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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Bagão Félix em entrevista

28.12.18 | asal

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Trago hoje para aqui um pequeno trecho de uma grande entrevista que o jornal "I" fez a Bagão Félix no passado fim-de-semana (ainda a podem ler na Internet consultando os "ESPECIAIS"). Ele, um economista, amante da vida, benfiquista, pensador católico, entre outras coisas fala da sua fé e da sua relação com os bens materiais. É o que podem ler agora. AH

 

À medida que o tempo vai passando, vai-se tornando mais nostálgico?

 

Não. Vou-me tornando mais amante da minha vida. Gosto muito de viver. Foi a maior e a única prenda que os meus pais me deram. Foi terem-me dado vida. Tenho-lhes uma gratidão infinita. Não tenho muito medo de morrer, mas tenho muita pena. Eu sou católico e, portanto, tenho alguma esperança na vida para além da morte. Alimento-me da esperança que, ao mesmo tempo, é dúvida, porque só se pode ter fé existindo dúvida. De outro modo, não é fé, é crendice.

 

…. Sempre acreditou em Deus?

 

Sou muito heterodoxo. A minha relação com Deus é direta, ou tenta ser. Como dizia Teresa de Calcutá, ‘rezar não é falar com Deus, é tentar que Deus fale connosco’. Rezo em silêncio muitas vezes. Quando rezo uma oração é raro ela entrar dentro de mim porque é mecânica. Por isso, rezo muito em silêncio. Deus, para mim, é intimidade absoluta. Com qualquer pessoa tenho tabus. Tenho com amigos, comigo, com a minha mulher, com as minhas filhas, tinha com os meus pais. É natural, todos somos assim. Quando me liberto totalmente deles é quando estou com Deus. Eu procuro transmitir a minha pobreza essencial, despir todas as circunstâncias e todos os disfarces. Só encontro a minha autenticidade quando acho que falei com Deus.

 

 

Nunca teve dúvidas?

 

Acreditei sempre. Eu e os meus irmãos tivemos uma educação cristã. Não sou beato, longe disso. Sou muito heterodoxo. Uma das coisas que mais me custam na Igreja é ver que alguns dos seus elementos clericais são piores do que eu. Gosto de ter o apoio de pessoas que são melhores do que eu. Isso é que me dá perspetivas de me valorizar. E depois, como dizia Pascal, acreditar em Deus é impossível, mas não acreditar é absurdo. Ou seja, esta passagem só faz sentido se houver alguma coisa que me transcenda. Acreditar é difícil, primeiro porque está fora de moda e politicamente incorreto, segundo porque, para acreditar, estamos nas trevas, não estamos na luz. Estamos nas trevas porque não temos capacidade para entender o que é transcendental. Não temos linguagem e, portanto, tem de ser um ato de fé. Muitas vezes, caio, suplico, levanto-me, duvido, vergasto-me, avanço. Tenho todas essas atitudes na minha relação com Deus.

 

... Disse numa entrevista que é muito desprendido materialmente. Isto é uma escolha ou uma característica?

 

Tem evoluído com a minha idade. Tenho espírito de colecionista. Coleciono ampulhetas há 40 e tal anos. Tenho centenas delas. Livros também. E canetas – tenho centenas, desde o século XIX, e todas elas escrevem. Livro e caneta para mim é o meu mundo. Hoje não quero nada, a não ser o que é importante para a minha vida: saúde e o suficiente para fazer as minhas viagens. Conheço 80 países e viajei muito com as minhas filhas, felizmente. Não havia internet, estudava muito bem os sítios. Mas qualquer material que tenha a mais é um fator de pressão e stress para mim. É uma aflição. Por exemplo, agora no Natal não quero nada. Entre nós não damos nada.

 

 

Muitas pessoas dizem isso e acabam sempre por dar…

 

Não entro nisso. O Natal transformou-se numa coisa absolutamente terrível. Tenho o Natal do pós-guerra. Não havia nada e se os nossos pais nos dessem um chapeuzinho de chocolate era um Natal maravilhoso. E é desses Natais que tenho saudades. Há uns dias, fui à Baixa e tive de parar numa Igreja para sentir o espírito. Até ao dia 24 é o apogeu das compras, depois é o apogeu dos monos [risos]. É uma coisa terrível. As crianças recebem e no fim ligam à coisa mais simples. No dia de Natal estou a celebrar a vida e não quero stress.

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