de ter um familiar ou uma pessoa chegada em Castelo Branco, ocasionalmente, podia ter tal oportunidade. Aos pobres estava destinado o campo, as obras e mais tarde a emigração. Alguns da vila escapavam a esta sina, tornando-se um misto de empregado de balcão e moço de fretes nos comércios e lojas. Fábricas só existiam a moagem do sr. Lobato na Carreira e duas fábricas de pirolitos no Ribeirinho. Lá estou a eu fugir e a esquecer-me dos bicos.

Mário Pissarra.jpeg

Um dia desvendei o mistério da encomenda. O meu amigo não sentia grande orgulho na aprendizagem de pedreiro junto do pai. Uma das suas tarefas era levar ao fim da jorna os bicos à forja. Sim, os bicos de tanto bicar na pedra ficavam rombos. Algumas línguas nunca ficam rombas, mas os bicos sim. Algumas pessoas nunca perdem o bico e têm a língua sempre bem afiada, mas os bicos têm de ser afiados. Para isso precisam de ficar em brasa e ser batidos na bigorna.

Termino. Antes que achem que me estou a por nos bicos que tenho bom bico ou sou um bico gourmet. O mais certo é que me mandem calar o bico. Já fechei o dito cujo. Por hoje!

bicos0.jpg

Mário Pissarra

bicos.jpg

4 comentários

Comentar post