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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Alfabeto?!

07.04.20 | asal

Tempo de recordar

 

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 Comecei por conhecer pessoas analfabetas. Do meio que me viu crescer aprendi que os analfabetos eram os que não sabiam ler. E eram tantos. Talvez a maioria. Na minha extensa família alargada, só uma pessoa sabia ler.

 A seguir, ouvi falar em campanhas de alfabetização e concluí que isso queria dizer ensinar os adultos a ler e a escrever. Contar já eles sabiam. Mentalmente, entenda-se. Faziam contas de cabeça. Essa coisa de fazer contas de papel e lápis era habilidade de poucos. Ouvi mais falar do que vi acontecer a dita alfabetização dos adultos.

 Mais tarde, percebi que alfabetização e analfabeto eram palavras que tinham na raiz o alfa e o beta, as duas primeiras letras do alfabeto grego. Uns sabiam as duas letras os outros não sabiam. Já reparou de onde vem a palavra alfabeto?

 Já adulto, descobri que uma das razões do atraso português foi, entre outros factores, o não ter havido um movimento de alfabetização antes da escolarização. Isto porque a Portugal não chegou a Reforma / as Igrejas Reformadas ou Protestantes. Estas vozes que protestavam fizeram de Portugal um país curioso: não teve Reforma, mas teve Contra-Reforma, isto é, não teve protestantes, mas superabundaram os que protestavam contra os protestantes. Lutero, ao traduzir para alemão a Bíblia, gerou nos países do norte da Europa esse movimento de querer ler e interpretar livremente as Sagradas Escrituras. Adiantaram-se e nós ficámos à espera que o Estado criasse a escola para aprender a ler e a escrever. Ele criar, criou, tarde e a más horas, mas, inicialmente, não passou de retórica política.

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 Mais tarde ensinei sobre os analfabetos funcionais. Fizeram a escola, passaram, têm diploma, mas, na prática não sabem ler. Primeiro, verificou-se que não conseguiam ler nem escrever textos. Depois, verificou-se que não sabiam ler o mundo que os rodeava. Passei a ensinar e referir estudos sobre a iliteracia.

Hoje só queria chamar a atenção para uma espécie de iliteracia: a incapacidade de ler nos olhos, nos rostos, nos movimentos, nas lágrimas, na rigidez corporal, etc., das pessoas os seus sentimentos e as suas emoções.


Mário Pissarra