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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Alcains - um pouco de história

27.12.19 | asal
Meu Bom Amigo
 Com o sorriso do Menino, a alegria fraterna e paterna da consoada, aí te mando mais um texto a relembrar coisa passadas que nos dizem respeito. Pode ser que a alguém aproveitem e deem o mote para algum testemunho. Como é matéria de facto, não haverá muito por onde discordar. Talvez haja muito para completar e até corrigir o ponto de vista. Já sabes como eu sou. Tudo quanto vier, é ganho.
Um grande abraço, com votos de um Ano Novo com muita saúde e a bênção de Deus, João Lopes
 

João Lopes.jpeg

 In illo tempore...

Para que conste:

 Permitam-me que levante um pouco a poeira do tempo, que, inevitavelmente, se vai depositando sobre o “passado”, para, com maior nitidez, realçarmos os contornos da nossa experiência, enquanto jovens, no Seminário de Alcains. Para isto, nada melhor do que uma releitura, em traços largos, da conhecida obra do Dr. Félix, já aqui referida.

  Comecemos por responder a duas questões:

  1º Por que surgiu a ideia da construção de um novo Seminário?

  2º Como e quem a divulgou em 1ª mão?

      Antes de mais, a necessidade vital de um espaço condigno de formação dos candidatos ao Sacerdócio. Em 1919, o pároco de Mação, P. João José Alvares de Moura, um homem cem por cento da Igreja, com experiência de missionário em Moçambique, resolveu instalar na Casa Paroquial um Seminário, com a bênção do Prelado, D. Manuel da Conceição Santos. Dada a precariedade das instalações, chegou a elaborar um projeto de construção de raiz, ali mesmo na povoação que pastoreava. (Ver  em Os Nossos Seminários as fotografias da Residência Paroquial e Seminário de Mação,  e a eminente figura de Mons. Moura, pp. 212 e 217)

  Eis senão quando, no Verão de 1920, a ilustre família Rebelo põe à disposição da Diocese o solar do Gavião, logo aproveitado para a instalação dos Cursos de Preparatórios e de Teologia.  Era, então, o único Seminário Diocesano. A afluência dos alunos aumentou e a Casa solarenga tornou-se pequena para albergar tantos seminaristas. A ponto de o Reitor de então, o Cónego Francisco Miranda (de 1923 a 1929) se ver obrigado a alugar umas casas em redor para alojar os teólogos. Claro que  se tratava de uma solução provisória, insuficiente.

  Impunha-se, com urgência, pensar num edifício novo em qualquer parte da Diocese. Mas como, se depauperada, a instituição não dispunha de meios? O Senhor D. Domingos, Bispo titular desde 1921, servia-se do seu enorme prestígio junto das famílias mais ricas, e resposta não havia. Estava-se neste impasse quando em Novembro de 1926, no Boletim diocesano, “ Flores do Santuário” um “ teólogo” não identificado, publica uma notícia, com ar profético, aludindo a um próximo grande acontecimento  da maior importância para a vida diocesana. Toda a gente ficou em suspenso, na expectativa, até que, no mês seguinte, se clarificava o mistério: um casal cristão propunha-se construir à sua custa um novo Seminário, em Alcains, sua terra natal.  Quem deteria tão precioso segredo? Quem era esse teólogo misterioso?

 O Sr. Dr. Félix, na p.111 do livro que venho seguindo, atribui ao Sr. Cónego Miranda a autoria da auspiciosa novidade. Mais. Sugere mesmo que terá sido ele a persuadir o ilustre casal alcainense a aplicar a sua fortuna nesta obra de Deus ao serviço da Sua Igreja. Com efeito, enquanto Pároco de Alcains, de 1918 a 1923, ganhara a amizade e  confiança do Senhor José Pereira Monteiro e Esposa, conhecendo bem os seus meios de fortuna  e o seu espírito de benemerência para com a Diocese. ( ver o cap. III da 2ª parte, “Os Fundadores do Seminário” pp 105-107) . Neste contexto, o nosso Vigário, natural das Sarzedas, que tinha, nos seus pergaminhos, uma inteligência viva, formação no Real Colégio da Missões em Cernache de Bonjardim e uma experiência profícua de missionário em Angola, não perdeu a oportunidade de levar o ilustre casal cristão, sem filhos, a investir na construção de um Seminário, ideia que o Senhor Bispo abraçou como dádiva divina.

  À inteligência prática e tato pastoral do Sr. Cónego Miranda se deve, pois, em grande parte, a ideia e a vontade de o casal Monteiro construírem o Seminário de S. José, em Alcains. Em princípio, seria destinado ao curso de Teologia e Filosofia, um Seminário Maior, portanto.  Mas por que não foi assim, e, ao contrário do previsto, se tornou um seminário de Preparatórios, logo desde a sua inauguração, em 13 de Outubro de 1929?   O Dr. Félix envolve esta mudança de decisão numa nebulosa, que o Florentino Beirão, incansável investigador de estirpe, viria mais tarde a descortinar. Verdade seja dita  que, na p. 19, o Autor nos fornece  elementos suficientes para se deduzir a sua preferência pela primeira hipótese.

Seminário de Alcains.jpg

Dada esta inversão de marcha, e, carecendo a diocese de um Seminário Maior, especificamente devotado ao estudo da Sagrada Teologia, o Mons. Moura (título concedido pelo Papa Pio XI em 1925) Pároco da Sé de Portalegre desde 1920 e secretário particular do Senhor D. Domingos, resolveu contornar a questão, avançando logo em 1928 para uma subscrição diocesana destinada à compra de uma casa na antiga rua dos Canastreiros,  hoje Rua 31 de Janeiro ( Ver foto nas p. 298 do já referido Os Nossos Seminários)  onde se instalou o Curso de Teologia desde 1929 a 1933.   Ficava, assim, a Diocese com um Seminário de Teologia na sede episcopal, como recomendara o Concílio de Trento em 1563,  e, de alguma forma, dando continuidade ao  Seminário do Convento de S. Bernardo (1878-1911), violentamente pilhado pela República, ao abrigo da Lei da Separação da Igreja e do Estado de 20 de Abril de 1911. ( Cf Os Nossos Seminários, pp121-146, com duas fotos nas pp. 123 e 125)

 Concluindo: em 1931, a Diocese dispunha de três seminários: o Maior, em Portalegre, e o Menor no Gavião e Alcains. Para agradecer a Deus, dádivas tamanhas, vão os alunos e professores a Fátima, em peregrinação, com o seu Bispo, que terá celebrado o 1º Pontifical na Cova da Iria, em 25 de Março.  Os Seminários diocesanos colocavam-se definitivamente sob a égide maternal da Virgem de Fátima. (Continua)

João Lopes 

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