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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Ao correr da memória

03.09.20 | asal

Já que ninguém faz como o Mário Pissarra... 

O Herculano Lourenço fez anos há pouco e eu falei com ele para o saudar naquele dia especial. Na conversa, vieram à baila as fotos que ele publicou das recentes férias de família na praia. Como ele é de poucas falas no Facebook, eu fiquei agora a saber que ele andou pelas areias alentejanas em praias de que eu já não tinha lembrança. “Era a praia das Furnas, do outro lado do rio Mira, em Vila Nova de Milfontes…”

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O que tu disseste, Herculano! Começámos a falar dos tempos de juventude, com 21 ou 22 anos, em que fomos em serviço de férias para a Colónia Balnear no Instituto de Nossa Senhora de Fátima de Vila Nova de Milfontes, que se enchia de crianças pobres a gozar os prazeres da praia, sendo os seminaristas de Portalegre os monitores daqueles meninos. Era uma instituição fundada pelo Monsenhor Doutor Joaquim Maria Lourenço, que encontrou na generosidade de algumas famílias o dinheiro para levar avante o seu projeto. No Verão, era colónia balnear e durante o ano funcionava como colégio feminino de Nossa Senhora da Graça.

Nós trabalhávamos, é verdade, mas aquele ambiente também nos deleitava a nós. Naquelas duas ou três semanas, tínhamos praia, ensaiávamos canções, dávamos catequese, acompanhávamos as crianças no refeitório. Todos se sentiam animados com este trabalho e eu não sei se chegámos a repetir em anos seguintes. Pelo menos um nunca mais esqueceu aquela praia e aquela Colónia – o Joaquim Henriques Pereira, pároco de Orvalho e Cambas, era para lá que ia todos os anos até ao fim da sua vida…

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Nos tempos livres (seriam dias de descanso ou partes do dia??), também nos lançávamos à descoberta. Havia a praia do rio, quente e calma, e a praia do mar, para a aventura de ondas perigosas. E havia ainda a praia das Furnas, uma atração para gente ousada, pois era preciso deslizar a nado para a margem esquerda do Mira num estuário já bem largo e com o mar ali perto.

Um dia lá fomos até à outra banda, os mais corajosos, explorámos as furnas, umas grutas profundas com boas sombras. Lembro-me de termos arranjado dinheiro para comermos uma melancia! O Herculano foi apanhado agora a degustar melão!

O pior foi o regresso. A maré acabou de encher e nós calculámos distâncias para chegarmos sãos e salvos ao lado de cá. Atirámo-nos à água mais a montante para chegar à praia norte. Mas os cálculos devem ter sido mal feitos, pois um ou dois não nadaram tão depressa como deviam e, em vez de chegarem à praia, deslizaram mais para o mar. Lembro-me de o Pequito Cravo se ver aflito e felizmente salvo por um barco de pescadores que vinham do mar.

 Outras aflições

Eu não sei como aconteceu, quem nos levou (outra vez com o Pequito e mais colegas!), mas um dia encontrámo-nos na Foz do Arelho, num ponto onde a lagoa de Óbidos desagua no mar. Naturalmente andámos por ali, passando a corrente da lagoa para a outra banda sem grande esforço, nada parecido com o perigo de Milfontes. Mas fomos abordados por um banheiro ou vigilante que gritava: «O que vocês se atreveram a fazer! Isso é tão perigoso... Vocês são uns heróis!»

Pelos vistos, até merecíamos umas medalhas! Mas ninguém as atribuía tão facilmente…

 

E em Peniche? Sim, também deambulámos por lá, não sei se à boleia (como o P. Álvaro costumava fazer, correndo seca e meca!) ou se em viagem programada pelo seminário. E era natural que quiséssemos visitar as ilhas Berlengas, ali à vista com seu ar misterioso. O dia não estava soalheiro, o vento soprava e as ondas pediam respeito. Mesmo assim, abordámos um pescador ou barqueiro que fazia aquelas viagens. Resposta do homem:

- Hoje não vou, que posso perder o meu barco!

Toma, uma vez na vida ficámos a valer menos que um barco.

António Henriques

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