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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Afeganistão - Casa de Bravos - 2

11.10.21 | asal
 Os  talibãs  têm-nos dado uma imagem distorcida do seu belo País. É tal o ruído produzido à sua volta que muita gente pensará que eles representam a mentalidade e o modo de vida do Povo afegão.  Nada mais falso. Com o seu governo errático e mal preparado, aqueles jovens  só têm feito disparates porque outra coisa não sabem fazer. Na comunidade internacional, já há quem os queira julgar como criminosos de lesa humanidade. Eles vivem do oxigénio dos grandes interesses de certos países árabes.  
 O mistério para mim é como as grandes Potências Ocidentais permitiram aquele descalabro que está a  devastar a vida de milhões de afegãos. No fim, apresentarei o testemunho de uma jornalista afegã que os desafia para um debate sobre o verdadeiro Islão, que não é nada daquilo. Fechar salões de cabeleireira, acabar com a música, amortalhar as mulheres... 
 Pedia-te o favor de apresentares a imagem da cordilheira do Indu-Cuche. Se puderes, claro. Agradecido por me acolheres no teu Blogue, com um grande abraço do João Lopes
 
“ A guerra é uma coisa horrível, mas melhora rapidamente os nossos conhecimentos de Geografia.” M. Monjardino, Expresso, Revista, 10 de Setembro 2021
 

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  Difícil compreender um país e as suas gentes, o mosaico da suas etnias e culturas, sem conhecer, ainda que levemente, o espaço e o tempo em que se processou a sua existência, desde a mais remota antiguidade. A verdade é que, sublinha Monjardino, antes do fatídico 11 de Setembro de 2001, a maior parte das pessoas não fazia ideia de onde ficava o Afeganistão, sendo a sua História e Geografia um mistério, encoberto pelo exotismo e a distância.

    É sabido que, na maior parte dos casos, a geografia determina a história de um povo. Não fosse a posição geoestratégica do Afeganistão, entalado entre Impérios, rampa de lançamento, apetecível, para outras conquistas, ponte de ligação entre o Médio Oriente e a Ásia Central, abrindo-se aos imensos espaços da Ásia do Sul e Ocidental, e a sua atormentada história seria, decerto, diferente. “ E isso, meus jovens amigos, é a História do nosso país: um invasor após outro. Macedónios, Sassânidas, Árabes, Mongóis. Mas nós somos como aquelas muralhas além ( as da cidade dos Budas no vale de Bamiyan, a mais de 70 Km , a norte de Cabul). Danificadas, e nada de belo para ver, mas ainda de pé.” Hosseini , Mil Sóis Resplandecentes, Presença, 2008, p. 117.

   Antes de mais, o nome. No tempo dos persas aqueménidas e de Alexandre Magno, ainda esta designação não existia. Era a satrapia da Báctria, a grande região da Ária ou Ariana, em volta da cidade de Herat, já existente ( como o Hitler se enganou ao situar  o povo ariano no Norte da Europa!) províncias da Sogdiana e da Gândara. (Veja-se  o Atlas da História do Mundo. Seleções do Reader´s Digest) 

   O termo gentílico  “afegão” começa por ser mencionado, no séc. III (d. C) sob a forma  “Abgan” pelos Sassânidas, persas que dominaram a região (224-637 d. C). Mas, em rigor, o étimo e o significado da palavra são ainda desconhecidos, dado que aquela forma, evoluindo depois para “afghana” em persa, não passa de uma transcrição fonética.  De qualquer modo, temos já aqui um princípio: Terra dos afegãos. Mais tarde, com a adição do sufixo "istão", sufixo persa para “lugar”, resultou o termo geográfico de Afeganistão, divulgado no séc. XVI nas memórias do Imperador Mogol, indiano,  BABUR, que desenvolveu Cabul, escolhendo esta bela cidade para ser sepultado. Só em 1776 é que a capital se transferiu de Kandahar, fronteira sudeste da Índia de então, para Cabul na colina esplendorosa do INDU-CUCHE, a cordilheira montanhosa que, na sua majestade impressionante, domina todo o território.

  Historicamente, o termo “ afegão” designa os pasthunes, o maior grupo étnico, com metade da população, o mais antigo, que se ufana de há mais tempo falar o pashtô ( de origem iraniana) e de ser o guardião dos costumes ancestrais, designadamente de um código de conduta, assente na valorização dos sentimentos da “ Honra e  Orgulho”, no monopólio masculino e patriarcal do poder e consequente subalternização da mulher,  e que  remonta, segundo a interpretação racial e ideológica daquele grupo, ao período pré-islâmico da antiga Báctria. Para eles, pasthunes e afegãos são sinónimos. E já agora se diga que a 2ª língua, mais falada nas áreas de influência cultural persa, é o Dari ou Farsi. Igualmente ensinada nas Escolas.

   Outras tribos há como os Tajiques, um quarto da população, a Norte; os Uzbeques e Turcomenos, a norte e noroeste, na região do rio Amudária, ( e que os soviéticos, na década de 80, defenderam com tenacidade por ser rica em gás natural); os Hazara, descendentes dos Mongóis do séc. XIII, na região centro, de língua Farsi, no dito Vale de Bamiyan, no sopé da gigantesca cordilheira, espinha dorsal do país. Outras pequenas minorias tribais subsistem, nas 34 províncias, como remanescentes dos povos invasores.

  A convivência entre as tribos não tem sido pacífica. E nem o facto de partilharem, em quase 90% da população, a versão sunita do islamismo parece garantir a unidade e a paz entre elas. Quanto aos Hazara, falantes do Dari, seguidores do xiismo, versão quase exclusiva do Irão, esses têm sido sistematicamente perseguidos pelos Pasthunes, que tentaram, por várias vezes, reduzi-los à escravidão. ( Ver O Menino de Cabul) Ainda há pouco, os talibãs, um  pequeno grupo de combatentes radicais, jihadistas, nascidos há 40 anos, sob a égide da Al-Qaeda, no Paquistão, no seio da grande tribo pasthune, tradicionalmente sunita, mataram 13 elementos dos Hazara, num atentado  do dia 5 deste mês, facto denunciado pela Amnistia Internacional. E o ódio religioso não é menor : há dias, fizeram explodir uma mesquita xiita em Kunduz no Norte - sinal de que o xiismo também se encontra em regiões afastadas da fronteira do Irão.

   Tentativas culturais têm sido feitas para superar o exacerbado tribalismo que fecha as comunidades sobre si próprias, isolando-as nas aldeias anichadas nos vales e encostas das colinas, sujeitas ao direito consuetudinário vigiado pelas assembleias de 10 ou 12 elementos que detêm o poder local. No entanto, o nacionalismo, a religião, apesar das divisões do Islão, entre sunismo e xiismo, as trocas comerciais e culturais, o histórico nomadismo, a transumância dos pastores, atuam como forças de unificação, cimentando um sentimento de pertença ao mesmo Povo afegão. E a paisagem deslumbrante, o amor entranhado ao seu território, nunca desmentido nas terras do exílio, de uma beleza rude e agreste, de cumes gelados de 7.500m, mil sóis resplandecentes (K. Hosseini),  ocultos vales verdes e aldeias de casas de adobe, mais reforça o sentimento de identidade de um povo, de uma tenacidade peculiar, humildade reconfortante, hospitalidade sem par, resiliência e orgulho, qualidades postas à prova nas refregas sangrentas a que se vêem obrigados pela ganância estrangeira. Muitas vezes com armas rudimentares como a funda e um fuzil, mas sempre com formidável sentido de mobilidade, ali vários impérios têm sido vencidos.

  As fronteiras estão definidas por um tratado anglo-soviético dos finais do séc. XIX, mas extremamente porosas pela configuração montanhosa do território: a Norte, o Turquemenistão, Uzbequistão e Tajiquistão, há pouco integradas na URSS (que lá se afundou em 1989), o corredor de Vakam liga o Afeganistão à China, a nordeste, (lembra o autor de um precioso artigo no Mensageiro de Santo António de setembro; e  a Revista Além-Mar deste mês de outubro traz uma excelente entrevista com um  ex-refugiado afegão, hoje investigador na Universidade de Nova Iorque) a Leste e a Sul, o  Paquistão; a Oeste, o poderoso Irão.

 Quatro grandes rios, com as nascentes no Inducuche, o Teatro do Céu, irrigam o território de norte a sul: o Hari Rud que passa por Herat, a oeste; o Amudária que rega enormes planícies muito férteis; o rio Cabul que fecunda as regiões orientais a sul da gigantesca cordilheira que quase abraça a capital e o rio Helmand da província homónima que corre para sudoeste. Cedros e abetos, acácias e tamargueiras alternam com as grandes plantações de arroz, algodão, trigo, ameixas e alperces e as famosas uvas de Kandahar. E não se esqueça o carneiro de lã caracul, preciosa para casacos de João Lopes1.pngastracã, os tapetes coloridos, o azulejo de Herat, o lápis-lazúli tão procurado e, coisa rara por cá ou (talvez não!)  o camelo bactriano de duas bossas.

  Tudo mercadejado em longas caravanas, cruzando-se com a histórica  Rota da Seda, celebrada pelas viagens de Marco Polo,(1271-1295)!... João Lopes  

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